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Ginecologia e Obstetricia

7 de Novembro de 2014

Ser mãe após os 35 anos: quais os riscos e benefícios?

Embora vá contra o relógio biológico, a maternidade tardia traz mais segurança à mulher

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Aos 44 anos, a manicure Genilza Nunes percebeu que a menstruação estava atrasada. Imaginou que fosse um sinal da menopausa precoce. As suas colegas comentavam: “Está grávida e não sabe!”. Fez um exame de sangue e um ultrassom transvaginal que confirmaram a suspeita: Enzo estava a caminho. Já era mãe de Giovana, que, na época, tinha 13 anos. Não imaginava que teria mais um filho. “Chorei por uma semana. Bateu um medinho de passar por essa experiência estando mais velha, principalmente pelos riscos da gestação nessa idade”, conta.

Pesquisas mostram que é crescente o número de pessoas que, assim como Genilza, têm filhos após os 35 anos. Nos Estados Unidos, a cada 1.000 mulheres entre 35 e 39 anos, 11 delas deram à luz pela primeira vez em 2012 – em 1973, eram somente 1,4 nascimentos nessa faixa etária. Entre 40 e 44, o índice quadriplicou: saltou de 0,5 para 2,3, entre 1985 e 2012.  No Brasil, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 9,18% dos bebés que nasceram em 2003 são filhos de mulheres com mais de 35 anos. Em 2012, a taxa foi maior: 11,32%.

Conheça os riscos

Mas, afinal, quais são os riscos da gravidez após os 35 anos? O principal é o envelhecimento dos óvulos. A mulher já nasce com todas as células no ovário. Só que com o tempo, envelhecem. Consequentemente, há um aumento progressivo de embriões que se formam com alterações genéticas, como síndrome de Down.  “Fiquei nervosa ao fazer o ultrassom morfológico porque sabia do risco. Mas estava tudo bem com o Enzo”, conta Genilza.

Outro fator que pode prejudicar a gestação é a maior chance de desenvolver diabeteshipertensão – que podem ocasionar o parto prematuro. “Há riscos, mas são controláveis. A gravidez representa uma sobrecarga – hormonal, de peso, de energia – ao organismo e exige que o sistema biológico se adapte”, afirma o obstetra Emerson Cordts, especialista em reprodução assistida do Hospital São Luiz (SP). Na juventude, a capacidade de tolerar essa sobrecarga é maior. O médico explica que uma vida saudável pode evitar o aparecimento desses problemas, mesmo na idade avançada. Manter uma alimentação correta, praticar exercícios físicos permitidos pelo médico, não fumar nem beber bebidas alcóolicas são importantes para uma gestação tranquila.

Quando a gravidez é resultado de fertilização assistida, as normas do procedimento devem ser respeitadas: em mulheres acima dos 35 anos, só podem ser implantados até 3 embriões, e após os 40 anos, até 4. “O ideal seria que fosse introduzido só um, apesar das hipóteses de correr bem reduzirem. Assim, seria evitada a gestação de múltiplos. Uma sobrecarga dobrada, no caso de gémeos, aumenta o risco de nascimento prematuro”, alerta o especialista. Apesar do tratamento ser caro e o casal estar ansioso pela chegada de uma criança, não é recomendado que pressione o médico para a implantação de mais embriões.

Cuidados fundamentais

Se a gravidez for planeada, é essencial marcar uma consulta com o ginecologista para fazer exames clínicos e laboratoriais. O médico tem de investigar o nível do TSH, hormona produzida pela tiróide, que será responsável pela formação neurológica do feto. O envelhecimento aumenta o risco de hipotiroidismo – ou seja, menor produção dessa substância. Se o exame detetar o problema, é necessário fazer uma reposição hormonal, evitando que a mulher ganhe peso em excesso ou sofra algum aborto.

Outro cuidado a ser tomado antes de engravidar é a ingestão de ácido fólico, nutriente que previne a malformação do tubo neural (medula) do feto. Está presente nas folhas verdes, mas é comum ser receitado em forma de suplemento pelos obstetras.

Genilza não planeava engravidar de Enzo. Mas, para ter uma gestação saudável, fez exames de pré-natal de 15 em 15 dias, e monitorizou a saúde dela e do bebé. “Nos períodos mais críticos da gravidez, que são os três primeiros meses e o último mês, é importante ir ao consultório quinzenalmente. No restante, é preciso ir uma vez ao mês, no mínimo”, explica o obstetra. Com o acompanhamento correto, Genilza não teve problemas na gestação. Trabalhou até uma semana antes do nascimento, disposta, e engordou 12 kg. A cesareana ocorreu sem turbulências. Quando a mãe tem mais de 35 anos, só pode ter parto normal se não apresentar diabetes e hipertensão. Caso faça atividade física e tenha o preparo pélvico adequado, pode conseguir dar à luz dessa forma.

Benefícios emocionais

Engravidar mais tarde não é o ideal, do ponto de vista biológico – entre 18 e 35 anos, o organismo da mulher está mais preparado para a gestação. Por outro lado, após essa idade, a grávida tende a estar em um emprego estável, com salário mais alto, tem maturidade emocional para lidar com a criança e já formou um núcleo familiar sólido. Genilza conta que a segunda gestação foi mais tranquila porque já tinha experiência. Atualmente, o filho tem 2 anos. “Posso aproveitar mais as partes boas da maternidade. Levo o Enzo a passear no parque, brinco, pulo, canto. Tenho de aproveitar os momentos que tenho com ele”, afirma.

Na juventude, a instabilidade traz mais inseguranças à nova mãe. Foi o que aconteceu com a vendedora Luciana Monteiro. Ela namorava há 6 anos. Aos 23, percebeu que a menstruação estava atrasada. Fez três testes de farmácia e todos deram resultado positivo. Mesmo assim, relutava em aceitar que estava grávida. Só depois do exame de sangue, aceitou que realmente estava à espera de um bebé. “Fiquei desesperada, porque ainda moro com os meus pais e não tinha planeado nada”, conta.

No Natal de 2013, Luciana voltou para casa com a filha, Maitê, nos braços. “Sou apaixonada por ela. Gosto de dar banho e de mamar, de comprar as roupas, de passear. O que era medo virou vontade de aprender.” Enquanto está a trabalhar, olha a todo momento as fotos da bebé no telemóvel. “Não é linda?”, pergunta, orgulhosa. Luciana acredita que, se tivesse filhos mais tarde, poderia já ter um salário mais alto e morar com o namorado e a bebé. Por outro lado, conta que a juventude a deixa disposta para acompanhar o ritmo de Maitê.

A psicóloga Rita Lous, do Hospital Pequeno Príncipe (PR), enfatiza que, independentemente da idade, o importante é que a mulher manifeste a vontade de ser mãe. “Não é algo totalmente racional. Em alguns casos não planeados, a realização pessoal e a felicidade de ter um filho vêm só depois do nascimento”, afirma a especialista. Com um filho nos braços, o sentimento de se ser mãe torna-se pleno, como se a vida fizesse sentido a partir desse momento. Temos certeza que foi exatamente assim consigo, certo?

Fonte | Revista Crescer