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Coaching Parental

31 de Julho de 2015

Quando a adoção vai ao consultório

adopção

Cada família é uma família… Algumas não começam no dia em que os filhos nascem… .

Em termos teóricos as famílias adotivas constituem uma das tipologias familiares diversa da família nuclear tradicional. Mas será que o que move estas famílias a procurar a ajuda de um terapeuta familiar é assim tão distinto do que leva qualquer outra família a fazê-lo? Serão os problemas e queixas das famílias adotivas tão diferentes dos das famílias com filhos biológicos?

Ciente de que está perante uma família adotiva, o terapeuta deverá procurar perceber que peso tem a adoção no pedido. Deve, desde logo, ouvir atentamente os progenitores. Será que a ausência de laços biológicos entre pai/s e filho/s não é apenas mais uma das idiossincrasias da família em consulta?

A adoção não constitui uma patologia em si mesma, não é um sintoma, não é uma síndrome, não existe qualquer motivo para a patologizar. Não obstante, o terapeuta não deverá esquecer que crianças e jovens adotados podem desenvolver sintomatologia em consequência de situações de privação, abandono ou outras de natureza traumática. Por outro lado, também muitas vezes os pais tiverem que passar por um processo de luto decorrente, por exemplo, de uma situação de infertilidade e consequente abandono do desejo de constituir uma família biológica. Assim, o terapeuta deve estar especialmente atento a estas vulnerabilidades, até porque as questões emocionalmente mais sensíveis dos filhos podem exacerbar as dos pais e vice-versa.

Embora não seja uma prática comum no nosso país, porque é que os casais não hão-de procurar um terapeuta antes da adoção e conversar sobre todos os seus medos e inseguranças, sentindo que estes são legítimos, comuns, partilhados por famílias na mesma situação e, sobretudo, ultrapassáveis. Neste caso, a terapia pode ser um recurso preventivo de eventuais ruturas futuras na adoção. Seguem-se alguns exemplos de medos habituais dos pais em fase de pré-adoção:

– Receio de não serem aceites nem conseguirem estabelecer uma relação afetiva com o “novo filho”;

– Medo de que a criança manifeste comportamentos (eg., perturbações de sono, choro) que possam ser indício de uma rejeição ou dificuldade de adaptação ao novo espaço familiar ou, mais ainda, como uma ameaça às competências parentais, ou uma consequência direta da herança genética que a criança transporta consigo;

– Dificuldade em estabelecer uma autoridade e disciplina claras por medo de minar o afeto que a criança vai sentir ou de lhe causar ainda mais prejuízo do que o que já viveu no passado;

– Receio de ver defraudadas as expectativas em relação às aprendizagens e desempenho escolar – aqui assume especial importância o conhecimento de fatores de risco na família de origem, como consumos, adições ou outros comportamentos de risco;

– Quando são adotados adolescentes os receios tendem a aumentar, pela complexidade desta fase.

Não tendo sido feito previamente este trabalho, poderá ser o terapeuta familiar, devidamente capacitado para tal, a cumprir também a função de psicoeducar, introduzindo informação de diversa natureza com toda a família presente em consulta, gerando um clima de partilha construtiva.

Independentemente do pedido e do paciente identificado, nas famílias adotivas, porventura mais do que noutras famílias, o terapeuta deve trabalhar com toda o sistema significativo, o que não invalida que possa também fazer sessões só com alguns dos elementos da família ou sessões individuais. Como é que um terapeuta pode ajudar uma família a trabalhar as suas relações se não se permite observa-las diretamente e se não despende tempo a ouvir atentamente as diferentes perspetivas sobre uma mesma temática?

Algumas investigações conduzidas nesta área demonstram que, de um ponto de vista clínico, a maior parte das famílias adotivas não apresenta qualquer problema. Por outro lado, existem estudos que evidenciam que pessoas adotadas, sobretudo na idade escolar e na adolescência, tendem a apresentar mais problemas ou dificuldades e recorrem mais a especialistas de saúde mental. Contudo, esta perceção de que as crianças ou adolescentes que foram adotados apresentam mais problemas de saúde mental do que os que não o foram, pode decorrer precisamente de uma hipervalorização da adoção, i.e., existe o estabelecimento de uma relação causa-efeito entre adoção e queixa – o Manuel tem conflitos com os colegas de turma porque foi adotado ou a Joana tem comportamentos delinquentes porque foi adotada. Mas não conhecemos todos crianças e jovens com dificuldades semelhantes que nasceram, cresceram e viveram sempre com a sua família de origem? Provavelmente, os pais adotivos estão mais vigilantes e interpretam problemas de comportamento relativamente corriqueiros como sendo patológicos.

A maior parte das famílias que procuram acompanhamento profissional fazem-no de facto por problemas apresentados pelos filhos adotados e não há dúvida de que alguns destes comportamentos disruptivos podem ter a sua génese nas vivências prévias à adoção. Contudo, e adotando uma leitura sistémica, estes “sintomas” também podem emergir no subsistema filial com a função de alertar para problemas que abrangem toda a família adotiva ou que se situam apenas no casal, por exemplo.

As queixas mais frequentes remetem para dificuldades de relação entre a criança e os progenitores ou um destes (que não diferem em muito das de qualquer outra família – os pais queixam-se de comportamentos dos filhos e os filhos de comportamentos dos pais); problemas de comportamento (alguns, como problemas de atenção ou défices a nível do auto-controlo. parecem ser, de facto, estatisticamente mais comuns em crianças adotadas); dificuldades na vinculação afetiva; problemas emocionais de diversa ordem; dificuldades relacionadas com perdas e com a comunicação sobre as origens; dificuldades relacionadas com a construção da identidade e de um sentimento de pertença à nova família. Com a chegada da adolescência muitos problemas de relação e conflitos podem exacerbar-se.

Não consigo evitar recordar-me do caso específico de uma família que recebi em consulta de terapia familiar. Pai, mãe e duas filhas adotivas – irmãs – com seis e quatro anos. Um historial de negligência, maus tratos e subsequente institucionalização. O processo terapêutico teve apenas duas sessões. No decurso das sessões as crianças brincavam e comunicavam despreocupadamente com os pais.

No discurso destes abundavam medos e inseguranças em relação ao futuro, muitos deles alicerçados em mitos e ideias pré-concebidas. Foram escutados ativamente, ouviram-se um ao outro. O processo de adoção corria bem. Ambas as crianças estavam satisfeitas com a nova casa e os quartos novos, preparados pelos pais – mas completados ao gosto das filhas e em conjunto –, tinham-se relacionado bem com a família alargada, estavam felizes com a existência de primos das mesmas idades… No final da segunda sessão a porta foi deixada aberta para que regressassem a qualquer momento. Na sessão de follow-up, passados seis meses, tudo corria bem. Passaram seis anos, não voltaram.

A adoção pode ter em si o efeito terapêutico reparador que tem qualquer relação humana profunda e estável, permitindo que as crianças estabeleçam novos vínculos, agora com padrões de vinculação saudáveis. A criança que é adotada carrega consigo um saco de perguntas – umas sobre o passado, outras sobre o presente, e muitas interrogações sobe o futuro. O novo contexto relacional deverá ter uma função contentora e de resposta, para que não tenha que enfrentar sozinha todos estes pontos de interrogação. O contexto terapêutico pode ser, sem dúvida, uma ajuda importante.

Rita Fonseca de Castro

Psicóloga Clínica e Terapeuta Familiar – Oficina de Psicologia

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