Atualidade

22 de Setembro de 2014

Quer um filho feliz e equilibrado? Ame com regras e limites

Não há pais perfeitos e a imperfeição faz parte do crescimento de uma criança.

Mas é possível ajudar um filho a ser melhor e para isso é necessário um equilíbrio saudável entre ensino, disciplina e amor.

A tarefa pode parecer difícil quando um pai tem à sua frente um filho insolente ou teimoso. Como amar e educar ao mesmo tempo? O pediatra Mário Cordeiro diz que é possível. Basta entender que o amor também é expresso no estabelecimento de limites e de regras.

“O amor é indissociável da educação”. Este é o pensamento base do mais recente livro de Mário Cordeiro, Educar com Amor (A Esfera dos Livros). Para alguns pais pode parecer confuso que ao educar uma criança o amor possa ficar de lado, porque associam o método de educar ao repreender e em casos de desespero ao gritar e dar umas palmadas.

No livro do pediatra e autor de outros títulos sobre a infância e adolescência, de 58 anos, pai de cinco filhos e com cinco netos, há exemplos de casos reais e ajudas para resolver situações mais complicadas, dando a compreender aos pais o que está por detrás de birras, um determinado sentimento ou uma mentira criada pela criança. Mário Cordeiro dedica também alguns capítulos à forma de ajudar um filho a lidar com sentimentos negativos ou a ser mais alegre, não deixando de sublinhar a importância de aprender as qualidades humanas, desenvolver o sentido de ética e princípios educativos.

O pediatra quer suscitar o debate destas questões entre os pais e começa por afirmar que “educar representa um grande investimento de ‘energia’, de disponibilidade, de muitas vezes hesitar por não se saber se se está a agir bem, mal ou a ser incoerente e inconsistente”. Mas “isso é amor”, sublinha ao Life&Style. Não gostar de um filho seria “deixar a criança fazer tudo o que queria e não se importar que se tornasse, certamente, num adulto irresponsável, desagradável e disfuncional, ou seja, numa pessoa péssima e num cidadão execrável”.

Aqui pode surgir outro problema: Como fazer entender a um filho que o educamos por amor? “Dizendo-lho, demonstrando-o, compreendendo as suas acções mesmo que as condenemos e proponhamos um castigo”, explica Mário Cordeiro, que se opõe à saída mais fácil adoptada por alguns progenitores “dar dois berros e nada explicar, não mostrar empatia e agredir, ou então ignorar e não educar”. Mas isso não é amor, sublinha.

O pediatra afirma que numa relação entre pai e filho o amor verdadeiro “não se cobra”, é “oblativo”. Por outro lado, o “amor não é incondicional”, alerta. “Há condições como o respeito, o salvaguardar a imagem e a pessoa do outro, o seu espaço, as suas ideias, gostos e opções”.

Quanto aos pais que protegem demasiado os filhos, o que pode afectar a imposição de disciplina, Mário Cordeiro reforça que amor nunca é em demasia, a protecção extrema é que pode ser perigosa. Isto porque a superprotecção pode tornar-se “numa espécie de redoma claustrofóbica que prejudica o desenvolvimento de uma autonomia responsável e cuidadosa” da criança.

Tarefa complexa
Educar um filho e ajudá-lo nas várias etapas do desenvolvimento pode ser uma tarefa complexa e criar nos pais alguma insegurança quanto a se estão ou não a fazer um bom trabalho, mas há uma fórmula para que se mantenham confiantes e que assenta no reforço da “auto-estima e segurança na sua maneira de ser pais”.

Sublinhando que os pais não devem ter a ambição de serem perfeitos, o pediatra defende que estes devem ser os “melhores pais que o filho deles pode ter”. “Devem pensar se podem ser melhores em termos absolutos e aperfeiçoar-se dia-a-dia, no quotidiano e na expressão de sentimentos, sem ter receio de amar os filhos e de o dizer e mostrar ao próprio”, argumenta, reforçando que “este amor tem de ser expresso no estabelecimento de limites e de regras”.

Na sua experiência enquanto médico de crianças, Mário Cordeiro já ouviu muitos pais preocupados com a exigência de serem perfeitos, sob a observação constante da sociedade, educadoras de infância ou mesmo dos vizinhos, receando que um determinado acto possa ser entendido com um abuso sobre um filho.

Segundo o pediatra, os pais devem concentrar-se em ter filhos saudáveis em todos os aspectos e, mais uma vez, a disciplina ou aprendizagem são essenciais. “Uma criança terá mais hipóteses de crescer equilibrada se se sentir amada e segura, e esta segurança passa também por ter regras e limites”. Mas essa disciplina não pode ser “atirada de forma seca”, com a criança a ser “julgada” e não o seu comportamento e os “castigos forem injustos, desproporcionados, inadequados, humilhantes, expressando uma relação de poder perversa e abusiva”. Assim, defende, a criança terá “grande dificuldade em entender que educar é amar”.

Sociedade acelerada, educação negligenciada?
Numa sociedade onde exercer a função de pai ou mãe pode durar entre duas a três horas por dia, antes e depois do horário laboral, mas é a qualidade do tempo passado em família que faz a diferença. Os pais não têm de sentir essa “eterna culpa”, responde Mário Cordeiro. Aos progenitores cabe, no entanto, ver se a “escala de prioridades está certa ou não se anda a perder tempo” com coisas insignificantes e impedir que a criança sinta essa aceleração com que se vive diariamente. “A segurança, calma, tranquilidade e paz”, são essenciais ao desenvolvimento, indica.

Recorrer a recompensas para compensar a ausência de um pai também não é uma solução. É “ofensivo para a nossa condição humana”, sustenta o médico, que aconselha a “relação ‘olhos nos olhos’ e o uso dos cinco (ou mais) sentidos”.

Aos inquietos e perturbados com a parentalidade, o pediatra deixa uma espécie de jogo para fazerem, que pode começar num almoço ou jantar a dois, por exemplo. “Numa primeira fase, escrevam num papel, individualmente, em quatro colunas, o que acham, respectivamente, que são as forças, fraquezas, oportunidades e ameaças ao percurso de vida do vosso filho, e a mesma coisa para a vossa maneira de ser pais. Depois de saborearem o prato, troquem as folhas e leiam. Depois da sobremesa, comentem e espantem-se por um achar uma ameaça o que o outro considera uma oportunidade. Finalmente, ao café, delineiem estratégias, cheguem a ‘folhas comuns’ e desenhem um plano com dez objectivos para aperfeiçoamento da vossa parentalidade. É divertido e útil.”

Fonte | Life&Style Público