Atualidade

21 de Maio de 2015

Porque é que as filhas discutem com as mães?

Os filmes, as séries (e a vida real) estão repletos de casos de relações tensas entre mães e filhas, desde “Um Quente Agosto” a “Scandal”. Mas o que torna estas relações tão difíceis?

Deborah Tannen, uma professora de Linguística na Universidade de Georgetown, analisou horas e horas de conversas entre mães e filhas para escrever o livro You’re Wearing That?: Understanding Mothers and Daughters in Conversation, e chegou ao cerne da questão. O que acontece é que as mães querem proteger as filhas e, por isso, dão conselhos que julgam que vão facilitar-lhes a vida. As filhas, por outro lado, querem ter a aprovação das mães e interpretam os conselhos como sendo críticas e a prova de que não são perfeitas.

Tannen diz que as mães “são as pessoas que as filhas mais querem que pensem que elas são perfeitas. Porque a opinião delas importa. E se elas acham que as filhas estão a fazer as coisas erradas, é porque as filhas têm defeitos terríveis. E, no fundo, todos nos preocupamos com a possibilidade de termos defeitos terríveis.”

Estes dois lados — a proteção das mães versus o desejo de aprovação das filhas — leva a muitos desentendimentos e discussões. A mãe bem-intencionada dá conselhos; a filha que procura aprovação fica ofendida e diz à mãe para deixá-la em paz; a mãe responde que não lhe pode dizer nada sem que ela fique chateada.

Numa entrevista, Deborah Tannen abordou vários temas, desde o fenómeno crescente das mães e filhas que dizem ser melhores amigas, aos assuntos sobre os quais discutem, passando por conselhos para evitar que discutam tanto.

“A minha mãe é a minha melhor amiga”

Uma das características do novo milénio é a aproximação dos filhos aos pais que não existia em gerações anteriores, ao ponto de o presidente da MTV ter anunciado, em 2013, que o canal iria seguir um novo rumo na programação porque os jovens de hoje “não se revoltam contra os pais de todo. Em vez disso estão a ir morar com eles. E não querem sair de lá.”

Tannen reparou ao longo das suas horas de gravações que mães e filhas que se dizem melhores amigas têm sido uma tendência crescente. “Acho que é algo que seria muito pouco ouvido há uns anos e que, muito provavelmente, continua a sê-lo em muitas culturas no mundo.”

A designação de melhores amigas entre mães e filhas significa que elas falam frequentemente e contam tudo uma à outra. Este contacto constante deve-se essencialmente à tecnologia que temos aos nosso dispor: chamadas telefónicas, mensagens, e-mails, Facebook ou outras redes sociais.

No seu livro, a professora diz que esta proximidade também pode ter inconvenientes. Por exemplo, uma filha inicia uma conversa em “modo amiga” e comenta com a mãe o quão cansada está. A mãe, igualmente em “modo amiga”, responde a simpatizar com as queixas da filha. Mas rapidamente a mãe muda para o “modo mãe” e enche a filha de perguntas como “tens dormido bem?” e dá todo um sermão em como a filha devia cuidar mais de si mesma. A filha chateia-se e arrepende-se de ter comentado com a mãe que estava cansada.

“Porque elas falam mais uma com a outra e falam mais sobre assuntos pessoais, a probabilidade de dizer alguma coisa de errado é maior”, diz Tannen. “Porque estão tão próximas, há mais oportunidade de se irritarem.”

Sobre o que é que mães e filhas discutem?

Deborah Tannen diz serem três os fatores principais de fricção entre mães e filhas: cabelo, roupa e peso. Todos estes fatores estão relacionados com a aparência e refletem os problemas que as mulheres enfrentam no seu quotidiano.

“As mulheres na nossa cultura são muito mais julgadas pela aparência do que os homens.” Os homens podem vestir o que quiserem, usar o corte de cabelo que lhes apetecer sem serem alvo de comentários nem atraírem todas as atenções. Já com as mulheres, o mesmo não acontece.

Assim como as mulheres são avaliadas na rua por outras pessoas, também as mães têm uma palavra a dizer sobre a roupa que as filhas usam ou como têm o cabelo. E porque as mães querem o melhor para as filhas, não se vão coibir de dar a sua opinião. É neste momento que o “conflito preocupação-criticismo” surge: a mãe sugere à filha que faça umas madeixas, com a melhor das intenções; a filha interpreta como crítica e pensa que a mãe não gosta do seu cabelo.

Outro fator que alimenta a tensão em torno da aparência física é o facto de “mães e filhas olharem uma para a outra com um escrutínio que normalmente só usamos connosco. Porque ambas sentem que se representam uma à outra no mundo.” Uma mãe que não goste do seu cabelo mais depressa vai sugerir à filha que faça madeixas. Assim estará a melhorar na sua filha algo que desgosta em si.

O que podem as filhas fazer para discutirem menos com as mães?

Apesar do “conflito mãe-filha” ser universal, não é intratável. Deborah Tannen diz ter falado com muitas mulheres que melhoraram as suas relações com as mães mudando a reação que têm aos conselhos que lhes são dados.

Tannen deu o exemplo de uma mulher que foi visitar a mãe ao hospital: assim que lá chegou, as primeiras palavras que a mãe lhe disse foram: “qual foi a última vez que pintaste as raízes [do cabelo]?”. Por norma, esta filha deveria ter-se enfurecido com a fixação da mãe na sua aparência. No entanto, encarou-o como um sinal de que a mãe estava bem.

O conselho para as filhas passa então por não encarar as palavras das mães unicamente como críticas. “Sim, eu oiço criticismo — o que não significa que também não seja um sinal de preocupação.” O conselho para as mães é outro: tentem ver as coisas do ponto de vista das outras pessoas. Ou seja, tentem perceber que as filhas podem ficar ofendidas com os conselhos que lhes dão, por mais bem-intencionados que sejam.

Fonte: Observador