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Saúde

7 de Novembro de 2014

Porque é que o fumo passivo é tão prejudicial para grávidas e crianças

Novos dados mostram que as leis antitabagismo já estão a melhorar a qualidade de vida das famílias, mas ainda há muito a ser feito

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Para convencer o marido a parar de fumar, a professora Talita Souza teve que tomar medidas mais drásticas. Grávida de 7 meses de Maite, proibiu o marido de entrar no quarto da filha ou manipular as roupas da recém-nascida até que ele se livre do cheiro do tabaco. Além disso, diariamente faz contagem regressiva para que ele larga o cigarro, caso contrário, não poderá ter a filha ao colo.

O que Talita talvez não saiba – assim como muita gente – é que o cigarro é tão nocivo quanto o fumo e não precisa estar aparente para causar danos a quem está por perto. As substâncias não se dissipam com a primeira corrente de ar que passa através da janela. Pelo contrário, permanecem na pele, nas roupas e no cabelo dos fumadores e até nos móveis de casa e podem ser passadas para outras pessoas.

E pior, os efeitos podem ser mais intensos para a criança em formação do que para a mãe exposta ao fumo. Isso porque as partículas existentes no cigarro podem causar o estreitamento dos vasos na região da placenta, o que diminui o fluxo sanguíneo e restringe a passagem de nutrientes para o bebê, prejudicando o crescimento fetal. Há estudos que acusam malformação do bebê, embora ainda haja necessidade de mais pesquisas nesse sentido.

De acordo com dados apresentados no Women’s Health Initiative (WHI), projeto que mapeia a saúde da mulher nos Estados Unidos, as mulheres expostas à fumaça do tabaco têm ainda risco aumentado de complicações na gravidez, incluindo aborto espontâneo, morte fetal e gravidez ectópica (fora da cavidade uterina). Para cada complicação da gestação, o risco varia de 17% a 61% em mulheres expostas ao cigarro, seja durante a infância, em casa ou no trabalho.

O fumo dentro de casa

Um artigo publicado na revista Pediatrics, jornal oficial da Academia Americana de Pediatria, apresentou uma revisão de estudos que mostram que o pai do bebê é a primeira fonte de fumaça do cigarro, seguido pelos colegas de trabalho. De acordo com Jo Leonardi-Bee, uma das autoras do estudo, parar de fumar deveria ser um pré-requisito antes mesmo de a mulher engravidar, já que o cigarro afeta a qualidade do esperma do homem.

A autora defende que é preciso encontrar boas intervenções de saúde pública para reduzir a exposição das gestantes ao fumo passivo. Uma possibilidade seria o parceiro procurar tratamentos de cessação de tabagismo, como terapia de reposição de nicotina, e exercitar a abstinência pelo menos quando estiver em casa ou no carro na companhia da mulher.

O marido de Gisleila Carvalho tentou parar nas duas gravidezes dela, sem sucesso. Mesmo que ele não fumasse dentro de casa, a gestante enjoava e passava mal só de sentir o cheiro que ficava nas roupas. Hoje, com dois filhos, Miguel, 3, e Raul, 2 meses, conseguiu diminuir a quantidade para dez cigarros por dia, fumados sempre fora de casa, o que não evita complicações. “Descobrimos que o Miguel tem bronquite. É hereditário, mas o cigarro agrava a situação. O pediatra disse que, mesmo que o meu marido se lave, o suor dele passa a nicotina para a pele e por contato para as crianças”, conta Gisleila.

Miguel e Raul não estão sozinhos. As estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que uma em cada quatro crianças brasileiras estão expostas aos efeitos nocivos do cigarro dentro de casa.

Outro dado preocupante é que as infeções respiratórias são a principal causa de morte por fumo passivo. Bronquiolite, asma, pneumonia, broncopneumonia, sinusite e infeções do ouvido são as doenças mais comuns que podem acometer as crianças em contacto com o fumo do cigarro. Isso porque o monóxido de carbono estreita os brônquios e as vias aéreas. Pesquisadores da Universidade de Atenas, na Grécia, descobriram que uma pessoa precisa de apenas 20 minutos de exposição a altas concentrações de fumaça de cigarro para sofrer alterações fisiológicas no aparelho respiratório.

Ponto positivo para o combate ao fumo  

A batalha contra o fumo precisa de mais reforços para ser vencida, especialmente no Brasil, onde, de acordo com um levantamento de 2008 feito pelo INCA (Instituto Nacional do Câncer), há mais de 25 milhões de fumadores. A boa notícia é que as políticas antitabagistas pelo mundo parecem estar a funcionar.

A Lei Antifumo (nº 13.541), de 7 de agosto de 2009, promulgada pelo Estado de São Paulo, proíbe o consumo de cigarros, cigarrilhas, charutos ou de qualquer outro produto fumígeno, derivado ou não do tabaco, em ambientes de uso coletivo, públicos ou privados, sejam eles total ou parcialmente fechados e onde haja permanência ou circulação de pessoas. De acordo com o último levantamento feito pela Secretaria, o número de paulistas fumantes caiu 31%.

A melhora de efeitos em fumantes passivos ainda não foi medida por aqui. Porém, uma revisão de 14 estudos online feitos em várias cidades dos Estados Unidos mostrou que legislações antifumo foram associadas com reduções na prematuridade e atendimento hospitalares por asma em crianças. A notícia é boa, mas, antes de medidas políticas, é necessário maior conscientização da população fumante com a percepção de que eles podem tornar não só as suas vidas mais saudáveis, mas também as vidas daqueles que amam.

Fontes: Rossana Pulcineli, professora do departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Sociedade Paulista de Ginecologia e Obstetrícia (SOGESP); Fátima Rodrigues Fernandes, alergoalergista e pediatra da Escola Paulista de Medicina.

Fonte | Revista Crescer