Atualidade

7 de Agosto de 2014

Parvoíces e disparates

Este título poderia ser retirado de uma frase dita por uma criança. Uma criancice, portanto. Mas se o usei, pese embora a eventual agressividade que inspira, é porque há coisas que irritam o mais pacífico dos mortais e acordam a mais sonolenta das revoltas.
Custa-me, por exemplo, assistir diariamente a atropelos da Ciência em nome de… nada. Pois, se ainda fosse em nome de algo ou de algum valor, de alguma diretiva ou lei, mas não. É o atropelo da lógica, da evolução e da maneira de pensar filosófica pela ignorância, pelos mitos urbanos e pela falta de atualização dos profissionais de saúde ou pelo excesso de (má) informação dos pais e famílias. Ou eventualmente também ao contrário.

Ser mãe ou pai não é fácil. É um facto. Os progenitores, aliás, queixam-se de que as crianças não trazem manual de instruções… e nem podem apresentar uma reclamação ao fabricante sob pena de passarem de queixosos a réus. Ser mãe ou ser pai tem – e deve continuar a ter – muito de instintivo, de sabedoria milenar que está encerrada nos genes, de sapiência tradicional das tribos, clãs, famílias e aldeias, e também do aconselhamento dos idosos, conhecedores e experientes que, contudo, escasseiam e a quem não se dá valor… porque, ironica e paradoxalmente, são velhos. Mas não é isto que muitas vezes se passa. Muito boa gente está cada vez mais agarrada à informação acéfala e efémera, que saltita de e-mail em e-mail e que muitos tomam por boa, por falta de sentido crítico, por indigência reflexiva ou meramente por sentimentos piedosos – é o caso-tipo do menino de 7 anos com síndroma de Taggart (mal escrito no mail, diga-se de passagem) que precisa urgentemente de não sei o quê e que circula na net desde… 1998!, e que milhares de pessoas enviam a outros tantos milhares, não entendendo que estão a servir de cobaias para testar velocidades de redes e outras coisas mais que servirão de base a delinear estratégias comerciais. Será que se está cada vez mais acrítico em relação ao que nos é dito, ou que alguém disse, ou que alguém diz que alguém disse, e à «ciência» produzida nos «o que estás a pensar» ou «gosto» e «partilho» do, por vezes (quase sempre, arriscava!) inefável Facebook?
Andaremos a seguir normas de conduta ditas por pessoas não creditadas ou que já o foram mas estão ultrapassadas porque, desde que terminaram o curso, nunca mais se atualizaram esquecendo-se que a Medicina, a Pediatria e a Sociedade deram passos de gigante em escassos anos.
O que se observa, a par de um muito justo maior interesse pela saúde das crianças, é um conjunto de preocupações que parecem ter sido tiradas dos anos sessenta (para não dizer da Idade Média) e  a secundarização de temas e áreas candentes e importantes, por troca com assuntos de impacte irrelevante, com práticas que nem sequer dão gozo e que até cientificamente estão erradas.
Os exemplos são muitos. E alguns muito maus. Nem sei por onde começar, aliás. Podia falar nas grávidas a quem não é feito o rastreio do estreptococo B, nas (menos de metade) puérperas que estavam informadas da probabilidade de poderem estar colonizadas pela bactéria e transmitirem ao bebé a doença, panorama ainda pior (67%) nas grávidas seguidas nos centros de saúde; ou das grávidas que eram positivas no rastreio e que não são informadas do facto; ou até das uma em cada três que realizaram o rastreio fora da altura recomendada pelas normas internacionais…

 

Ou poderia dissertar – vários artigos ou até preencher várias revistas – sobre as práticas obsoletas e inaceitáveis de hospitais e maternidades, muitos dos quais se afirmam «amigos dos bebés» (com amigos assim, quem precisa de inimigos!) em que as mães que estão no recobro não podem ter o bebé ao pé delas, com desculpas tão esfarrapadas como «porque incomoda as outras mães»; dos bebés que são retirados às mães quando nascem, sendo-lhes vedado um direito fundamental, que é o de mamarem na sala de partos, com base numa mentira escandalosa: o bebé «tem de ser aquecido», pretexto para o colocar debaixo de luzes quentes mas muito agressivas, quando o que ele precisa é de ser mantido quente, ou seja, precisa do enlevo dos braços e do peito da mãe, na penumbra, enquanto mama; podia lembrar a quantidade de serviços onde, numa cesariana com epidural, o pai é «corrido quase à vassourada» da sala de partos, esquecendo-se os profissionais que aquele espaço é uma sala de nascimentos e não de partos puros e duros; e até poderia mencionar o facto de só uma reduzida percentagem de puérperas de cesariana serem avisadas de que não deverão conduzir automóveis durante pelo menos seis semanas. Aliás, até podíamos começar pelo mistério, não o da Estrada de Sintra, de Eça de Queiroz e de Ramalho Ortigão, mas do facto de termos uma das mais elevadas percentagens de cesarianas e de, sortilégio! (ou sacrilégio…), esses números subirem escandalosamente nos hospitais privados, a ponto de ser mais «natural? (que é como quem diz comum, normal) – bastante mais, diga-se – ter um bebé por cesariana do que através de um parto «natural».

 

E que dizer da panóplia de instrumentos em que se gastam centenas e centenas de euros? O esterilizador de biberões, o fervedor da água, o intercomunicador, as almofadas para que o bebé fique deitado assim ou assado… ah, claro, e o facto de 85 por cento dos pais receberem indicação, nas maternidades, de deitarem os bebés de lado e não de costas. Felizmente não cumprem esta indicação, caso contrário, os serviços portugueses «assassinariam», anualmente, cerca de uma dúzia de bebés no primeiro ano de vida, com a síndroma da morte súbita do lactente.
E na hora da alta? Quantos pais ainda saem com os bebés ao colo no carro – aliás, muitos ainda os transportam ao colo no automóvel, ou virados para a frente em idades em que deveria ir voltados para trás (dois anos e meio), ou mal presos, com o cinto torto, dobrado e mal passado pelos arneses? Os dados revelados pela APSI arrepiam!
Prefiro saltar outro capítulo: o das visitas, porque aí, sinceramente, acho que é mais um caso de polícia… ou de soltar os rottweilers, dobermans e pitbulls, e de vassourar toda aquela gente pela porta fora.

Depois são as roupas – aos montes, que deixam de servir e que nem se usam, ou que se lavam e daí a uma hora estão secas – para isso é que o ser humano produziu máquinas de lavar com elevada centrifugação, e tecidos que dispensam passagem a ferro – quem conhece os países nórdicos sabe que não passam a ferro a roupa, salvo uma ou outra peça, porque consideram ser mais valioso gastar esse tempo com coisas úteis… como contemplar os filhos ou interagir com eles, como olhar apaixonadamente para o cônjuge, como fechar os olhos, a ouvir Bach, Katie Melua, Ludovico Einaudi ou Pedro Abrunhosa, seja o que for, mas sentindo-se a pessoa mais feliz do Universo. E os brinquedos? Não saberão os pais do século XXI e das redes sociais, que eles é que são os melhores, para não dizer os únicos, brinquedos dos seus filhos bebés? Em tempo de crise tudo isto ainda assume um aspeto mais dantesco. Ah! e por falar em música, a epidemia de CD de música para bebés daria vontade de rir, se não fosse serem sentidos por alguns pais como uma obrigação. Meus caros leitores: música, música e apenas música. Toda a que puderem, mas, por favor, basta que seja melódica e rítmica. Ponto. E não precisam de comprar nenhum CD especial porque terão carradas deles lá em casa!

Depois há coisas que só não são anedotas porque correspondem à realidade e a sofrimento dos pais, contribuindo para os fragilizar na sua parentalidade, como os médicos, enfermeiros avós que dizem que «no primeiro mês não se pode sair de casa» ou que «no primeiro ano não se vai à praia». E com base em nada, do ponto de vista científico, impõem-se regras e exigem-se comportamentos que nenhum mortal aguenta. Em vez de definir o «como se vai», proíbe-se, ou seja, a pessoa não aguenta e sai ou vai… sem seguir as (escassas) recomendações que existem para cada caso.
A alimentação é, então, o apogeu do nonsense. Proibições sobre proibições, com os respetivos anátemas e penas capitais, regras e regrinhas, como fazer o puré de legumes todos os dias ou usar apenas carne do lombo e peixe fresco, andar a pesar legumes ou – o que sempre me deu vontade de rir, não sei porquê: «cozer a carne mas retirar a carne deixando apenas o sabor do caldo». Já sem falar nas desgraçadas mães que amamentam e que não podem comer nada «porque faz mal». Quem diz? Ninguém sabe e pouco importa. Com base em que estudos? Alguém quer saber? A ignorância somada à vontade de mandar e de substituir os pais na sua função parental (com toques de sadismo e de intrusão e uma pitada de frustração por não ser o «nosso» bebé), geram monstros. Monstros nas práticas, monstros nos conselhos, monstros na relação entre as pessoas. É por isso que surgem os iogurtes para as criancinhas (cheios de açúcar, de gordura e mais caros, claro), as bolachinhas «para criancinhas» e, o meu preferido: o «azeite para bebés» (que não sei o que possa ser, mas que existe, com um valentíssimo preço por litro… só se for de oliveiras bonsai!)

Dr. Mário Cordeiro (Pediatra)

Fonte | Pais&Filhos