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24 de Setembro de 2014

Tudo começa no prato

A forma como a grávida se alimenta marca o desenvolvimento genético do bebé e pode ser determinante para o proteger de várias doenças graves até à idade adulta.

A alimentação é uma das grandes preocupações da mulher,logo que descobre que está grávida. A qualidade e a quantidade dos alimentos começam a ditar o tom das refeições, mesmo para quem, até então, pouco ou nada se preocupava com o que punha no prato. Tudo em favor do desenvolvimento e da saúde do bebé que aí vem. Evita-se o álcool e os excessos de todo o tipo, procura-se aumentar a ingestão dos produtos que, comprovadamente, têm efeitos benéficos na gestação e toda a atenção é dada à balança para que o ganho de peso esteja sempre sob controlo. Sim, porque a velha expressão “comer por dois” tem vindo, felizmente, a ser substituída pela ideia de “comer para dois”.

A ideia de que uma dieta equilibrada durante a gestação ajuda a que os nove meses possam decorrer mais saudáveis para mãe e bebé é consensual. Mas sabia que estes 280 dias são uma janela de oportunidade imperdível para garantir mais saúde ao seu filho, desde a infância até à idade adulta? “A chamada nutrição fetal é onde tudo começa”, garante a pediatra Rute Neves, do Hospital de D. Estefânia, em Lisboa. “No período que vai da conceção ao parto – e que prossegue nos primeiros dois anos de vida da criança –, por efeito dos aportes nutricionais, dão-se desenvolvimentos na nossa estrutura e expressão genética que terão efeitos durante toda a vida. Se esses efeitos serão positivos ou negativos, dependerá da forma como a mãe agir durante esta fase”, adianta a mesma especialista.

Muito mais do que comer de forma equilibrada e saudável como um princípio sem metas bem definidas, Rute Neves refere estudos internacionais para garantir que a gravidez “é uma altura primordial para o desenvolvimento, no bebé, de fatores de risco ou de fatores protetores de algumas patologias crónicas não transmissíveis”. São os casos “das doenças cardiovasculares, da diabetes, da obesidade, da doença respiratória crónica” e também de outras situações como “as doenças mentais e até algumas neoplasias”.

Hardware e software

A pediatra reconhece que os mecanismos biológicos que envolvem a alimentação na gravidez e a saúde do filho não são fáceis de explicar. Assim, socorre-se de um exemplo tecnológico: “imaginemo-nos como um computador. Os nossos genes são o hardware, mas a forma como os utilizamos é o software. E, durante a gravidez, através da nutrição, podemos alterar esse mesmo software, que vai alterar a forma como os nossos genes funcionam desde a conceção e vão funcionar ao longo de toda a vida. É como se programássemos o computador do nosso filho para sempre”.

Uma programação, acrescenta por sua vez a dietista Mónica Grós Dias, que deve começar antes mesmo de a gravidez acontecer. “Uma mulher que pense ficar grávida deve assegura-se que tem um peso adequado à sua altura e à sua idade e ainda que a sua composição corporal está equilibrada, sem défices e sem excessos de massa gorda, que nem sempre são detetáveis através de uma observação externa”. Até porque é consensual que quanto mais composição gorda tiver o organismo feminino, maiores são as possibilidades de haver dificuldades na conceção.

Em termos práticos, o verdadeiro “seguro de saúde” que pode ser subscrito à mesa durante os nove meses é resumido por Mónica Grós Dias. “Todas as grávidas têm necessidades energéticas acrescidas e se numa mulher não grávida a média de ingestão diária é da ordem das 1800 calorias, durante a gestação poderemos ter de ir até às 2500 calorias”. Para a responsável pela consulta de nutrição de grávidas do Hospital de D. Estefânia, o importante é apostar “no maior aporte de proteínas, que são nutrientes importantes para o crescimento intrauterino do bebé, nomeadamente os chamados micronutrientes: cálcio, selénio, zinco e vitaminas, com destaque para a D e a B12 (ácido fólico).

E como encontrar todos estes nutrientes? “Fazendo uma dieta variada e equilibrada, onde todos os grupos alimentares estejam presentes, assim como a ingestão de água nas doses indicadas. Nos casos em que a alimentação respeite estes princípios, a dietista não defende o uso de suplementos alimentares, com exceção do ferro e do ácido fólico. Tudo o mais “desde que seja usado em natureza, ou seja, sem grandes processamentos industriais, é absorvido muito eficazmente pela grávida e pelo seu bebé”.

Importância inicial

A conhecida “Roda dos Alimentos” é um bom ponto de partida para programar uma dieta equilibrada e a gravidez não é exceção. Mas visualizar uma pirâmide para usar durante os 280 dias também é uma ferramenta eficaz. Na base, os hidratos de carbono – que correspondem a 60 por cento do total diário – seguindo-se as proteínas de origem vegetal e animal, o cálcio e, no vértice, o ácido fólico e o ferro. Outro bom princípio é o de não fazer restrições das chamadas ‘gorduras boas’, ou insaturadas. Por outro lado, refere Mónica Grós Dias, há muito que se abandonou a ideia de que é necessário evitar alimentos que estejam relacionados com eventuais doenças alérgicas que venham a afetar o bebé. “Não existem quaisquer estudos que provem essa relação causa-efeito, mesmo quando a mãe tem fundo atópico ou é mesmo alérgica. Claro que não vai ingerir os alimentos a que o seu organismo reage, mas não há razão nenhuma para se privar de outros que não a afetam, com receio de que o seu filho venha a sofrer consequências”.

“É importante que a grávida, ou a mulher que pense em ter filhos, tenha boas indicações nutricionais já que está provado que os primeiros dias após a conceção são talvez dos mais importantes da programação genética a longo prazo que se pretende implantar”, revela Rute Neves, adiantando que “neste pequeno intervalo, durante o qual a maior parte das mulheres nem sabe que está à espera de bebé, têm lugar acontecimentos importantíssimos a nível celular e genético”.

Mas nunca é tarde para voltar ao bom caminho. “Mesmo que antes tenham acontecido desvios nutricionais, o tempo que decorre até ao nascimento é ideal para iniciar hábitos saudáveis, com ganhos para a mulher mas, especialmente, para o seu filho”. É na gravidez que arranca “a transcrição genética e a formação de órgãos do bebé, determinada pela nutrição que lhe chega pela placenta”. Para além da maior resistência às já referidas doenças crónicas não transmissíveis – a que a pediatra prefere chamar de epidemias do nosso tempo – Rute Neves indica também como ganhos de uma dieta cuidada na gravidez “a otimização do desenvolvimento cognitivo da criança e a criação de alguns filtros contra doenças mentais que podem surgir na idade adulta, como é o caso, por exemplo, da esquizofrenia ou alterações da personalidade.”

No fundo, “é importante dizer que a alimentação durante a gravidez é uma questão de saúde pública, com os correspondentes efeitos políticos e económicos. Se for dada oportunidade às mulheres em idade fértil e às grávidas de serem seguidas por profissionais de saúde na área da nutrição, estamos a promover novas gerações mais saudáveis. Hoje, morrem todos os anos 36 milhões de pessoas em todo o mundo, vítimas de doenças crónicas não-hereditárias, metade delas doenças cardiovasculares. Quebrar este ciclo não só é possível se for dada a atenção devida no momento certo: quando as novas gerações estão nas barrigas das mães”, conclui Rute Neves.

NÃO É TEMPO DE DIETA

O período da gravidez não é o mais adequado para uma mulher com excesso de peso ou obesidade tentar perder os quilos a mais a todo o custo. O que não quer dizer que não se preocupe com o que leva à boca. “Nestes casos, o que acontece é que a grávida obesa, preocupada com a saúde do seu bebé, pode começar a fazer restrições alimentares que serão prejudiciais. Em qualquer gestação há um aumento das necessidades energéticas que tem sempre de ser levado em conta”, ressalva Mónica Grós Dias. Por exemplo, “nenhuma grávida, por mais excesso de peso que tenha, pode dispensar a ingestão de leite inteiro, porque é rico em cálcio, ou de peixes gordos, porque são ricos em ácidos gordos ómega 3 e ómega 6, que têm efeitos preventivos da obesidade e dos riscos de alergias “, adianta. O segredo é estabelecer um plano apropriado a cada caso “com acompanhamento permanente e quantidades perfeitamente ajustadas, com detalhes que se assemelham a uma micronutrição”.

GÉMEOS IDÊNTICOS, ADN DIFERENTE

Uma investigação recentemente apresentada pela Sociedade Americana de Genética Humana reforça a ideia de que as experiências in utero dos fetos são determinantes para estabelecer as capacidades genéticas que os vão acompanhar pela vida fora. O estudo foi realizado com gémeos verdadeiros – isto é, concebidos a partir de um mesmo óvulo e, à partida, com cópias de ADN idênticas. O que os cientistas canadianos da Universidade MCGill descobriram é que as experiências na barriga da mãe têm a capacidade de alterar o ADN de cada um dos bebés e, em resultado, enquanto crianças e até adultos, os gémeos podem apresentar modos diferentes de serem afetados por patologias e de as enfrentar. Os investigadores encontraram provas de que ocorrem pequenas mudanças genéticas e um nível celular, numa fase precoce de desenvolvimento embrionário, que originam diferenças visíveis à medida que as crianças crescem. Por exemplo, podem vir a explicar por que razão um dos gémeos é atingido por doenças como o cancro, enquanto o outro permanece imune.

Pão, cereais, arroz e massa = Importante fonte de energia com hidratos de carbono, vitaminas, minerais e fibras

Vegetais = Fontes de vitaminas A e C, ácido fólico e minerais como ferro e magnésio

Fruta = Vitaminas A e C, potássio e fibras

Carne e peixe = Vitamina B, proteínas, ferro e zinco

Leite, iogurte e queijo = Proteínas, cálcio, fósforo e vitaminas

Fonte | Pais&Filhos