Mães e Pais na 1ª Pessoa

Catarina Beato 

Dias de uma Princesa

[vergonha?]

“Não são novas, já as tinhas há imenso tempo” – justifiquei, mentindo, sobre as botas novas que trazia nos pés. Custaram 39,90 euros no saldos, mas mesmo assim conclui aquilo que já sabia há algum tempo: tenho vergonha de ir as compras. O tempo verbal é presente mas é uma sensação recente. Gastar dinheiro em qualquer bem não essencial, ou mesmo um pacote de esparguete que seja gourmet e não marca branca, provoca-me um enorme constrangimento.
O verbo ‘comprar’ passou a ser obrigatoriamente acompanhado por um qualquer ‘mas’: comprei mas estava em saldos, comprei mas foi muito barato, comprei mas precisava mesmo.
Eu não gasto dinheiro roubado. E o dinheiro dos contribuintes que recebi em forma de subsídio de desemprego não era sequer um décimo do que paguei em 12 anos de contribuições mensais para a segurança social.
Fará sentido que o consumismo tenha passado a ser um pecado capital com direito a linchamento em praça pública? Consumir é uma falta de respeito para com quem não o pode fazer?
Eu sinto o ‘sim’ como resposta ou não esconderia, até das minhas amigas, o último par de sapatos que comprei mentindo que já os tinha. Ou não me sentiria a pior pessoa do mundo da última vez que fui ao supermercado biológico em vez de trazer tudo marca branca.
Sabemos que deixar de consumir não é solução porque a curto prazo significa (ainda mais) falências e desemprego. A solução é dar condições para podermos gastar e por a economia a funcionar. Viver e não sobreviver.
Continua a acreditar que os salários e as pensões mínimas de mil euros seriam a melhor medida para acabar com a crise. E eu deixava de ter vergonha quando compro alguma coisa não essencial à minha sobrevivência.

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