Espaço Família | Vem aí um irmão

Psicologia Clinica

26 de Fevereiro de 2016

Vem aí um Irmão?

 

A nossa querida Vera  Dias Pinheiro, Mãe blogger e Embaixadora Barrigas de Amor® está prestes a ser mãe pela segunda vez. Lançou um desafio no blog As viagens dos Vs a todas as mães a partilharem a sua experiência no momento de dizer ao filho ” vem aí um irmão”.

Foi -nos também lançado o desafio a falarmos sobre este tema tão importante e que causa tantas dúvidas e ansiedades… pedimos ajuda e o parecer da Psicóloga Inês Afonso Marques, Coordenadora da equipa infanto-juvenil na Oficina de Psicologia.

 

O nascimento de um segundo filho constitui um importante marco no desenvolvimento de toda a Família. Se, no nascimento de um primeiro filho, os ajustamentos ocorrem essencialmente no seio dos crescidos, um segundo filho pressupõe que um pequenote passe de “filho único a irmão mais velho”. Dúvidas, desejos e expectativas que se criam, bem como necessidades que emergem, acarretam enormes desafios emocionais (mas não só) para o casal e para o seu primeiro filho. Por isso, é natural que o humor da família oscile entre o entusiasmo e alegria e o receio e apreensão.

O que mudará?

Talvez menos aspectos centrais do que imaginam num primeiro momento.

Tempo. Não há menos tempo. Há necessidade de gerir o tempo de maneira diferente. Gerir rotinas de duas crianças implica necessariamente gerir o tempo de forma diferente. Por outro lado, crianças com idades diferentes têm necessidades diferentes, originando ritmos distintos. Sono, alimentação e distracção em doses duplas e respeito por fases de desenvolvimento distintas pode parecer, numa primeira instância, tarefa para super-herói. No entanto, o envolvimento do irmão mais velho no cuidado do mais novo pode ser um truque com um retorno valioso.

Mais cansaço e com maior facilidade. Os primeiros meses do recém-nascido são sempre exigentes e desgastantes, quer do ponto de vista físico quer emocional, particularmente para a mãe. Estar sensível a isso, reforça a importância do auto-cuidado. Querida mãe, cuide de si, mesmo que por breves minutos, todos os dias.

Maior confiança nas capacidades. Aquilo que num primeiro filho poderia parecer um quebra-cabeças, como fraldas e amamentação, deixará de o ser, pelo menos na mesma escala, quando se fala de um segundo filho. É natural que as dúvidas na segunda viagem sejam menores e a auto-confiança ajudará a descomplicar muitas situações.

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Como atenuar o impacto das mudanças?

A organização e a preparação podem ser importantes aliados para todos. E não falamos apenas de fraldas, roupas e biberons. Preparar a casa e a Família para as mudanças é uma tarefa importante. Estar consciente dos novos desafios permite ao casal usufruir desta nova fase do ciclo de vida da família com maior tranquilidade e prazer. Ajudar o filho mais velho a compreender o que mudará e o que permanecerá inalterável, permitirá que também ele receba o seu irmão com maior segurança e disponibilidade emocional.

A previsibilidade dos acontecimentos gera segurança. Sabendo o que irá ser novidade com a chegada de um bebé, o irmão mais velho irá sentir-se mais confiante sobre o seu papel na Família. É essencial que a criança sinta que as suas rotinas podem mudar, mas que o amor que os pais sentem por ela se mantém intacto.

 

E a Família alargada ajuda ou atrapalha?

Dosear a emoção e a forte vontade de querer estar perto do mais novo elemento da família e, em simultâneo, dar espaço (temporal e emocional) ao casal e ao filho mais novo para para se ajustarem à nova realidade familiar é fundamental para o bem-estar de toda a dinâmica familiar, e para que os pais consigam criar as melhores condições, de modo a dar resposta às necessidades do recém-nascido e continuar a acompanhar o mais crescido.

Como pode então a família alargada ajudar sem ser intrusiva? De forma simples, o apoio da família revela-se particularmente útil sob a forma de disponibilidade para auxiliar o casal naquilo que este considerar importante. E de que forma pode o casal ajudar-se sem se isolar? Pedindo apoio e aceitando a disponibilidade dos outros para ajudar.

Desenvolver novos laços emocionais, dar segurança ao bebé, protegê-lo, ajudá-lo a regular-se fisiológica e afectivamente, estimular, brincar e ensinar o bebé a desenvolver o auto-controlo… O momento da chegada de um bebé não é, efectivamente, o momento ideal para se querer ser “super-mãe, mulher, dona de casa, profissional, amiga…”. Ou, se pensarmos no pai, deixemos também de lado a imagem dos super-heróis. Por isso, deleguem tarefas específicas em casa (o irmão mais velho ficar responsável, por exemplo, por organizar a roupa ou fazer a lista das compras), e peçam ajuda para assuntos que tenham de ser resolvidos fora de casa (como pedir aos avós que passem no supermercado a comprar o pão para o dia seguinte). Deste modo, o casal ganhará tempo e espaço para se dedicar aos filhos, ao casal em si e à individualidade de cada um dos elementos. Sim, reforço esta ideia. Uma mãe (e um pai, claro) não deixa de ser pessoa. A prevenção da depressão pós-parto também acontece no pós-parto. Sabe-se que o apoio do marido é importante nesta prevenção. Outro dos factores determinantes é a mãe mimar-se e rodear-se de apoio para se poder cuidar. Um banho relaxante, sem banda sonora de choro, uma caminhada de mão dada à beira mar, um jantar romântico fora de casa ou uma saída com amigas são formas de a mãe se mimar. E se em algum momento a palavra “culpa” pairar, lembre-se de que os bebés sintonizam emocionalmente com os cuidadores, pelo que uma mãe que cuida dela é uma mãe mais disponível para cuidar do seu bebé.

Peçam ajuda naquilo que realmente precisam. É importante que se foquem no essencial e “poupem recursos”. Peçam a um familiar que faça as compras urgentes do supermercado e as leve a casa, a outro que prepare algumas refeições que possam ser congeladas, a um que passe a roupa a ferro, a outro que fique em vossa casa com o bebé durante umas horinhas para que possam tomar um banho relaxante e dormir um pouco de forma tranquila e sem sobressaltos… Sejam flexíveis.

 

E como ajudar o filho mais velho a  sentir que continua a ser especial?

– Promovam o envolvimento do mais velho nos cuidados do bebé, realçando as suas qualidades e elogiando o seu carinho e dedicação ao irmão mais novo.

– Contem-lhe a sua própria história, recorrendo a fotografias, vídeos e outros registos. Conhecer a sua história aumentará a expectativa de querer participar activamente na vida do irmão, ajudará a nívelar expectativas temporais e, simultaneamente, irá reforçar laços emocionais fortes e significativos entre ele e os pais.

– Evitem muitas mudanças em simultâneo. Mesmo quando falamos em mudanças desejadas, existe sempre uma certa dose de stress a pairar. O que menos se quer, por ora, são mais emoções desafiantes para serem geridas. Mudar de casa ou de escola, por exemplo, na altura do nascimento do bebé, pode ser uma dura prova à resiliência de todos.

– Continuem a dedicar tempo especial e exclusivo ao mais velho. Dêm-lhe espaço e oportunidade para que possa falar daquilo que pensa e sente, assim como dos seus assuntos triviais do quotidiano. Demonstre abertura e genuinidade, mas não o faça sentir-se obrigado a tal.

 

E se ele tirar do caixote as birras há muito arrumadas?

Dependendo naturalmente da idade, a capacidade da criança se expressar é variável e, por vezes, as palavras podem ficar em segundo plano quando se fala de expressão emocional. Podem, assim, surgir as birras, as dificuldades em adormecer ou comer, o mau comportamento na escola ou o mau humor e agressividade. Contudo , se procurarmos compreender o que escondem estes comportamentos, talvez nos deparemos com o sentimento de ansiedade da criança, face a uma nova realidade. Será este o primeiro passo para podermos tranquilizá-la. É natural que esta criança precise de ajuda para se adaptar a esta nova fase. E é possível fazê-lo de forma muito “simples”. Equilibrando afecto e segurança.

Que a Família cresça, com afecto e segurança!

*Artigo exclusivo para Barrigas de Amor e Blog As viagens dos Vs

Inês Afonso Marques

Psicóloga Clínica

Coordenadora da equipa infanto-juvenil

Oficina de Psicologia