Atualidade

19 de Junho de 2013

Quando doar é ajudar a gerar vida

Falar de doação de gâmetas em Portugal ainda pode ser um tabu, quer para quem doa quer para quem recebe. A sociedade está mais aberta a este recurso, o último na lista das técnicas de Procriação Medicamente Assistida, mas as doações não têm aumentado nos últimos anos. 

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Banco público de gametas no Hospital Júlio Diniz no Porto NELSON GARRIDO

“Porque não doar óvulos e ajudar outras mulheres a cumprir um sonho e passar pela experiência da maternidade tal como eu passei e passo?“. A pergunta com tom de surpresa, por lhe parecer tão óbvia a resposta, é dada por Liliana Costa, 24 anos, uma mulher que este ano vai doar, pela primeira vez, ovócitos que depois serão utilizados em técnicas de Procriação Medicamente Assistida (PMA) na clínica privada da zona de Coimbra que escolheu para fazer a primeira doação.

Liliana é mãe de uma menina de cinco meses, vive em união de facto há quase dois anos, e diz que desde sempre teve conhecimento de casos de casais infertéis. “Por mais que haja a possibilidade de adopção, muitas mulheres não sonham só com o facto de serem chamadas de mãe mas sim com a possibilidade de gerar um filho durante nove meses dentro do seu corpo. Como muitas mulheres, por problemas de saúde, não conseguem cumprir esse sonho decidi tornar-me dadora de óvulos.”

Liliana Costa ainda está na fase inicial do processo de qualquer potencial dadora mas Maria (nome fictício), 27 anos, já tem duas dádivas registadas. Só poderá fazer mais uma. A lei portuguesa estabelece que cada mulher pode fazer três doações, com um intervalo de seis meses.

Mãe de um rapaz, Maria partilha com Liliana a mesma motivação para doar ovócitos. “Levou-me a ser dadora o facto de poder ajudar outras mulheres a poderem passar pela alegria de serem mães como eu sou”, responde ao PÚBLICO por email. Maria fez a primeira doação em 2011 e a última este ano, ambas numa clínica privada de Lisboa que lhe foi indicada por uma amiga. Foi uma decisão sua mas para a qual também contou a família e os amigos mais próximos. “Também gosto de saber a opinião deles”, diz.

Quem são as dadoras portuguesas?
Maria já o fez e Liliana vai passar obrigatoriamente pelo mesmo processo. Antes de uma mulher ser considerada dadora há um processo para avaliar as suas condições físicas e psicológicas. Existem pré-requisitos obrigatórios para se tornarem “candidatas”: têm que ter entre 18 e 35 anos e serem saudáveis, sem antecedentes de doenças de transmissão genéticas ou infecciosas. Se após uma fase de exames médicos, que passam por um exame ginecológico e análises sanguíneas, se confirmar que do ponto de vista reprodutivo a potencial dadora não tem quaisquer problemas, pode tornar-se dadora.

A maioria das mulheres que dirigem aos centros têm entre 20 e 28 anos. No Cemerare, Maria José Carvalho diz que as dadoras que tem recebido têm na maioria idades entre os 23 e 28 anos, são de classe média, jovens licenciadas ou mulheres com as mais variadas profissões. Alberto Barros diz que a candidata a dadora mais jovem que teve na clínica onde trabalha tinha 20 anos e as mais velhas 35. “A maioria das dadoras são estudantes universitárias, mas há também secretárias, enfermeiras. Fico surpreendido com abertura que existe”, confessa.

No Banco Público de Gâmetas, as estudantes universitárias são também a maioria. Isabel Sousa Pereira diz que há pessoas com as mais “variadas profissões, casadas ou não, com ou sem filhos”.“Os casais que precisam de dadores masculinos não têm lista de espera para fazer tratamento. Temos bastantes casais a aguardar a realização do tratamento porque temos menos dadoras e uma dadora ‘serve’ apenas um casal.”
A psicóloga Ana Oliveira Pereira, que desde 2000 diz ter entrevistado aproximadamente 1500 candidatas a doação de ovócitos, refere que se tratam de mulheres que pretendem ajudar, quer porque têm familiares ou amigas que estão ou estiveram a lidar com situações de infertilidade. Na Ava Clinic são raras as dadoras que se encontram desempregadas, o que na opinião da psicóloga, “atesta da estabilidade pessoal das candidatas que surgem”.

“Sentem-se privilegiadas por serem mães e querem proporcionar essa grande alegria a outra mulher e outras porque gostariam que alguém as ajudasse caso um dia se confrontassem com essa situação”, diz. Quando decidem avançar para a doação têm dúvidas relacionadas com “aspectos técnicos, nomeadamente sobre os procedimentos para recolha dos óvócitos” e algumas dúvidas habituais sobre os “riscos para a fertilidade futura”.

“Se questionarmos as candidatas a doação, e independentemente das suas motivações, aquilo que gostariam de saber é se a outra mulher conseguiu engravidar, se o processo resultou”, conta Ana Oliveira Pereira. Este é aliás o “único factor de insatisfação” que as dadoras referem à psicóloga, “não lhes ser dada informação sobre o resultado final do processo”, uma situação impossível dada a cláusula de confidencialidade e anonimato entre dadores e receptores.

As mulheres podem fazer três doações na vida mas a psicóloga indica que a maior parte das não chega a fazer duas doações. “Muitas ficam satisfeitas e sentem que ajudaram fazendo uma doação e conseguiram realizar o seu objectivo”.

Portugal precisa de dadoras
Em Portugal, a procura de dadores continua a ser maior que a oferta, e no caso da doação de esperma a oferta é praticamente nula. A nível nacional, quando se fala em doação de gâmetas a discussão acaba por se centrar na de óvulos, já que no caso do esperma, Espanha continua a ser o país ao qual os centros de tratamento de fertilidade portugueses recorrem na sua maioria para conseguirem sémen.

Se recuarmos a 2010, o número de partos através da doação de gâmetas (óvulos e espermatozóides) não chegou a 140: 113 por doação de óvulos a fresco e 25 por doação de esperma.

A directora do Banco Público de Gâmetas admite que é difícil dar resposta ao pedidos de dadores. Nos dois anos que se seguiram à abertura do banco público “houve alguma afluência mas entretanto foi havendo oscilações. Neste último quadrimestre de 2013, foi significativamente menor”, diz Isabel Sousa Pereira.
Quando se fala em campanhas de sensibilização para a doação de gâmetas levanta-se a questão da “sensibilidade assimétrica da sociedade” em relação a este assunto. Carlos Calhaz Jorge, responsável pela Unidade de Medicina de Reprodução do Centro Hospitalar Lisboa Norte – Hospital de Santa Maria e membro da Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução, diz que pensar numa campanha pública para este caso torna-se complicado. “É muito dificil gerir sensibilidades, ainda existe reserva mental [dos portugueses] em relação a estas áreas”.

Quando a mulher se torna dadora faz uma “clara separação entre genética e filiação”, sublinha a psicóloga Ana Oliveira Pereira. “Trata-se de doação de células que, embora contenham o seu material genético, dão origem a crianças que não consideram como filhos”.

Na cabeça de Liliana Costa não há qualquer confusão. Há uma criança que pode vir a ser gerada com um óvulo seu mas a questão de se esse poderá ser considerado seu filho não se põe. A lei obriga a que a doação de ovócitos e de espermatozóides seja feita de forma anónima e os dadores não têm qualquer responsabilidade sobre as crianças que nasçam com a ajuda da sua dádiva. Para Liliana, “pai e mãe é quem gera, mas não só quem gera”. “Pais são aqueles que nos acompanham para a vida e por toda a vida e não aqueles que apenas existem porque um teste de ADN diz que sim”.

Por isso pede às mulheres que dissolvam este preconceito e que pensem que “estão a ajudar uma outra mulher, mas não só, estão a ajudar um casal, uma família que sonha dia e noite com a possibilidade de ter um filho”. É essa posição que vai manter firmemente no dia em que fizer a sua doação.

Fonte: Público