Atualidade

20 de Fevereiro de 2015

QUOTA PARTE por Nuno Markl

TUDO O QUE SEI SOBRE HOMENS E MULHERES

Estava ontem à noite a preparar este texto quando, do alto da escada, a voz de Ana Galvão, minha mulher, clamou de forma pungente: “NUNO, LEVANTA O RABO DA FRENTE DO COMPUTADOR E ANDA AJUDAR-ME A DEITAR O NOSSO FILHO!”

De imediato, respondi: “NEM PENSAR! ESTOU SOSSEGADO A ESCREVER UM TEXTO SOBRE IGUALDADE DE GÉNERO!” – e recostei-me na cadeira a escrever enquanto ela cuidava do gaiato.

Tenho alguma autoridade para dissertar sobre este assunto. Sou o exemplo acabado do homem português hipócrita. Bem-intencionado? Sem dúvida. Mas hipócrita. Aproveitando todo e qualquer pretexto para, enquanto condeno publicamente a desigualdade, tirar partido dela. Não de uma forma vil ou sequer consciente. Não sou um tirano, nem um filho da mãe.

Na verdade, é pior do que isso: se eu fosse um tirano ou um filho da mãe, acredito que, eventualmente, acabaria por se fazer justiça e eu seria devidamente castigado. Mas não. Como parte considerável dos homens portugueses, tiro partido da desigualdade de forma inconsciente e instintiva. Quase como respirar: não pensamos nisso.

As raízes da árvore negra e feia da desigualdade estão fundas, bem fundas na terra do jardim das nossas vidas. (Isto é suposto ser uma imagem poética, esta da árvore. Para dar densidade. Se quando acabarem de ler isto alguém vos perguntar, “então que tal o texto do Markl na Maria Capaz?”, respondam, por favor, que foi espectacular. Pensem nesta parte da árvore).

Agora a sério: a parte mais triste desta questão da desigualdade é que nós, os homens, aproveitamo-nos do facto de parte considerável das mulheres de gerações antes da nossa terem ajudado elas próprias – porque era assim que estava estabelecido, ancestralmente – a solidificar parte da desigualdade. Aceitando, caladas, por herança, a ideia de que elas servem para umas coisas e nós para outras.

Nós, homens, que agitamos a bandeira do sexo forte, temos de o admitir: no fundo estamos sempre à procura de mães. Somos seres deprimentes, e encostados a essa fofa e confortável parede deprimente. Esperamos, por exemplo, que alguém se chegue à frente em casa, na cozinha. E como em muitos casos ninguém fala de nada, ninguém conversa sobre isto, toda a gente segue à velocidade de cruzeiro do deixa-andar.

Deixem-me que vos fale do meu caso particular. O que se passa é que a Ana é 100% uma mulher moderna.

O que é uma frase terrível, porque “mulher moderna” era o título de uma daquelas revistas que, apesar do título, fazia questão de assegurar que a modernidade da mulher era metida na cozinha a fazer as receitas que vinham nas páginas destacáveis ou a seguir as preciosas dicas de tricot e crochet que lá estavam. Que tal isto como modernidade, hem? Só mais tarde começaram a aparecer as revistas femininas que falavam de coisas como orgasmos e relações e aquele tipo de coisa do qual, quando as mulheres dizem que gostam e querem fazer muitas vezes, leva a que alguma opinião pública exclame “aquela sempre saiu cá uma porca!” e do qual, quando os homens dizem que gostam e querem fazer muitas vezes, leva a que a mesma opinião pública exclame “aquele tipo é cá um Casanova! É cá um Don Juan!”.

É espectacular: nós, homens, temos direito a figuras históricas para classificar o nosso eventual grau elevado de actividade sexual. As mulheres não têm qualquer tipo de figura histórica. Pelo menos que alguém dissesse: “Aquela tipa é cá uma Maria Antonieta!” – mas, porra, essa ficou sem cabeça.

Voltando ao meu caso e da Ana. Quando eu digo que a Ana desenvolveu uma épica luta para dividirmos a vida prática quotidiana em reais 50% de trabalho para cada um, qual é a reacção de vários homens – e algumas mulheres! – que eu conheço?

“Eeeeh, estás arranjado! G’anda totó! És um escravo nas mãos dela!”

Sendo que o “não ser escravo” é o quê? É ela ser a escrava.

Até me apaixonar e viver com a Ana, eu não sabia fazer uma máquina de roupa. Sabia fazer uma máquina de louça – aliás, honra seja feita aos fabricantes, as máquinas de lavar louça são claramente concebidas a pensar na singeleza mental masculina: “O que é que é para fazer? É meter a louça ali dentro e uma pastilha naquela caixinha? E depois é carregar no botão? Fixe.”

Mas não: máquina de lavar roupa? Não sabia mexer naquilo. A justificação que eu dava: que era muito difícil. “E para mim, não é?”, dizia-me a Ana.

De facto, se abrirem um filha-da-mãe de um manual de instruções de uma máquina de lavar roupa, O QUE É AQUILO? O que são aquelas infinitas combinações entre temperatura de água, quantidade de roupa, cor de roupa, quantidade de detergente, quantidade de amaciador?

Da primeira vez, a Ana passou-me o manual de instruções para as mãos. Em pânico, após folheá-lo, exclamei: “Não percebo esta língua!”.

A Ana respondeu: “Tens em português na página 12”.

Eu estava na página 12.

Tudo isto mudou. Agora, graças à Ana, estou em condições de fazer máquinas de roupa de todos os que me lêem neste momento. Não tenho muito tempo, mas entrem em contacto comigo e pode ser que se arranje qualquer coisa.

O mais ridículo das etiquetas e generalizações e comodismos todos sobre homens e mulheres é o seguinte: quem me leia, pensa: “Olha que traulitada na sua natureza macha, este indivíduo a interromper as suas reparações de automóveis e as suas cervejas no sofá para ir lavar roupa.”

A realidade é muito mais complexa do que isso. O que torna todos os clichés estúpidos que existem sobre o que é suposto um homem ser e uma mulher ser… ainda mais estúpidos. Por exemplo: eu não percebo puto de carros. Até há quatro anos, nem sequer tinha carta de condução. Essa coisa máscula de conduzir? Foi também a Ana que me incutiu. Conduzir e fazer máquinas de roupa. Foi ela.

Um dia, o carro da Ana avariou-se. Fomos os dois com o carro ao mecânico. Eu fui para lhe fazer companhia – como vos disse, não percebo puto de automóveis. No entanto, foi para mim que o mecânico se virou para descrever em detalhe os problemas da viatura. Fê-lo automaticamente, apesar de nada do que ele me estava a dizer fazer sentido. A Ana era a dona do carro e tem carta desde a juventude. Foi ela quem me explicou o conceito da caixa de mudanças.

Na mente do mecânico, o processo – que ocorreu à velocidade da luz – foi: “À minha frente tenho uma mulher. E um homem. OK. Então é para este lado que falo: ora bem, meu caro senhor, o que se passa com o carro…”.

Não consigo reproduzir o que ele disse. Ele podia estar a falar bosquímano. Para mim, era igual. O mais longe que o meu conhecimento de um carro vai é isto: tem um volante, rodas, e dá para ouvir CDs.

Por isso, aí têm: eu, o homem da casa, não percebo nada de carros. A Ana sim. Então o que acontecia no mecânico é que ele ouvia a Ana a responder-lhe na mesma linguagem dele – porque ela percebe sobre motores e velas e correias e pistons – mas na direcção de quem é que o mecânico continuava a falar? Na minha. Sempre. A Ana estava a responder para a nuca dele, porque ele não se virava para ela. Fiquei com a sensação de que ele tinha medo que, se falasse directamente com uma mulher sobre carros, a cabeça dele explodisse ou ele pegasse fogo, tipo vampiro exposto à luz solar.

Quanto a cerveja – malta, eu tento. Mas nunca mais consigo gostar de cerveja. Quando a Ana e eu estamos num bar e pedimos uma cerveja e uma cola, o empregado não hesita – a cerveja vai sempre para a minha frente. A cola para a frente dela. Temos SEMPRE de trocar.

E sim, a Ana é linda, e feminina. E percebe de carros. E bebe cerveja. E nós não somos figuras de ficção. Ela percebe também de bricolage – foi ela que me ensinou a usar um berbequim.

Um dia, um rato morto apareceu-nos no quintal. Chefe de família, achei que tinha de tomar conta da ocorrência. Imediatamente, peguei naquilo que me parecia ser o objecto indicado para resolver a situação: o telefone. Liguei para um amigo que pega bem em animais mortos para me vir ajudar. Sabem esse tipo de amigo? Toda a gente devia ter um.

A meio do telefonema, disse ao meu amigo: “Ah, afinal já não é preciso vires.”

A Ana tinha pegado no rato e já estava a levá-lo, devidamente embrulhado e selado, para o contentor do lixo.

O que resta a um homem?

Ser másculo onde pode. Eu fui, em momentos tais como “O MEU FILHO NÃO VESTE UM BABYGROW COR-DE-ROSA!”

“Mas, Nuno, ele é bebé e a filha dos nossos amigos já cresceu e eles ofereceram-nos isto…”

“O MEU FILHO NÃO VESTE UM BABYGROW COR-DE-ROSA!”

Há uns tempos, o nosso filho Pedro costumava pedir à mãe que lhe pintasse as unhas, para ficarem iguais às dela. Ela fazia-lhe a vontade. Ele ia para a escola, por vezes, com uma unha de cada cor. Algumas com aquelas coisas brilhantes que as mulheres – e alguns profissionais do transformismo – põem nas unhas. Quando ia com ele na rua e alguém me dizia, “então o garoto tem as unhas pintadas?”, só me restava atalhar, de imediato: “É COMO TINHAM OS SEX PISTOLS!”

Mais complicado foi, certa vez, na escola dele. A educadora dele era uma freira e disse-me, com algum desconforto: “Ah, ele tem as unhas pintadas…”. Um conselho: não tentem dizer a frase “É COMO TINHAM OS SEX PISTOLS” a uma Irmã. Não funciona.

Eis o remate para toda esta confusão: larguem as etiquetas. O mundo é capaz de ser mais fácil se houver coisas de homem e coisas de mulher, um planeta transformado numa enorme casa-de-banho, com portas com um boneco com saia e outro sem. Mais fácil – mas também profundamente injusto e desequilibrado. Será infinitamente mais interessante e rico se elas nos ensinarem sobre funcionamento de motores e nós lhes ensinarmos sobre a melhor maneira de temperar peixe.

(A sério, sou bom nisso do temperar peixe.)

Temos de deixar cair os lugares-comuns e tudo à nossa volta clama por isso. Esta manhã apanhei um táxi. O condutor era uma mulher. Ainda há um sobressalto estúpido e estranho quando se entra num táxi conduzido por uma mulher. A estranha e estúpida sensação de que há qualquer coisa que não está bem no cosmos.

Curiosamente, depois desse primeiro embate – que é breve, porque não é assim tão estranho; é só uma mulher a conduzir, e, até ter carta, sempre fui conduzido por mulheres – instalou-se então novo cliché que me reconfortou: “Ah, ufa, é uma mulher a conduzir o táxi. Não me vai obrigar a falar de bola.”

É que eu, apesar de homem, não percebo nada de futebol.

A taxista vira-se para trás. Reconhece-me. Eu sorrio. Penso: “Bom, vamos lá a uma viagem de táxi a falar de macramé, ou de outros assuntos da predilecção das senhoras.”

Ela diz: “Então diz que o Porto vai ganhar uma pipa de massa com o Jackson Martinez?”

Respondi, engolindo em seco: “Ahã.”

Fonte | Maria Capaz