Atualidade

16 de Fevereiro de 2015

Quando o terror assalta o sono do seu filho

O seu filho já acordou a chorar convulsivamente, sem reconhecer os pais, como se estivesse a ter uma alucinação? Saiba como reagir aos terrores noturnos, um distúrbio do sono comum nas crianças.

“Quando aconteceu à minha filha, apanhou-me de surpresa”. O pediatra já tinha alertado para os terrores noturnos, mas não esperava que a realidade fosse tão inquietante. Aos 2 anos e em vésperas de ter um irmão, acordou certa noite num berreiro. Peguei-lhe ao colo para a acalmar, mas ela só gritava “não” e “não quero” – eram gritos de terror! Literalmente. Sem reconhecer os pais, tentava afastar-nos, batia-nos quando nos aproximávamos, sempre com os olhos abertos, como se estivesse a ver em nós os monstros do seu pesadelo. A imagem era a de estar possuída, quase temi que rodasse a cabeça como a menina do Exorcista! Felizmente uma rápida consulta à internet clarificou o que se estava a passar.

O que são?
Os terrores noturnos são manifestações próximas do sonambulismo, são despertares incompletos em que a criança não sai da cama, mas geralmente senta-se. A criança grita, fica agitada e chora desconsoladamente. Tem os olhos abertos mas não está acordada, ao contrário do que acontece quando desperta de um pesadelo. Está antes num estádio intermédio, numa zona cinzenta que nem é de dormir nem é de acordar, sem ter a consciência do que a rodeia, mais parecendo um sonho – daí os pais poderem parecer-lhe as personagens assustadoras de um pesadelo. Durante esse episódio, que não deve demorar mais de 5 minutos, a frequência cardíaca pode subir até 160 ou 170 batimentos por minuto.

Porque acontecem?
Os terrores noturnos devem-se a uma perturbação no ciclo do sono, com a interrupção do sono REM, a fase em que ocorrem os sonhos. São mais comuns entre os 3 e os 5 anos de idade, uma fase de grande desenvolvimento cognitivo e linguístico que provoca uma hiperativação dos neurónios, embora possam acontecer até à idade adulta. Os terrores podem ser potenciados pelo cansaço ou stresse emocional, por rotinas irregulares de sono, pela febre, por alguns medicamentos ou por uma fase de alteração de vida, como o nascimento de um irmão.

Como reagir?
Num artigo para a Pais & Filhos, Mário Cordeiro explica que o melhor é deixar a criança voltar a adormecer por si: «Tentar acalmar não resulta, para desespero dos pais – mas nunca se esqueçam que, por paradoxal que pareça, aquela figurinha a mexer-se, a gritar e a espernear, não está a sentir medo.» Em vez de tentar acordar a criança, pode ficar ao seu lado em silêncio, sem intervir muito, para não a assustar mais, até ela voltar ao sono de onde, na verdade, nunca saiu. Estando perto, garante também que a criança não se magoa durante os seus gestos de agitação.

Se, no meio desse processo, a criança acordar e voltar a reconhecer os pais, é natural que fique um pouco confusa e assustada, com receio de voltar a dormir, ainda que cheia de sono. Também não vale a pena falar com a criança sobre o assunto no dia seguinte, porque ela não se vai lembrar do sucedido e pode assustar-se; além disso, ela não pode fazer nada para que o episódio não se repita.

É possível prevenir?
Não se consegue evitar os terrores noturnos por completo, mas para diminuir a sua probabilidade deve garantir que a criança durma o suficiente, com uma rotina regular de sono, e tentar que só tenha atividades tranquilas antes de ir para a cama. Evite também as histórias ou filmes que lhe metam medo antes de dormir. Se os episódios se tornarem muito frequentes ou o comportamento do seu filho durante um terror noturno for muito violento, vale a pena consultar o pediatra ou um especialista em distúrbios do sono.

Fonte | Observador