Mães e Pais na 1ª Pessoa

Sofia Ribeiro Fernandes  

Crónicas de Estetoscópio e Biberão

Primeiro dia de escola…

Primeiro dia de escola. 20 meninos e uma jovem professora. 20 meninos=18 meninos-comuns (sem ofensa), o R e a menina-que-queria-ir-à-escola cujo nome não sei. A cada menino a sua mãe. Montes de mães com um sorriso rasgado de nervoso miudinho. Bagunça na porta de entrada. É engraçado olhar à volta e decifrar as conversas alheias de pais de meninos-comuns que vão para o primeiro dia de escola.

Encostados à porta, os olhos do R procuravam os meninos dos abraços longos e de amor-violento da sala do ano passado. Soltava um “olha…” a cada rosto conhecido, mas o L (o amigo de sempre que não tinha medo dos apertos amoroso-efusivos) não chegou a aparecer. À chamada do seu nome acompanhado de um exclamativo “bom dia…”, entramos para uma sala de aula calorosa mas ainda meio-despida de coisas de meninos. Com o R no colo, inquieto, sem sequer perceber quem era a Professora, tentei captar uma coisa ou outra do que ela dizia.

Apresentação aos meninos e pais dos 20 meninos terminada.

Sobramos dois: o R e a menina-que-queria-ir-à-escola cujo nome não sei. As mães dos meninos-comuns foram embora, apressadas, fardadas para o trabalho e preocupadas com o material imenso que a professora pedira. E, nós continuamos, para a reunião na Unidade de Ensino Especial. Nessa mesa, fervorosamente redonda, sentamo-nos. (O R foi brincar.) Éramos três Mães:eu e duas mães com rostos tão familiares (percebi que do hospital). Eram três professoras de sorriso amplo e airoso. Dei por mim a ouvir vidas alheias descritas como um processo clínico hospitalar recheadas de termos clínicos acertados, listas de fármacos com nomes difíceis que eram tão bem aplicados. Dei por mim a ouvir vidas que não cabem nas 24 horas de um dia. Dei por mim a ver agenda com consultas no hospital e aqui e acolá marcadas todos os dias ou dia sim-dia não. Dei por mim a olhar para o R com as suas minúsculas deficiências e a pensar que sou uma sortuda. Dei por mi a apetecer-me reformular a vida destes meninos e das mães… É verdade: consultas em dias consecutivos porque raramente alguém tenta marcar uma consulta multidisciplinar em que se unem as forças e a ciência numa manhã. Dei por mim a não ouvir lamúrias ou suspiros (que eu tantas vezes dou). Dei por mim a olhar mães de olhos cansados e caídos, mascarados pelo rímel, porque o “é assim, tem de ser, não há solução” foi-lhes dado como a única opção. Não acredito nisso. Acredito com todo o fervor que podem ser mudadas algumas coisas. Acredito e vou propô-lo. Em oposição ao que uma mente brilhante psicológica me disse um dia (há bem pouco tempo), as mães dos meninos menos comuns não têm de deixar de trabalhar. Eu não acredito nisso. Foi-me dito num sítio de meninos menos comuns como uma verdade inquestionável, servido com um olhar reprovador e fulminante, porque não acompanhava o R às terapias. Rechearam-se os meus olhos de lágrimas que caíram uma ou outra no barrigas da S. Mas, agora, que já não estou hormonalmente ondulante, penso com toda a certeza que está não é opção. Quero e preciso chegar do trabalho desgastante e ficar num namoro incontrolável com eles. É isso que preciso…

O primeiro dia de escola do R foi isto: um ponto de partida para novas mudanças…

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