Atualidade

6 de Abril de 2015

Qualquer coisa do género

Pouco Estado, muita mãe

Todos os inquéritos e estudos dizem que a esmagadora maioria dos portugueses deseja ter filhos. Dois filhos, aliás. No entanto, os dados dizem-nos que no plano da concretização muitos ficam-se por um filho. Em 2013, o índice sintético de fecundidade era de 1,21, o que significa que, em média, cada mulher em idade fértil teve menos de dois filhos.

Como explicar esta discrepância entre o plano das aspirações e o plano das concretizações? Quanto a mim, existem dois fortes motivos. Por um lado, a orfandade de Estado a que as crianças estão destinadas, num país de baixos rendimentos. Por outro lado, a sobre-responsabilização das mães no que diz respeito às crianças, desde logo pelas próprias mulheres.

É sabido que os apoios à parentalidade são fundamentais para garantir a renovação das gerações, o bem-estar das mães, dos pais e, claro, das crianças. De todos nós, portanto. O Estado português está a falhar na tarefa de providenciar estes apoios, caso contrário não seríamos um dos países do mundo com menor índice sintético de fecundidade.

Para inverter este percurso o Estado português precisa de reconhecer os seus filhos. Isso faz-se aumentando o número de creches e infantários públicos. Fiscalizando e criando maiores penalizações para as empresas que despeçam mulheres grávidas ou façam pressões para que estas adiem o projecto de ser mães, e isto aplica-se igualmente aos homens. Incentivando e promovendo uma maior partilha das licenças entre os pais e as mães, e criando mecanismo que facilitem a conciliação família/trabalho para ambos. Enfim, cabe ao Estado o desenvolvimento de políticas públicas que visem aumentar as taxas de natalidade num país em acelerado envelhecimento como o nosso.

Quando falo em apoios à parentalidade refiro-me à maternidade e à paternidade. Portanto, ao leque de apoios disponíveis para as mães e os pais. Porque prefiro este termo ao uso de maternidade? A resposta é muito simples. Porque ter um filho implica responsabilizar e apoiar ambos os pais e não só as mulheres.

Não podemos continuar a assumir que cuidar dos filhos, educá-los, é uma tarefa predominantemente feminina. Este é, aliás, um motivo para que algumas mulheres tenham receio de ser mães, antevendo “penalizações” noutras esferas da vida que também valorizam, como a profissional, ou na qualidade de vida em geral. Infelizmente este medo não é infundado. Sim, as mulheres carregam as crianças na barriga e são elas que as deitam cá para fora. Também são elas que as amamentam, a menos que, por motivos diversos, não o façam. Para além disso, não me parece que haja uma única tarefa que os homens não possam fazer. Do mesmo modo, não acredito que as mulheres sejam necessariamente melhores do que os homens a cuidar de uma criança. Se os homens se interessarem e partilharem com as mulheres os cuidados das crianças, poderão fazê-lo tão bem como qualquer mãe.

Muitos dos jovens pais têm uma enorme vontade de participar mais na educação e cuidados dos menores. Para que eles se possam realizar enquanto pais, e as mulheres não fiquem assoberbadas com esta enorme tarefa, há que dar-lhes espaço para que isso aconteça. Para começar, as próprias mulheres devem esforçar-se para deixar de reproduzir o estereótipo de que não há ninguém melhor no mundo para cuidar de uma criança do que a própria mãe. O pai pode substitui-la na perfeição. E ainda bem.

Fonte: Público