Espaço Família | Vem aí um irmão

Psicologia Clinica

18 de Julho de 2016

Regras com Regras

Feitas para ajudar os mais novos a terem limites e guias para crescer, muitas vezes as regras lá de casa tornam-se um drama. Vemos discussões, não cumprimento do estipulado, mais castigos, mais regras, mais problemas… até que temos vontade de dizer “Chega, ele que faça o que quiser!”.

Pais não desistam!
Muitas vezes o problema das regras está exatamente nas regras pelas quais nos guiamos para estabelecer regras ou na ausência desses guias.

regras
E porque isto das regras tem muito que se lhe diga e não nascemos ensinados sobre estas questões, este texto é sobre regras para os pais criarem as suas próprias regras:

1. A regra deve sempre corresponder a uma necessidade! Bem sabemos que no limite da nossa paciência dizemos: “É assim porque eu digo e pronto!”. É no limite da paciência, porque na base deve estar bem claro qual o motivo daquela regra. Uma regra existe porque ajuda a criança a interiorizar rotinas, a ser mais saudável, a respeitar os outros, a tolerar frustrações… tem de ter sempre uma função, caso contrário, caro pai, tenho a dizer que perdeu a sua razão 
2. A regra tem de ser transparente como água! Não subentenda que a criança deve saber, deve perceber, já devia adivinhar… desta forma está a dar espaço a que surjam outras interpretações e quando as crianças começam a argumentar, vão utilizar isso a seu favor, claro! Por isso, na hora de falar sobre uma regra seja claro, direto e simples, evite grandes discursos e fique pelo essencial (p.e. “quando o ponteiro do relógio estiver naquele número, vais lavar os dentes e deitar.” Não deixamos a critério da criança quando vai, avisamos antecipadamente e não deixamos espaço para discussão.
3. As regras são positivas, não negativas! Faça um esforço por construir regras positivas. Isto é, a regra deve descrever o comportamento que esperamos da criança e não aquele que não queremos que ela faça. Porquê? Porque ao dizermos à criança o que esperamos não há muito a variar, se dizemos apenas o que não pode fazer, a criança fica com um número imenso de hipóteses sobre o que “supostamente” pode fazer. Isto não ajuda, só complica a sua cabecinha!
4. A regra é para ser sempre cumprida (ou pelo menos a maior parte das vezes)! Quebrar uma regra de vez em quando, não é problema, seja porque estão fora de casa, porque é um dia especial, porque está alguém lá em casa… o que interessa é que a criança perceba que esse dia é diferente e rapidamente voltará à rotina. Salvo estas exceções, não vale ceder à preguiça ou à distração, quanto mais fiel for às suas regras menos discussão acontecerá e mais depressa a criança as irá interiorizar.
5. Todos conhecem as regras, principalmente a criança! Podem escrever num quadro, fazer desenhos, cantar uma música, falar sobre o assunto, mas a criança tem de saber antecipadamente quais são as regras que tem de cumprir. Não seria justo ela ser penalizada/castigada por uma regra que não conhece ou que lhe foi apresentada quando já tem sono e já está rabugenta, pois mais facilmente se irá irritar, não irá cumprir o pedido e haverá discussão lá em casa!
Saber as regras é quase como dar um mapa à criança, ajuda-a a localizar-se a si e ao seu comportamento. É muito estruturador para o seu desenvolvimento!
6. Depois de instituída, não há discussão possível quanto à regra! Já estamos a imaginar o diálogo… “Vai arrumar os jogos que espalhaste, sabes que tens de arrumar!” – “Já vou é só um bocadinho…”- “Já disse que é agora” – “Mas porquê? Que diferença faz só mais 10 minutos?”- “Porque os jogos ficam espalhados.” – “Mas estão espalhados no meu quarto, tu nem vais lá”… e de onde vieram estes, vêm mais argumentos, as crianças são uma caixa sem fundo nesta parte. Então simplifique, “vais arrumar porque sabes que depois de se usar, arrumamos as coisas!”, se a criança não cumprir então vamos para a regra das regras n.º 7 .
7. A criança sabe qual a consequência por não cumprir a regra (E a consequência é sempre cumprida)! Imagine que não sabe que será penalizado por não parar num STOP enquanto conduz, será que tinha aprendido a parar desde início? Hoje até percebemos que é perigoso não parar no stop, mas há alturas em que questionamos isso e é a consequência que nos “mantem na linha”. Se o seu filho sabe que terá uma consequência também será mais provável que cumpra as regras até elas estarem internalizadas e fazerem parte do seu próprio esquema mental.
Mas não fica por aqui, imagine que se passar por muitos STOPs sem ser penalizado, a determinada altura um stop já significa pouco para si… igualzinho ao seu filho, se sistematicamente esticar a hora de ir para a cama sem consequências. O mais provável é que a criança comece a deitar cada vez mais tarde e os pais com os cabelos em pé no dia seguinte… Então aplique a consequência de forma consistente até a criança cumprir naturalmente a regra (p.e. como vieste para a cama mais tarde do que combinámos, hoje não há história). Verá que tudo será mais tranquilo daí em diante.
Lembre-se que as regras são para cumprir, até as regras das regras. 😉
Um pequenino esforço hoje, vai poupar-lhe muitos problemas no futuro (a si e ao seu filho, claro!)

Inês Custódio
Psicóloga Clínica

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