Mães e Pais na 1ª Pessoa

Catarina Beato 

Dias de uma Princesa

[que me permitam ser adolescente… para sempre]

Sou muito feliz no lugar onde vivo. Tenho vista para a vida da cidade e vista para a vida dos meus vizinhos. Eu gosto: gosto dos ruídos, dos carros a passar, dos adolescentes que regressam a casa nas madrugadas de sábado, das gargalhadas das crianças quando vão para a escola. Não gosto das ambulâncias, por todas as razões, mas principalmente porque passam sempre quando o meu filho pequeno está a dormir a sesta. Gosto dos meus vizinhos, mesmo que não os conheça: sei o que vêem na televisão, sei a que horas estudam, e adoro aquele casal que, todos os dias, prepara o jantar em conjunto. Sorrimos quando nos cruzamos nas janelas às primeiras pingas de chuva ou nos dias muito quentes de Verão. Sou muito feliz no lugar onde vivo e acredito que esta casa tem uma energia especial. Não, não sou dada a coisas destas, mas acredito que há casas felizes e casas tristes. Não sei se é a orientação solar, o desenho da planta ou os materiais com que foi construída. Eu chamo-lhe energia.

Aquilo que falta aqui, mais do que outro quarto, uma cozinha maior, ou janelas na casa de banho, é o Tejo. Nasci, fui menina e adolescente numa casa com enormes janelas viradas para o Tejo. O cenário mudava conforme o guindaste da Lisnave se movia. Mas o Tejo estava sempre ali: o aço imponente da ponte, os cacilheiros a horas certas, os barquinhos de velas brancas nas manhãs de sábado. E Lisboa, que me parecia tão distante. Serei uma adulta feliz com vista para a vida da cidade, mas agradecerei, sempre, ter crescido com vista para o Tejo.

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