Atualidade

13 de Abril de 2015

Uma vénia às mães (sobretudo às que pintam as unhas)

Sobreviver às manhas quando se tem filhos é difícil. Chegar ao emprego com as unhas pintadas é milagre. Tiro o chapéu às que conseguem.

Não é dia da Mãe. Sei perfeitamente que não é dia da Mãe, mas é hoje que me apetece escrever sobre mães, e não era o raio do calendário das festas que me ia impedir de o fazer.

Mães, portanto.

Tudo começou porque esta semana fiquei com duas crianças de quatro anos, minhas netas, mas para o caso tanto faz. Durante dois dias, só isso, um, dois, não 365 dias, nem tão-pouco até à maioridade ou, mais propriamente, para lá dos 30 anos, a média de idade com que eles saem da casa paterna. Mas dois dias chegam para reviver o pesadelo que são as manhãs para quem tem de ir levar os filhos à escola e, em seguida, trabalhar.

O despertador toca e, em lugar de nos teletransportarmos apenas a nós para fora de casa (e sabe Deus quanto isso custa), é preciso repetir o exercício com cada uma das criaturazinhas que queremos arrastar connosco. Começamos por acordá-las, um gesto absolutamente contranatura, tendo em conta o trabalhão que deu adormecê-las e o facto de ser o estado mais encantador em que podem estar. É claro que elas refilam, ou não fossem nossos filhos, ou seja, inteligentes. Segue-se o vestir uma, depois vestir outra, e suportar com paciência os caprichos ensonados de quem jura que aquelas meias não são suas, mas da outra, os sapatos, idem aspas, e que nunca vão para a escola de vestido, ou de calças – o importante é que seja o oposto daquilo que temos nas mãos.

Segue-se o pequeno-almoço. Indignadas, protestam porque não há pão fresco nem os cereais de que gostam, e o fiambre está frio e não sabe a nada, e acabam por aceitar bolachas de água e sal com manteiga, porque os iogurtes de 0% lactose sabem mal e ninguém se lembrou que ainda não estão viciadas nas paranóias dietéticas dos adultos. Perguntam por panquecas e salada de fruta?!? Olho-as, abismada. A minha filha, sangue do meu sangue, faz panquecas às oito horas da manhã? Como me pode trair desta maneira? Explico-lhes que as telenovelas mexicanas, com a empregada fardada a servir sumo de laranja acabado de espremer, numa mesa aperaltada de bolos, são fantasias da televisão, e trato de preparar o almoço que levam para a escola.

Como é que é possível que haja pais, como li esta semana no jornal, que querem ter o poder de votar as refeições servidas aos filhos nas escolas? Pobres e mal-agradecidos. O que eu teria dado para que, hoje, alguém lhes pusesse um prato à frente com qualquer coisa lá dentro.

No momento de sair da porta, uma queixa-se da barriga. E depois vomita, coitadinha. Em cima de tudo. Seria do fiambre demasiado frio? Prefiro a versão virose, e decido que não pode ir à escola. Puxo pela cabeça, encontro um tio disponível que fica com ela. Acelero o passo com a outra. Reparo, na subida, que tenho um sapato de cada cor, não é gozo, é verdade, e que me esqueci de pôr as lentes de contacto. Escovar o cabelo também não foi uma opção.

A luz da gasolina acende. Já na reserva. Respiro fundo e paro numa bomba que não conheço, mas de que me vou tornar cliente – tem um senhor que abastece, sim, é um sinal divino, acho que lhe dei 30 euros de gorjeta e pus cinco euros de gasóleo, pouco importa, merece tudo.

Abraçamo-nos à porta da escola e começo a correr mais depressa ainda. Chego dez minutos mais cedo, passo um pó pela cara para tentar esconder as olheiras e agradeço o facto de o espelho retrovisor não ser o da madrasta da Branca de Neve. Não me admira nada que a senhora o tenha espatifado, quem é que quer ouvir comentários daqueles ao raiar do dia!

Chego ao encontro com duas raparigas perfeitas. O cabelo impecável, pintadas e, cúmulo dos cúmulos, as unhas de um azul lindo, sem uma lasca. Escondo as minhas, fechando as mãos, e peço desculpa pela melena desgrenhada. Tenho lá em casa duas crianças, digo, certa de que a justificação será convincente. Azar. Têm filhos. Dois cada uma. E vieram de comboio, e de metro, e, quais Bond Girls que nunca se despenteiam mesmo quando rastejam em subterrâneos, ali estavam, impecáveis. Pergunto-lhes como conseguem, mas não quero ouvir a resposta. Os milagres não se explicam, admiram-se. Faço-lhes uma vénia rasgada.

Fonte: Jornal i