Mães e Pais na 1ª Pessoa

Lénia Rufino 

Not so fast

Sobre esta coisa da disciplina para com os filhos

Fervo em pouca água. Há coisas que não admito e que não quero mesmo que aconteçam. Mas acontecem e resta-me lidar com elas. As manhãs, cá em casa, são desesperantes. Tenho uma filha que adora a…r…r…a…s…t…a…r…-…s…e… e que não colabora na hora de fazer o que tem a fazer para se despachar. A hora que passa entre acordarmos e sairmos de casa é passada entre conversas, ordens e gritos. Sim, eu grito. Grito quando já mandei vestir vinte vezes e ela continua placidamente sentada a ver TV (que não autorizei, mas que o irmão fez o favor de ligar enquanto eu aquecia os leites). Grito quando já perguntei sete vezes se já lavou os dentes e se já penteou o cabelo e ela me responde sete vezes que não. E arrasta-se. E eu vejo os minutos a passar. Deixo de véspera o máximo que posso, mala do ginásio, roupas escolhidas, lancheira dela preparada, mas não os posso vestir de véspera nem lavar dentes de véspera. E ela arrasta-se e eu acabo por gritar. Depois é ele que acha que tudo é uma brincadeira e tenho que o chamar mais vinte vezes para que o possa vestir, que ele ainda não trata disso sozinho. Ocasionalmente sai uma palmada, também conhecida por sacudidela de moscas. Resultados? Muito poucos, obviamente. Mas ao fim de uma hora, de muitas perguntas, de muitas ordens, de alguns gritos, a paciência já se foi e a visão fica deturpada.

Lamento, mas eu não sou da turma da parentalidade positiva, de deixar fazer tudo, de levar tudo com sorrisos. Gostava de ser, confesso, mas não sou. Preciso de me impor porque estes dois acham que são repúblicas independentes. Quando estão sozinhos com o pai portam-se muito melhor. Claro. É a novidade, a fugida à norma. Eu percebo e agradeço e fico feliz por ele, pai, e por eles, filhos, que conseguem ter tempos isentos de gritos e de desesperos. E gostava de também os ter. Talvez deva mesmo começar a vesti-los de véspera e a lavar dentes de véspera. Ou talvez deva começar a acordá-los meia hora mais cedo. Ah, espera, já tentei isso e o resultado foi que ganhei mais meia hora de ordens, de perguntas e de gritos, porque eles fizeram tudo de maneira a estarem prontos exactamente à mesma hora a que estão prontos nos outros dias. Há outra forma de contornar isto: volto a ser eu a vesti-la e a lavar-lhe os dentes, a penteá-la e a segurar-lhe a caneca do leite. Mas ela tem quase sete anos e não me parece. Ele ainda vá, que tem três anos e meio e está a caminhar para a independência mas ainda precisa muito de mim. Ela terá que se orientar. Onde é que reside a questão dela? Nas distracções. É a pessoa mais distraída que conheço. Tudo serve para sair de órbita e navegar para outras galáxias. Congela a ver TV, a ver revistas na casa de banho, a escovar o cabelo, a arrumar a mochila, a vestir o casaco, a respirar. Congela e arrasta-se, ali no limbo entre a moleza e a falta de vontade. E isso, de manhã, com tempos contados, é um desespero.

Eu sei que sou eu que tenho que aprender a lidar melhor com isto. Mas não sou perfeita – nem ambiciono ser, atenção – e falho muito neste departamento. Haverá outros em que não sou assim, mas neste, confesso, tenho muito, tanto a aprender. E duvido muitas vezes de mim. Questiono muito os gritos e as palmadas e os castigos (time-outs, na verdade, que aqui não há castigos de “agora ficas sem tablet uma semana” porque eles não têm acesso a tablets e afns). Questiono tudo isto e pergunto-me: retirando isto da equação, que ferramentas me restam para fazer a coisa funcionar? Se houver por aí quem saiba, por favor, manifeste-se.

[E depois leio a Vera e tenho a certeza de que há como fazer isto como deve ser – ela faz! – e fico ali a pensar o óbvio: a culpa é minha, que não sou como a Vera, mas gostava de ser. Muito!]

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Comentários

  1. RubeKa diz:

    Só quem é Mãe e tem que tratar de tudo sozinha de manhã é que entende! Eu também tenho dois filhos, e amo-os acima de tudo, mas confesso que 1 hora quase não chega para tratar de tudo de manhã. A G. tem 4 anos e o S. tem 2. Então desde as birras dela porque não quer vestir o que eu escolhi no dia anterior ou as dele porque quer brincar em vez de se vestir… Que posso dizer? Gritos? Sim, também os há em minha casa… Infelizmente. Mas li algures que é preferível darmos 2 ou 3 gritos de manhã e pôr a tropa toda a andar e na hora de os deixar na pré escola, infantário, escola, etc, darmos um beijo e um abraço apertado e desejar-lhes um bom dia com uma voz mais calma, do que ser mais “calminha” em casa, deixar que se vistam como querem, que tomem o pequeno almoço a seu tempo, etc, e depois no caminho discutir e disparatar porque vão chegar atrasados. As crianças (as pequenas principalmente), guardam durante o dia mais a despedida dos pais do que propriamente o “em casa”. Logo, se tivermos que dar um grito em casa porque temos que nos transformar em 20 e não conseguimos, bem, um miminho e uma palavra bonita na hora do até logo ajudam a que não nos sintamos tão mal!!! <3