Mães e Pais na 1ª Pessoa

Catarina Beato 

Dias de uma Princesa

[uma questão de expectativas]

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No curso de Economia, aquele que um dia arranjarei coragem para acabar, aprendi que as expectativas são a parte mais importante da equação. São as expectativas que definem os cenários: os macroeconómicos e os das relações.

E é nas expectativas das relações que se constroem negócios, seja na economia nacional ou doméstica.

Falo de relações entre pais e filhos, falo daquilo que esperamos ser como pais e daquilo que esperamos dos nossos filhos. Queremos sempre ser os melhores pais do mundo e ter os melhores filhos do mundo. Queremos ser perfeitos e ter filhos que durmam a noite toda, comam a comida toda e, de preferência, chorem pouco.
Eu sou assim: uma mãe que quer ser a melhor mãe possível, e só evito falar em perfeição porque sei que essa não está ao meu alcance.
Nessa vontade de fazer melhor inscrevi-me num workshop: a arte e a ciência de educar crianças felizes. Éramos várias mães e alguns pais. Conversámos sobre as nossas fragilidades, sobre as nossas necessidades, sobre birras e estratégias para as ultrapassar (não para as evitar). Falámos sobre a normalidade das imperfeições e – que isto não sirva para o cenário macroeconómico do país – sobre como baixar expectativas.
No meio da conversa sobre as ferramentas para sermos melhores, alguns pais desabafavam que não sabem o que fazer com os filhos, que queriam filhos melhores, que não acordem de noite e que comam tudo sempre.
E é aqui, nas elevadas expectativas que temos para a relação com os pequenos seres que desestabilizam as nossas vidas, que nascem novas oportunidades de negócio. Se alguns livros sempre prometeram que poriam os nossos filhos a descansar entre as oito da noite e as oito da manhã, perante as dúvidas de que não estivéssemos a aplicar bem as técnicas, surgem especialistas que, em nossas casas, garantem pôr os nossos filhos a dormir.
E se os livros de receitas infalíveis para alimentar crianças não resultarem, a indústria alimentar garante sabores que sabemos que não ficarão no prato e acalmarão as nossas ansiedades de pais, prestadores de garantias nutricionais dos nossos filhos.
Para o choro, esse que incomoda, criam-se baloiços, máquinas de sons, bonecos luminosos ou de movimentos vários, mas todos milagrosos.
Nisto de termos filhos, e, mais uma vez, que seja exatamente o contrário daquilo que esperamos para a economia do país, pouparíamos em dinheiro e em ansiedades se baixássemos as expectativas: os putos não dormem a noite toda (alguns dormem, mas eu nunca tive essa sorte), na verdade, nem sempre comem, e choram que se fartam.

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