Atualidade

23 de Fevereiro de 2015

Quer ajudar o seu filho a ter sucesso na escola? Faça perguntas concretas. Estas, por exemplo.

O seu filho tem repetido que não quer ir para a escola ou não o diz, mas nota nele desmotivação ou as notas estão a baixar? Saiba que pode ajudá-lo e que a ajuda vai muito para lá do apoio ao estudo.

Nem sempre as más notas se devem a reais dificuldades de aprendizagem e daí ser tão importante estar atento ao seu filho e perceber qual o estado de alma dele. É que as emoções, segundo os especialistas, na maioria das vezes, tomam conta da situação e têm um impacto muito importante na forma como aprendemos. Porquê? Porque quando um hemisfério do cérebro está sobrecarregado o outro não funciona. Portanto, se o hemisfério direito do cérebro – que é o das emoções – estiver com muita atividade, o esquerdo – que é o da aprendizagem, da lógica, da leitura, da escrita – não funciona.

Por ter noção disto, a Clínica da Educação promoveu, este sábado, um congresso onde se “desfoca o olhar das dificuldades de aprendizagem, sobretudo das específicas” e se “abordam questões como as motivacionais, as processuais, as relacionais, as vocacionais, emocionais e da mudança”, explica Renato Paiva, pedagogo e diretor da Clínica da Educação.

O Observador foi falar com as especialistas presentes no congresso para tentar perceber cada uma dessas questões e qual o papel que os pais podem desempenhar. Das conversas resultou a conclusão de que os pais podem ajudar os filhos a superar os obstáculos e os gatilhos emocionais e que para isso, muitas vezes, basta… falar e fazer perguntas concretas.

Quando a criança repete várias vezes que não quer ir à escola os pais devem falar com a criança, mesmo que ao fim do dia

1. “Não quero ir à escola!”: o impacto das emoções na aprendizagem

Qual é o pai ou a mãe que nunca ouviu o seu filho dizer, logo pela manhã, que não quer ir à escola? Provavelmente nenhum. E muitas vezes esse pedido, disfarçado de queixa, é ignorado pelos pais. Mas quando começa a ser recorrente e prolongado no tempo “deve ser valorizado”, aconselha a psicóloga Susana Cheis, que explica que uma das razões para as crianças, sobretudo as mais pequenas, não quererem ir para a escola é porque “rejeitam as rotinas” que começam muito cedo, outras “porque não querem ficar longe das mães” e há ainda os casos de insegurança e de bullying. O problema coloca-se mais no primeiro ciclo, mas pode surgir ao longo de todo o percurso, normalmente com as transições de ciclo que implicam mudança de escola ou outros fatores.

  • Quando esta conversa passa a fazer parte das manhãs agitadas cabe aos pais dizerem algo à criança como: “Agora vamos ter de ir embora porque a mãe (ou o pai) tem de ir trabalhar e tu tens de ir para a escola. São os nossos compromissos. Mas mais tarde falamos sobre isso“, sugere Susana Cheis. E, mais tarde, essa conversa deve mesmo existir e os pais devem tentar perceber o porquê de o filho não querer ir para a escola e se acharem necessário devem ir à escola falar com o professor ou mesmo com o psicólogo. Se não virem necessidade disso, tentar mostrar ao filho os aspetos positivos da escola é o caminho a seguir.

O isolamento é um sintoma bastante comum numa criança depois da morte de alguém próximo

2. A instabilidade da mudança: que influência na aprendizagem

Há várias mudanças que ocorrem na vida de uma criança e de um adolescente que “podem quebrar o ciclo de estabilidade e as rotinas”. A mudança de escola, o nascimento de um irmão, o divórcio dos pais e a morte de alguém próximo são apenas alguns exemplos, elenca a psicóloga Teresa Andrade. E estas mudanças influenciam a aprendizagem.

Os sintomas vão-se manifestando e divergem consoante a mudança em causa. Podem ir de vómitos, cólicas e recusa em ir para a escola quando, por exemplo, o aluno muda de escola, a sintomas como distração, isolamento ou agressividade no rescaldo, por exemplo, de um divórcio dos pais ou da morte de alguém próximo.

  • Cabe aos pais estarem atentos aos sintomas e ao significado dos mesmos. E para isso é preciso: falar. “É muito importante ouvir as crianças”, lembra Teresa Andrade, admitindo que nem sempre é fácil elas falarem, mas que é sempre possível ir sacando informação. Uma das técnicas é fazer perguntas concretas. “Não se deve perguntar: o teu dia correu bem? Mas sim: qual foi a melhor parte do teu dia e a pior? E esta conversa pode acontecer, por exemplo, no caminho da escola para casa”. Se isso não resultar, pode sempre tentar partilhar as experiências e dizer também qual foi a melhor e a pior parte do seu dia no trabalho.
  • Mas falar apenas com a criança não chega. É preciso falar com o professor, com os colegas do filho, os pais dos colegas, se for preciso, com o psicólogo da escola ou até pôr a anterior e a atual escola em contacto (se for o caso) para que os profissionais percebam o que mudou e porque mudou, sobretudo quando a mudança não é facilmente percetível.
  • Caso seja fácil identificar a mudança que está a originar uma alteração de comportamento do seu filho e por conseguinte o insucesso escolar, pode também ir adaptando histórias que costuma contar ao seu filho à situação que ele está a viver, para que este perceba que as mudanças são naturais e assim vá perdendo o medo ou a ansiedade. E, claro, pedir ajuda a um profissional – o psicólogo da escola – sempre que não esteja a conseguir lidar com o problema.
  • Outra das dicas que a psicóloga Teresa Andrade deixa aos pais é prepararem os filhos para a mudança sempre que esta é esperada: o divórcio, a morte de alguém que está doente há algum tempo, a mudança de escola. No caso do luto, Teresa Andrade costuma, por exemplo, usar a metáfora do balão. “Digo-lhes que a saúde que recebemos é como o hélio. E à medida que vamos crescendo o balão (que somos nós) vai perdendo o ar” e depois ao longo da vida pode haver acidentes como “alguém que espeta o balão”.
“Não se deve perguntar: o teu dia correu bem? Mas sim: qual foi a melhor parte do teu dia e a pior? E esta conversa pode acontecer, por exemplo, no caminho da escola para casa”
Teresa Andrade, psicóloga

3. “Estou desmotivado, a escola não é para mim”: dificuldades motivacionais

Há também aquelas crianças e jovens que, genericamente, não gostam da escola. Este problema pode ser desencadeado por algum acontecimento que leva à desmotivação – por exemplo a entrada no ensino secundário sem vislumbre de futuro, ou a dificuldade de aprendizagem logo nos primeiros anos de escola – ou não. A psicóloga Catarina Calado explica que muitos dos alunos que não ligam à escola e nem se aplicam é porque “não se reveem na escola atual”. “A maioria não atribui à escola um verdadeiro significado de formação e isso também não lhe vai sendo transmitido – o porquê e o para quê”, acrescenta, dando um exemplo de uma criança que estava no 3.º ano e que não percebia porque tinha de ir para a escola se gostava mesmo era de ficar com os avós na terra. Aqui, mais uma vez, quer os professores, quer os próprios pais podem ter um papel determinante.

  • Cabe aos pais e aos professores usarem linguagem que as crianças e mais tarde os jovens entendam e trazer as aprendizagens para o dia-a-dia, sugere Catarina Calado. Por exemplo, o pai ou a mãe ao invés de perguntarem se o dia correu bem, devem perguntar o que é que o filho, ou a filha, aprendeu na escola e como é que isso se pode aplicar numa situação da vida real.
  • Além disso, os pais devem sempre falar com os filhos, tentar perceber porque eles estão desmotivados e se por acaso não estiverem a conseguir ajudá-los, então devem procurar ajuda de profissionais e o quanto mais cedo melhor pois “agir mais tarde pode ajudar a que os bloqueios aumentem”.

Especialistas alertam para o perigo do sobre diagnóstico da hiperatividade e do défice de atenção e do abuso da ritalina

4. “Até me esforço mas não consigo!” : como estudar menos e aprender mais

“Consegues”. É isso que a professora de educação especial, Cristina Ferreira, diz aos alunos que lhe chegam ao gabinete com um percurso de insucesso escolar e que dizem que não conseguem ter boas notas. Basta, por um lado, que controlem as emoções, e, por outro, que a escola se adapte aos alunos. Vamos por partes.

Primeiro as emoções. Segundo esta professora, que se especializou em técnicas de programação neurolinguística, “muitas vezes são pequenos gatilhos emocionais que estão por trás da não aprendizagem”. “Os miúdos acumulam frustração emocional. Uns fecham-se e ficam calados, os outros viram rebeldes porque, perante os pares, é mais fácil dizer ‘eu não quero’ do que ‘eu não consigo’” e em muitos casos está a ser “sobre diagnosticada hiperatividade e défice de atenção nas crianças” e está-se a abusar do uso da ritalina, um medicamento que serve de calmante, mas que “como é à base de opiáceos, os miúdos perdem o apetite, crescem menos e ao fim de uns anos têm mais tendência para vir a ser toxicodependentes ou terem depressões”, além de que “adormece o cérebro”. O controlo das emoções é fundamental para se alcançar um bom desempenho, afirma. Abrandar o ritmo cardíaco através da respiração, habituar o cérebro a não pensar em várias coisas ao mesmo tempo, ter atenção ao aqui e agora são algumas técnicas que Cristina Ferreira ensina a alunos com dislexia e que acabam por conseguir ótimos resultados.

“É a escola que provoca dificuldades nos alunos porque é muito auditiva e esta nova geração é muito mais visual e cinestésica. Estamos a matar talentos”, critica a professora Cristina Ferreira.

Depois a escola. Cristina Ferreira não tem dúvidas que “é a escola que provoca dificuldades nos alunos”. E porquê? “Porque a escola é muito auditiva (virada para a escrita, a leitura, o cálculo) e esta nova geração é muito mais visual (veem as coisas por imagens, até 3D) e cinestésica (precisam de cheiros, temperaturas, cores e movimentos). Estamos a matar talentos”. O ideal seria a escola misturar as três linguagens para captar a atenção de todos os alunos e não apenas de alguns. Um exemplo: numa aula de história um professor ao invés de relatar apenas os acontecimentos, pode transportar os alunos para a época, pedindo para imaginar que estão na idade média a ver um castelo e que as temperaturas eram diferentes e os cheiros também porque não havia saneamento. Dessa forma, explica a professora, despertam a curiosidade de mais alunos. Além disso, a professora aconselha os colegas de profissão a começarem as aulas sempre com uma anedota porque “o riso liberta dopamina e serotonina, que são essenciais para a memorização e a aprendizagem.Além do mais põe toda a gente na mesma onda”. E alerta-os para irem tendo noção das aprendizagens ao longo do ano e não só na altura dos testes.

  • Aos pais cabe também aqui um papel não menos importante do que o dos professores. Primeiro que tudo é preciso que a criança ou o jovem sejam felizes. Cristina Ferreira refere, entre outros aspetos, a importância de incutir nas crianças o hábito de pensar em três coisas boas que lhes aconteceu durante o dia antes de irem dormir.Dessa forma “reprograma-se o cérebro e o sono é mais descansado”.
  • Além da felicidade, os pais podem ajudar os filhos a sentirem-se “capazes”. Para isso, por cada reprimenda que dão ao filho, têm de encontrar cinco comportamentos ou ações positivas e não se podem ficar pelo elogio genérico. Têm de se referir a ações concretas.
  • É também muito importante que os pais tenham noção da importância das oito horas de sono e que garantam que os filhos descansam o tempo indicado. Cristina Ferreira explica que “a única forma de passar informação de curto prazo para longo prazo é a dormir”, daí que, por exemplo, seja aconselhável fazer uma sesta de 10 ou 15 minutos quando se está a estudar para um teste, “se não a memória de curto prazo não aguenta”.
“A única forma de passar informação de curto prazo para longo prazo é a dormir, daí que seja fundamental as crianças e jovens dormirem oito horas”
Cristina Ferreira, professora de educação especial

5. “Não sei o que quero ser!”: indefinição vocacional

Outro dos problemas que surge normalmente à medida que os estudantes vão passando etapas escolares é o da indefinição vocacional, o que pode provocar desmotivação e resultados escolares mais fracos.

Mas é suposto que um aluno no 9.º ano saiba já qual a profissão que quer ter? A psicóloga Mónica Bento responde prontamente que não. “Não temos que saber o que queremos ser no 9.º ano, mas temos de perceber o que gostamos de fazer e qual a nossa área de eleição”, refere Mónica Bento. O problema, diz, é que muitos alunos ainda chegam ao 9º ano completamente perdidos. E de quem é a culpa? Um pouco dos pais, admite. “Perdemos o hábito de lhes perguntar o que querem ser quando forem grandes. Os pais vão tendo expectativas, mas não perguntam”, afirma a psicóloga, que sublinha o papel fundamental dos pais nesta orientação vocacional dos filhos. Mónica Bento frisa ainda a importância dessa orientação começar logo no 1.º ano de escolaridade.

“Perdemos o hábito de perguntar às crianças o que querem ser quando forem grandes. Os pais vão tendo expectativas, mas não perguntam”, refere a psicóloga Mónica Bento.

  • Neste ponto cabe aos pais ajudarem e darem ferramentas aos filhos para estes serem mais críticos. Perguntem aos filhos o que querem ser quando forem grandes, conversem com eles sobre o assunto, mostrem-lhes as várias hipóteses que existem, ajudem-nos a estar bem informados sobre o que se faz em cada profissão, por exemplo, para que eles não criem expectativas erradas. E sempre que isto não bastar, ou sempre que os pais não saibam como ajudar os filhos nesta matéria, devem procurar a ajuda dos gabinetes de orientação nas escolas.
  • É também muito importante que os pais proporcionem aos filhos outras atividades para além da escola, como hobbies ou atividades em família pois isso permite que as crianças vão tendo maior compreensão sobre o que gostam de fazer.

Fonte | Observador