Atualidade

3 de Outubro de 2014

Um em cada três bebés nascidos em 2013 vai viver até aos 100 anos

Portugueses centenários estão a crescer 30% ao ano. No final do século, esperança de vida chegará aos 100.

“No dia seguinte ninguém morreu”. Nem no outro, nem no outro, nem no outro. Na obra Intermitências da Morte, José Saramago imaginou uma sociedade onde todos viveriam para sempre. Apesar do desenvolvimento da medicina e dos avanços científicos, a vida eterna continua a ser pura ficção. Mas a verdade é que o aumento ininterrupto da longevidade é bem real. Há décadas que a esperança de vida à nascença cresce a um ritmo constante: mais três meses por cada ano que passa. No final do século, chegará aos 100 anos. A barreira do centenário, que a maioria acredita não vir a ultrapassar, tornar-se-á vulgar. E depois? Qual é o limite?

De acordo com as Nações Unidas, na maioria dos países, independentemente da sua localização geográfica ou estádio de desenvolvimento, a taxa de crescimento dos chamados muito idosos, a partir dos 80 anos, está a subir mais rapidamente do que a de segmentos mais jovens da população. Apesar de a proporção de pessoas que vivem até aos 100 ser ainda muito pequena, o número está a aumentar de forma acentuada. No ano 2000, havia cerca de 180 mil centenários em todo o mundo. Em 2050, estima-se que venham a ser 3,2 milhões.

Em Portugal, o fenómeno também não passa despercebido. Há 100 anos havia no país apenas 395 centenários. No ano passado, eram 3393, quase dez vezes mais. E o ritmo de crescimento acelerou nos últimos anos. Desde 2011, o número de portugueses com mais de um século de vida tem aumentado a um ritmo de cerca de 30% ao ano. Em breve, isso será o normal, garantem os especialistas. Soprar uma centena de velas deixará de ser motivo de notícia no jornal local. “Se não houver nenhum fator que interfira com a esperança de vida, como guerras ou grandes epidemias, dentro de relativamente pouco tempo ela chegará aos 100 anos. Viver pelo menos um século tornar-se-á vulgar”, diz José Rueff, diretor do Centro de Investigação em Genética Molecular Humana da Universidade Nova de Lisboa.

Esse já é, aliás, o horizonte de vida de grande parte das crianças nascidas agora. Segundo um estudo do Instituto de Estatísticas do Reino Unido, um em cada três bebés nascidos em 2013 viverá, pelo menos, até 2113. O INE não tem estudos semelhantes para Portugal, mas a realidade não deverá ser muito diferente, já que a esperança média de vida nos dois países é bastante próxima.

Biologia favorece as mulheres
Qual será, afinal, a próxima fronteira? 150, 200 anos? Pode parecer delírio, mas Aubrey de Grey, um conceituado investigador britânico na área da gerontologia, garante mesmo que a primeira pessoa a chegar aos 150… já nasceu. O cientista acredita que nas próximas décadas os médicos terão todas as armas de que precisam para “curar” o envelhecimento. “Estamos a ser capazes de reverter células adultas em células embrionárias, portanto nada nos diz que no futuro não consigamos vir a parar ou a atrasar significativamente o processo de envelhecimento”, corrobora Pedro Granja, coordenador científico do Instituto de Engenharia Biomédica da Universidade do Porto. “As células estaminais são o Santo Graal da biologia, mas ainda estamos longe de conseguir explorar todo o seu potencial. Faltarão pelo menos 20 a 30 anos até conseguirmos utilizá-las com grande impacto clínico”, diz.

E quando conseguirmos? Deixará de haver limite para a vida? Miguel Remondes, biólogo e investigador principal do Instituto de Medicina Molecular (IMM) da Universidade de Lisboa, defende que não. “O envelhecimento corresponde a uma acumulação de alterações irreversíveis do organismo, com os consequentes défices funcionais, a certo ponto incompatíveis com a vida autónoma”. Ninguém sabe, no entanto, determinar qual será o limite de viabilidade biológica do organismo, “pela simples razão que os próprios mecanismos de envelhecimento são ainda relativamente obscuros”.

Até agora, a pessoa com maior longevidade em todo o mundo chegou aos 122 anos. O biólogo acredita que essa idade máxima não avançará de forma significativa, independentemente das conquistas da ciência. “O limite máximo da duração da vida não mudou ao longo dos séculos. Sempre houve gente a viver muito tempo. O que aumentou foi a percentagem de pessoas a atingirem a idade avançada e, consequentemente, a esperança média de vida”.

Ainda assim, Miguel Remondes acredita que a percentagem de pessoas a atingir o até agora recorde de 122 anos “poderá vir a ultrapassar os 50% em certas comunidades”. Pedro Granja, da Universidade do Porto, concorda: “Podemos almejar essa meta para uma percentagem considerável da população e com qualidade de vida”.

Por razões fisiológicas e por hábitos de vida, as mulheres terão sempre um horizonte maior. “Os homens tendem a ter doenças terminais mais cedo, comportamentos de risco mais frequentes em idades mais precoces, uma alimentação mais desequilibrada e mais dificuldade em lidar com o stress porque internalizam mais os problemas”, explica o biólogo Miguel Remondes.

Outra explicação recentemente investigada, e ainda controversa, prende-se com o facto de as mulheres terem duas cópias do cromossoma X e os homens apenas uma. Isso faz com que os defeitos já identificados em genes desse mesmo cromossoma possam ser compensados pela mulher, em que quase sempre uma das cópias é boa, mas não no homem, adianta o investigador do IMM.

Adolescentes até aos 40?
Em 1914, Josefa Sousa era a mulher mais idosa de Portugal. Tinha 118 anos, morava perto de Amarante e permanecia completamente lúcida. José Henriques de Sousa, pai de 29 filhos, era o homem mais idoso. Aos 104 anos, o lavrador do Ribatejo ainda dirigia os negócios da família e só lamentava não ser mais novo para poder ir para a guerra que então acabava de eclodir na Europa. Há precisamente 100 anos era esta a vida dos velhos mais velhos do país.

E como será a vida no tempo em que chegar à idade de Josefa ou José deixar de ser exceção e passar a ser a regra? Toda a sociedade e os ciclos de vida terão de ser repensados, diz o investigador Pedro Granja: “Se vivermos todos até aos 100, não fará  sentido termos de escolher um curso aos 18 e deixarmos de estudar aos 22 ou 23. Teremos de trabalhar até muito mais tarde e as diferentes fases da vida serão necessariamente retardadas. A infância, o tempo de juventude, a idade adulta e a velhice conhecerão novas fronteiras, como aliás já começa a acontecer”.

Ainda faltam, porém, várias décadas até que a esperança média de vida atinja os 100 anos. Para já, mais importante do que somar anos à vida é acrescentar qualidade de vida aos que nos esperam. E nesse capítulo, frisa José Rueff, diretor do Centro de Investigação em Genética Molecular Humana, ainda temos muito que andar. “Interessa mais medir os anos de vida saudáveis do que simplesmente os anos que ainda devemos ter. São duas coisas completamente diferentes. Aos 65 anos, uma mulher portuguesa tem, em média, mais 20 anos de vida, mas apenas mais 6,6 de vida saudável. E os homens menos”.

Fonte | Expresso