Mães e Pais na 1ª Pessoa

Susana Dias 

Ansiedades

Sonhar alto

Observar pessoas que têm a sorte de ter uma vida estável, sem apertos e com margem para algumas extravagâncias, a sonhar alto com o euro milhões, a contar como era bom poder comprar este mundo e o outro, deixa-me quase com a certeza de que o problema da minha falta de sorte ao jogo (ou a qualquer outro assunto que envolva ganhar dinheiro), só existe porque eu não sonho alto, porque sou pouco ambiciosa.

No meu mundo perfeito, se um dia os astros se alinhassem de forma a acertar nos números mágicos, bastava-me que isso me permitisse ter aquela casa ao pé da praia, com jardim, cama de rede, trampolim, horta com uma cerejeira e um limoeiro, atelier para onde eu levaria todas as velharias que vejo na rua e que tenho sempre a certeza que ficariam maravilhosas restauradas e canil para onde a minha filha levaria todos os cães abandonados do mundo.

Bastava que me permitisse trabalhar em part-time e assim nunca mais voltar a sentir o coração nas mãos por não saber se chegarei a tempo de as ir buscar. Poder trocar de carro e não ter de lhes dizer que afinal o programa do dia da criança é em casa e não voltar a vir a pé do supermercado carregada de sacos.

Bastava que desse para poder ter uns dias de férias com elas longe da rotina e assim não me sentir péssima ao ouvi-las dizer que comigo nunca vão a lado nenhum e que essas semanas que estarão comigo vão ser “uma seca mãe”.

Bastava que me permitisse algumas pequenas extravagâncias de vez em quando, como ir ao Sushi-fest ou ver Florence, coisas que parecem nada para muitos e que para mim são impensáveis neste momento.

Bastava que me permitisse ajudar algumas pessoas.

Poder viajar e este tavez seja o meu sonho mais ambicioso.

Bastava-me conseguir pagar todas as contas que não me deixam dormir à noite, que me fazem andar na lua de dia e a seguir começar do zero de cabeça limpa.

Blog | Ansiedades