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Cuidados a ter no Pré-Parto

20 de Maio de 2013

Tenho medo do parto…

Estamos de 36 semanas. Cada vez estamos mais próximos da hora de conhecermos o nosso bebé! É um turbilhão de emoções que sentimos… ao mesmo tempo que queremos que rapidamente chegue este momento, também fico mais ansiosa pelo parto em si! O J. também pensa no parto, mas de uma outra forma: como é que ele me pode ajudar a passar por toda esta aventura, como é que ele poderá não ter a sensação de impotência que ele tem medo que lhe surja no momento…

Muito antes de engravidar, já me ocorria algumas vezes que o parto era um momento muito associado à solidão e à dor, sensações que eram passadas quer pelos relatos das mulheres da minha família e amigas, quer pelas imagens de filmes, com mulheres a gritar, a suar e fazer uma força descomunal para parir. Estas imagens povoavam o meu imaginário, cheguei a ter pesadelos em que eu era a protagonista dessas mesmas imagens. Um horror!
O tempo foi passando, e os testemunhos começaram a ser os de que era possível um parto sem dor pela utilização da epidural e mesmo da cesariana, com hora marcada. Por vezes, dava por mim a pensar que esta era a promessa de um parto sem sofrimento: “Chegou a minha vez de ter filhos!” – foi o que pensei. Bastava engravidar, marcar uma data, apresentarmo-nos no dia escolhido e já está!, era tempo de receber o bebé nos nossos braços! Sem dor, ansiedades, receios ou complicações! Afinal, quem precisa de sentir dor em pleno século 21?
Cresceu, assim na minha cabeça que o parto seria por cesariana, rápida, eficaz e indolor e com um pós-operatório cada vez mais facilitado pelos analgésicos. Havia, também, outro argumento poderoso: todas as minhas amigas acabavam os partos em cesariana, ou porque não dilatavam, ou porque o parto não se conseguia induzir, ou porque o bebé era pequeno, ou a placenta velha, ou, ou, ou! Estas eram provas inabaláveis de que a mulher moderna tinha deixado de ter a capacidade de parir, e afinal de contas, eu era uma mulher moderna…
Quando engravidámos, na primeira consulta com a drª Carla abordei logo o assunto. Ela deixou-me a porta aberta para a cesariana, no entanto, começou logo o trabalho dela em demover-me desta minha opção (sim, minha porque o João nunca duvidou que eu iria conseguir ter um bebé pelas “vias normais”). Este trabalho de mentalização começou na primeira consulta, continuou em casa com o João e aconteceu a cada aula do curso de preparação para o parto.
Nesse percurso conjunto, começámos a procurar informação sobre os vários tipos de parto, e descobrimos que em Portugal, existem maternidades privadas com uma taxa de cesarianas de cerca de 80% do total dos partos, e públicas com cerca de 25%, sendo que a recomendação da Organização Mundial de Saúde, é de cerca de 20% de cesarianas do total de partos, o que significa que uma boa parte das cirurgias são desnecessárias. Comecei, então, a pensar que talvez eu não tivesse o direito de privar o nosso bebé de ter um nascimento natural devido ao meu medo do parto…
O medo do parto é tão natural quanto o próprio parto: começa por ser um temor latente, que depois, com o aproximar do final da gravidez aumenta gradualmente. Então, como gerir este medo? A solução é enfrentá-lo e conhecê-lo: mais informados e preparados é mais fácil de gerir o que nos espera. E foi por isso que resolvemos iniciar o curso de preparação para o parto. À medida que foi avançando o curso, iam caindo os vários mitos criados na minha cabeça associados ao parto vaginal. Lá aprendemos a proteger os nossos ouvidos e o nosso coração de alguns mitos mais comuns que envolvem o parto normal:
•    Ausência de dilatação: Tecnicamente, a falta de dilatação não existe, existem, sim, tempos diferentes de dilatação para cada mulher. É comum os casais recorrerem às maternidades cedo de mais ou com sinais de falso trabalho de parto, o que por si só “atrasa” todo um processo que efectivamente ainda não arrancou. Pode, sim, ocorrer uma paragem do trabalho de parto, em que algumas mulheres conseguem atingir determinada dilatação, mas sem evolução a partir desta. Chama-se tecnicamente a esta paragem “distócia de progressão”.
•    Cordão umbilical enrolado no pescoço: tecnicamente chamado de circular cervical, acontece em cerca de 30% dos partos e não é uma indicação formal para um parto por cesariana. O cordão umbilical tem aproximadamente 50 cm de cumprimento, é formado por 2 artérias e 1 veia cobertas por uma gelatina elástica, preparado para não interromper o fluxo de sangue se for dobrado ou enrolado. O bebé recebe oxigénio através do sangue que passa pelo cordão umbilical e não pelos pulmões.
•    Medo da dor: muitas mulheres dizem que não conseguiriam passar por um parto normal por serem muito sensíveis à dor. Na realidade, não sabemos como é a dor do parto antes de passar por ela, nem sabemos como vamos reagir. A dor do parto tem características únicas, surge em ondas, com intervalos no meio, o que nos permite recuperar as forças. Associadas às contrações, há produção de hormonas que funcionam como um analgésico natural. No final, temos uma recompensa muito boa, o nosso bebé!
•    A cesariana é um procedimento indolor: Este é um grande mito. A sutura da cesariana é habitualmente dolorosa e esta dor prolonga-se por algumas semanas após o parto. A cesariana é uma grande cirurgia, com corte de múltiplas camadas de tecido, pelo que a cicatrização dos tecidos poderá levar mais tempo que a cicatrização do períneo.
•    Bacia estreita ou bebé grande demais: Muitas mulheres pensam que o seu bebé não irá conseguir passar na sua bacia, quer porque o bebé se encontra muito grande ou por histórias semelhantes na sua família. Esta desproporção pode efectivamente acontecer, no entanto, tecnicamente só o saberemos no decorrer do parto uma vez que durante a gravidez, o bebé irá estar “alojado” na proporção maior da bacia e só se “encaixará” durante o decorrer do trabalho de parto.
•    Trabalho de parto prolongado: não existe um padrão de tempo pré-determinado para o parto acontecer. A duração média de um trabalho de parto num 1º filho é de 12 horas, tempo efectivamente contado a partir do momento em que este se inicia (3 cm de dilatação). No entanto, cada mulher tem um tempo próprio para parir.
Mais mitos e medos poderiam ser encontrados, no entanto, lá descobrimos que muitos mitos que se perpetuam são isso mesmo, mitos e que muitos são usados como argumento a favor dos profissionais de saúde. Vale a pena lembrar que a espécie humana aperfeiçoou a fisiologia do parto durante mais de 2 milhões de anos, se herdámos defeitos, herdámos também soluções adaptativas.
Ter tantas informações técnicas abriu-nos novos caminhos e a fortalecer escolhas conscientes. Se com o João nos documentámos, lemos, aprendemos, com as minhas amigas tenho descoberto as experiências e os conselhos. À equipa de saúde da maternidade e do curso de preparação para o parto cabe o papel mais isento: dotar-nos de ferramentas úteis para enfrentar o momento, segundo a segundo.
Para manter a ansiedade sob controlo, temos tentado por todos os meios ficar o mais relaxados e próximos possível: temos feito exercícios de relaxamento, de introspeção e tirado momentos para nos mimar aos dois: temos feito massagem e uma espécie de Spa improvisado especialmente para nós em casa, o nosso cantinho privado.
E com tudo isto, tenho percebido que a dor não mora no nosso corpo, mas sim na nossa cabeça, na forma como a encaramos. Claro que vai haver dor, mas vou ter que passar por ela, vou ter que senti-la, vencê-la, ser mais forte do que ela. Vencer o medo vai deixar-me mais confiante no poder do meu corpo e tenho a certeza que depois do parto vou sentir-me mais completa e mais forte. E esta dor será um preço baixo a pagar para uma felicidade tão grande que iremos sentir quando virmos o nosso filho pela primeira vez, senti-lo sobre o meu peito e tocá-lo pela primeira vez. Tenho a certeza de que será um momento mágico, único e perfeito…

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