Atualidade

8 de Abril de 2015

PORTUGAL PRECISA DE CUIDADORES por Sara Rodi

E isto acontece numa sociedade que depende do número de crianças que nasce para existir e se sustentar. Isto acontece numa sociedade em que a população com mais de 65 anos é já 20% do total*. Fala-se na importância de criar mais creches e com horários mais alargados. Na necessidade de existirem mais lares a custos suportáveis. É inquestionável que essas instituições são fundamentais e que desempenham um papel fulcral na sociedade. Mas quando vejo crianças que têm de ser deixadas na creche de madrugada e já saem noite dentro, porque os pais não têm alternativa; e quando oiço falar de idosos que não têm uma única visita durantes meses, porque os familiares mais próximos não têm possibilidade de parar, não posso deixar de pensar que essas instituições remedeiam o problema, mas não o solucionam. E que as crianças sofrem pela ausência dos pais. Assim como há velhos que morrem de solidão…

Portugal precisa de voltar a ter Cuidadores. Mulheres ou Homens, quem puder ou quem se sentir mais vocacionado para tal. E isso tem de passar por um maior apoio, a todos os níveis, à maternidade/paternidade; um maior apoio a quem tem idosos a seu cargo; pela flexibilização do horário de trabalho e/ou pela redução do horário de trabalho para todos (para que todos, no geral, possam ter mais tempo); entre tantas outras ideias/medidas que possam surgir. Mas terá de passar também, necessariamente, pela valorização do papel do Cuidador. Nenhuma Mulher ou Homem se deverá sentir diminuído por cuidar daqueles que, para além de serem aqueles que amam, são parte fundamental da sociedade. Ou porque já deram tudo. Ou porque ainda têm tudo para dar. A Mulher ou o Homem que, hoje, fica em casa a cuidar dos filhos ou de algum familiar idoso, não pode ser olhado como alguém que abdicou do mais importante da sua vida. Deveria, pelo contrário, ser olhado como alguém que, não querendo abdicar do mais importante da sua vida, optou por fazer algo igualmente válido para toda a sociedade. Se eu pudesse, criava até um diploma de mérito para quem o faz. Acrescentaria créditos ao seu currículo. E, claro… atribuir-lhe-ia remuneração compatível com a importância da sua função.

Tudo isto, com maior ou menor razão de ser (vocês me dirão) me passou pela cabeça enquanto a minha filha cuidava de mim. Da casa, cuidamos todos. Dos animais também. Mas, da mamã (pelo menos por agora, e se calhar só mesmo por agora!), é a minha filha que gosta de cuidar. Não por ser a única filha da família (o tempo da minha avó, efetivamente, já lá vai). Mas por ser como é, com uma especial vocação para Cuidadora. E, quando assim é, em total liberdade, igualdade de oportunidades, respeito e valorização, está tudo certo.

Fonte: Maria Capaz