Mães e Pais na 1ª Pessoa

Catarina Beato 

Dias de uma Princesa

[uma manhã apenas menos boa, comparativamente falando]

A perceção que temos do mundo é totalmente condicionada pelos lugares onde nos movemos. Eu sei, é óbvio. Mas nos dias em que o óbvio nos entra pelos olhos dentro, é tudo mais doloroso.

Um grande amigo dizia-me que existem geografias sentimentais, os lugares onde as nossa memórias são condicionadas por tudo o que já vivemos. Hoje, entendo que existem também geografias de realidade.

Tenho escrito sobre os dias bonitos, sobre o sol que torna Lisboa ainda mais bonita, sobre as pessoas que enchem as ruas e sobre os os turistas nas lojas. Tenho escrito sobre pessoas com talento que enchem salas de espetáculos. Crise, qual crise?

Hoje escrevo na sala de espera de um hospital. Estar sozinha nas geografias onde me movimento permite-me olhar à volta. Muitas pessoas perguntam-me porque insisto em fazer tudo sozinha, ir de táxi para a maternidade para ter um filho, fazer as compras com dezenas de sacos pesados, levar o meu filho mais velho a um filme de crescidos com o filho pequeno agarrado às pernas, conduzir até às urgências do hospital.
Eu não gosto de incomodar as outras pessoas, confesso, e são momentos de solidão que me permitem ver tudo com muita atenção.

Esta manhã, enfiada nas urgências do hospital, por muito que quisesse ter pena de mim mesma, por estar sozinha, seria impossível. Primeiro, porque a minha solidão é uma escolha e a dos velhos e velhas cheios de dores não é. Que raio de país este em que os nossos velhos são deixados sozinhos, em situações limite de pobreza, em situações risco, de quedas, de fome, de morte.

Esta manhã não me apetece falar da cidade cheia de iluminações de Natal, nem dos carrosséis do Terreiro do Paço, nem das músicas, nem dos navios cheios de turistas que enchem o rio azul de muitas cores.

Esta manhã queria poder mimar todas as pessoas que estão sozinhas, todos os velhos que já deram tudo a este país que lhes dá tão pouco. Esta manhã nem sequer me interessa que a Segurança Social continue a achar que sou rica, apenas porque passo recibos verdes, e queria apenas que todas as reformas permitissem aos nossos velhos terem uma vida e não uma dor permanente.

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