Atualidade

26 de Maio de 2014

Seis atrizes grávidas juntam-se para fazer um espetáculo

‘Consegues ver os teus pés?” está entre hoje e quarta-feira, às 21.30, no Teatro Taborda, em Lisboa.

A ideia surgiu de um encontro das atrizes Flávia Gusmão e Cleia Almeida, ambas grávidas, a comentarem como as oportunidades de trabalho estavam a diminuir à medida que a barriga crescia. “Estávamos a desabafar sobre esta situação. Até faz sentido porque há coisas que não podemos fazer. Mas há outras coisas que podemos fazer. E depois há outras histórias, que vamos sabendo, de empresas que não contratam grávidas ou que não contratam mulheres de 30 anos porque sabem que mais tarde ou mais cedo elas vão engravidar. Há uma discriminação de que ninguém fala”, explica Flávia Gusmão, 36 anos, 29 semanas de gravidez, uma barriga que já lhe atrapalha os movimentos e certamente não a deixa ver os pés.

“Se não nos dão trabalho, decidimos nós fazer qualquer coisa”, conta Cleia Almeida, 32 anos e 35 semanas de gravidez. Até porque, de repente, olharam à volta e descobriram que havia muito mais atrizes grávidas. A elas juntaram-se Joana Seixas (29 semanas), Ana Cloe (20 semanas), Vera Kolodzig e Katrin Kaasa (19 semanas). “E já temos lista de espera”, brincam.

Sem dinheiro, com poucos apoios, conseguiram uma sala pequena no Teatro Taborda para ensaiarem e se apresentarem durante quatro dias apenas. A certa altura, sentiram necessidade de ter alguém que orientasse o trabalho e “controlasse aquelas hormonas todas” e convidaram o encenador Martim Pedroso, que as ajudou na dramaturgia e na direção do espetáculo.

“Tem sido uma experiência extraordinária”, conta Martim Pedroso. “O facto de elas estarem todas grávidas muda tudo, há uma energia completamente diferente.” Coisas tão simples como o ensaio ter de ser interrompido porque alguém tem de ir à casa de banho. Ou, durante uma pausa, cada uma delas tira o lanche da sacola. Há bananas, sandes, iogurtes. Pelo palco, espalham-se almofadas compridas, daquelas que as grávidas usam.

“Toda a criação é efémera mas, neste caso, as coisas mudam todas as semanas, todos os dias. Há uma que vai a uma consulta, outra que acordou com uma dor, outra que tem contracções. Estas atrizes que estão aqui hoje não são iguais ao que eram quando começámos a ensaiar.” Há gestos que já não são fáceis de fazer (vejam-nas de saltos altos), há gestos que se tornam inevitáveis (como acariciar a barriga ou pôr as mãos nas costas), posições que se tornam desconfortáveis, humores que variam (e as “saudades de uma capirinha”), dúvidas que se partilham e esclarecem a cada encontro do grupo. “Estou ansiosa por conhecer esse amor de que falam os pais. O amor tatuado numa âncora num braço musculado: Amor de Mãe”, diz uma das atrizes a certa altura da peça. Para cinco delas esta é a primeira gravidez. Apenas Joana Seixas é mãe de segunda viagem, as outras estão a viver tudo pela primeira vez, tudo é novidade.

Mas, fica o aviso, mesmo se o ponto de partida foi ter seis atrizes grávidas, este não é um espetáculo autobiográfico em que elas apenas contam as suas vidas nem é um espetáculo direcionado a grávidas com a pretensão de lhes dar conselhos. “Não é só sobre grávidas, é sobre a vida, sobre a criação, sobre ser mulher, sobre o teatro”, explica Cleia Almeida.

Por um lado, escolheram textos de Tchekhov, Beckett, Shakespeare, Ibsen, Clarice Lispector e outros autores, que não têm nada a ver com a gravidez. “O desafio era ver como é que os textos resistem ao ser interpretados por atrizes grávidas, o que é que isso muda.”

Por outro lado, todos escreveram textos, a partir de improvisações, em que o tema da gravidez, com as suas dificuldades, dúvidas e obsessões, está muito presente e é tratado até com algum humor. Como naquele momento de coro em que, como numa tragédia clássica, se dirigem à deusa Vénus num lamento colectivo: “nós, as atrizes grávidas, bufonas alegres e esperançosas (…). Parece-vos que estamos inválidas, parece-vos? Parece-vos mal, pois não estamos não, estamos muito bem parecidas, rechonchudas e rosadas, é um facto, todas nós somos barrigas, mas temos direito à nossa profissão, porque é dela que vivemos e com ela morreremos. Nem subsídio de amamentação nem de desemprego nem proteção, estamos entregues a nós e a estes filhos que carregamos no coração.”

E depois de um espetáculo grávidas, quem sabem a seguir façam uma peça com os seus bebés. Elas já andam a pensar nisso.

Fonte | Diário de Notícias