Mães e Pais na 1ª Pessoa

Catarina Beato 

Dias de uma Princesa

Qual o problema de morrer na praia?

Sofro de falta de competitividade e ambição. Talvez seja um defeito e, como em tudo o resto na vida, posso culpar os meus pais. 

Tinha sete ou oito anos quando o meu treinador de natação foi falar com o meu pai e a com a minha mãe para me convidar a integrar a equipa de competição. Os meus pais, esses honestos trabalhadores de esquerda, ouviram a palavra competição e todos as campainhas de perigo soaram nas suas cabeças. Competição, competitividade, livre iniciativa privada… “nem pensar Anita, não vais para a competição”.
Argumentei, acho mesmo que me fartei de chorar, mas a decisão estava tomada: somos todos iguais, nem melhores, nem piores, e as crianças querem-se criadas sem pressões.
Naquele momento pôs-se fim a qualquer hipótese de me vir a tornar-me uma campeã olímpica dos 200 metros bruços. Isso e ter valores de ambição.
Serve esta introdução histórico-familiar para desabafar que não entendo que se considere uma enorme derrota quando é alcançado um segundo lugar. O segundo lugar, já para não falar no terceiro, é uma excelente posição. Não concordo que o importante seja só participar, mas não é preciso o primeiro lugar para alcançar uma vitória.
Quando queremos apenas ser os primeiros, deixamos de ter capacidade para ver as vantagens de outras posições. É como querer ter o IRC mais baixo da zona Euro, porque de outra maneira os investidores não aparecem. Tenho a certeza que se formos o segundo, o terceiro ou mesmo o quarto país com o sistema fiscal mais competitivo, e preferencialmente mais estável, a coisa já corre muito melhor.
É verdade que isto serve para a economia e também serve para o futebol. Tentava explicar a minha teoria a propósito do Benfica que ficou em segundo lugar na Liga Europa, e na Liga, mas fui confrontada com a revolta de “morrer na praia”. Pois para mim, com tanto sítio feio para morrer, a praia é um lugar bastante aprazível. Mas, pronto, isto sou eu que não tenho ambição.

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