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Psicologia

8 de Maio de 2016

Quando os filhos se tornam pais dos seus pais | A Parentificação em situações de divórcio

filhos pais dos pais

 

Estamos perante um fenómeno de parentificação quando há uma inversão de papéis entre pais e filhos, entre subsistemas parental e filial. Mais concretamente, quando um filho assume tantas responsabilidades que acaba por se tornar uma figura parental no núcleo familiar. Acontece de forma mais visível quando o vemos a cumprir tarefas domésticas ou a tomar conta de irmãos mais novos, podendo ter contornos mais subtis, quando os filhos assumem a responsabilidade pelo bem-estar emocional de um dos pais, em detrimento das suas próprias necessidades.

Qual é, então, a fronteira entre uma criança assumir as responsabilidades e o desempenho de tarefas adequadas à sua idade, com uma preocupação natural e expectável com os pais, e o ser “forçada” a agir como um pai? A resposta passa pelo grau, i.e., a parentificação ocorre quando a criança assume um número exagerado das necessidades e responsabilidades dos pais. São crianças que passam a ser “pseudo-adultos” e confidentes dos pais, que muitas vezes transmitem a imagem de filhos perfeitos. Contudo, deste fenómeno podem advir consequências nefastas a longo prazo.

Parentificação e divórcio
Não é um divórcio que determina invariavelmente a ocorrência da parentificação. Um casal separado pode manter as fronteiras entre gerações claramente definidas, distinguindo assuntos de adultos dos assuntos de crianças. No entanto, na maioria dos casos, os filhos de pais divorciados acabam por ter mais tarefas a seu cargo e por assumir um papel mais ativo na tomada de decisões. Contudo, isto não implica que os papéis e responsabilidades não se mantenham claramente definidos. Deve ser o progenitor a responsabilizar-se pela organização do quotidiano da família, a tomar decisões, a fazer planos para o agregado, a estabelecer limites e a garantir que os filhos os cumprem. As necessidades de companhia, apoio e suporte dos pais devem ser supridas por pessoas da sua geração e não pelos filhos. Caso os papéis do adulto e da criança não sejam tão claramente definidos, as fronteiras entre as gerações fiquem esbatidas e os adultos tenham um número excessivo das suas necessidades supridas pelas crianças, que acabam por assumir responsabilidades de adultos (como as necessidades emocionais), há uma clara inversão de papéis, i.e., parentificação.
Considera-se a existência de diferentes formas de parentificação: quando as crianças são um garante de segurança e controlo dos pais; quando dão cumprimento às necessidades de intimidade e proximidade dos pais; e quando se tornam nos responsáveis principais por irmãos mais novos.

Alguns alertas em relação à parentificação
– É normal que os pais desabafem com os filhos, mas quando essa prática começa a ser sistemática estamos perante uma disfuncionalidade. Os filhos não devem ser confidentes, a fonte habitual de apoio dos pais nem ser tratados como pares. Sem prejuízo do amor que os filhos sentem pelos pais, não estão preparados para tratar de necessidades e problemas de adultos. Esta necessidade legítima de ter confidentes, sobretudo quando um pai/mãe está a superar uma situação difícil, deve ser direcionada para outros adultos.
– Os filhos não devem ter dúvidas em relação a quem “comanda” a família. Podem ajudar, desempenhar tarefas e assumir responsabilidades. Contudo, tal nunca deve prejudicar o tempo necessário às tarefas escolares ou ao lazer.
– Se os filhos veem frequentemente os pais a chorar, desanimados e preocupados, se com eles são partilhadas inquietações financeiras ou de outra natureza, podem crescer mais rapidamente que o desejável, mas também sentir níveis elevados de apreensão e angústia. Mais preocupante ainda será se substituírem as preocupações normativas com temas da infância, como a escola ou a relação com colegas, por temas financeiros ou da gestão familiar.
– Quando houver encontros amorosos dos pais, estes também não devem ser tema de desabafo com os filhos, o que também é válido para questões de natureza sexual. Ao invés, quando for certo um relacionamento viável e que se pretende duradouro, os filhos deverão ser informados.
– Os filhos não devem ser usados como intermediários. Seja para levar recados ao ex-companheiro ou para servirem de informador sobre a vida deste. Nesta situação são colocados num papel de adulto, com o objetivo de satisfação das necessidades do adulto, em detrimento das da criança. Colocar o filho entre o pai/mãe e pessoas com quem não deseja comunicar, pedindo-lhe, por exemplo, para atender o telefone e “inventar uma desculpa” pode parecer inofensivo, mas é indesejável. O responsável pela ligação da família ao mundo exterior é o adulto.
– Se dá por si a referir-se ao seu filho como o seu melhor amigo ou o filho perfeito, não é um bom sinal. Crianças que são perfeitas tendem a ser também demasiado ansiosas, preocupadas e apreensivas para se sentirem confortáveis para agirem como crianças com os pais. Claro que a criança se sentirá estimulada por ser um “melhor amigo” de um progenitor, mas isso também acarreta o peso da responsabilidade pelo bem-estar desse progenitor. Nestes casos, os pais devem procurar que as crianças se voltem para as preocupações próprias da sua idade e se descentrem daquelas que são “dos crescidos”. Devem dizer aos filhos que se foquem no seu desempenho e aprendizagem na escola, em fazer amigos e atividades geradoras de prazer.
Quando só existe um adulto no agregado familiar, a dificuldade em separar as responsabilidades de adultos e crianças é mais acentuada. O pai ou mãe presente precisa, objetivamente, mais da colaboração dos filhos. Caso esta exigência se situe em níveis “normais”, as crianças podem crescer de modo mais saudável, responsável, empático e com maior sentido de responsabilidade. A fronteira entre o papel de pai e de filho deve ser sempre muito nítida e, caso seja ultrapassada, deverá ser rapidamente corrigida.

 

Rita Fonseca de Castro
Psicóloga Clínica e Terapeuta Familiar

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