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Psicologia

8 de Maio de 2016

Pais de primeira viagem

Pensar na chegada de um filho é um momento de alegria e de realização de um sonho.

Alguns casais chegam a preparar a gravidez com antecedência, fazendo exames médicos prévios, toma de medicação anterior à gravidez, entre outros acompanhamentos de acordo com cada especificidade.

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Sente-se o peso da responsabilidade do passo que se está a dar e do caminho que se abre.
Começa com esta escolha, passa pelo sonho vivido e concretizado a dois, fruto de um amor romântico e de uma aspiração de nos perpetuarmos através dos nossos filhos.
Esta fase inicial reveste-se de idealizações, de sorrisos na cara a pensar e a desejar o que vem.
Pensa-se nas meninas, nos meninos, nos nomes preferidos e cada um vai suspirando por algo que, muitas vezes, remete para a própria infância, para brincadeiras, para coisas de bonecas e de futebol.
Criam-se os espaços na casa para acolher esse pequeno ser, pesquisam-se páginas na internet, visitam-se lojas na procura de ambientes acolhedores e agradáveis para o tesouro.
Fazem-se consultas médicas, ecografias e outros exames e muitas vezes a ansiedade dos resultados, de algo que não esteja bem, pelo desejo de «venha perfeitinho» não sai da cabeça.
Idealiza-se o parto, teme-se a dor e as horas de espera.
A família envolve-se nestas ansiedades e nestas alegrias e sonha também. Muitas vezes, porque essa criança será o primeiro neto, o primeiro sobrinho, o primeiro…
E o primeiro é muito importante… e o primeiro estreia papéis relacionais e familiares… e todos também testam as suas capacidades e a sua dedicação perante aquele que vem.
Todos se mobilizam e procuram, à sua maneira, preparar-se e colaborar para que esta viagem corra o melhor possível.
Eis que se chega a bom porto e acontece o nascimento. Neste momento, uns tornam-se pais, outros avós, tios, primos. Cada um ganha o seu estatuto e o sistema familiar procura reajustar-se a esta nova dinâmica, procurando novo ponto de equilíbrio.
Todos procuram dar o seu melhor e responder aquelas que consideram ser as solicitações.
Os mais velhos e experientes dão conselhos, contam como faziam, descrevem as suas experiências e técnicas. Às vezes nestas partilhas, surgem discrepâncias, desencontros naquilo que eram as orientações da altura e que entretanto agora se percebeu ser de outro modo.
Talvez seja mais útil definir as convicções de cada pai e mãe e ter isto bem presente, convicto e fundamentado, em termos da amamentação, dos banhos, dos timings, para quando se ouvir os outros se consiga retirar a riqueza de mais um contributo, em vez de ser uma ameaça, um confronto ou uma invasão.
Os limites das relações entre pais, avós e outros familiares, deve estar bem definido para que cada um sinta que tem o seu lugar, o seu contributo, a sua relevância para a criança, sem ser intrusivo, nem ser desqualificado.
Com a chegada do bebé à família, nada será como antes, mas isto não tem de ser necessariamente visto como algo negativo.
É um desafio à cadência da rotina, pois os horários passam a ser bem marcados (amamentação, fraldas, banhos, etc) e a tempo inteiro, o que pode sufocar ou desesperar pela diferença.
Quando anteriormente o casal decidia sair de casa, simplesmente ia. Podiam existir convites de última hora e a decisão era tomada num ápice. Agora, talvez seja necessário planear um pouco mais aquilo que se precisa de levar, os períodos em que se estará fora de casa e prever vários cenários para que não falte nada.
É um desafio à organização da vida, da conciliação do individual, do casal e da parentalidade.
É necessário prestar atenção às necessidades individuais da mãe, do pai e do casal, além das da criança, pois os cuidadores têm de estar «em forma» para dar resposta às várias solicitações. Deixem os alertas soar e procurem soluções no imediato para que as situações não se tornem problemas.
Sentem o cansaço a acumular, por força de noites mal dormidas e da rotina non-stop?
Mobilizem a colaboração de alguém que esteja disponível e vão tomar café entre as mamadas, façam uma caminhada, um momento qualquer de silêncio em frente ao mar. O regresso a casa será bem melhor e o sentido de restabelecimento pode estar presente. Isto deve ser repetido sempre que necessário.
Esta primeira viagem na Parentalidade está repleta de desafios e mudanças, mas a tendência natural é que ao fim de algum tempo os ajustes estejam feitos e se possa usufruir em pleno desta bênção.
Caso sintam que este processo está a ser mais difícil do que esperavam ou que os ajustes tardam em surtir o seu efeito talvez possam ter benefícios em procurar ajuda individual, familiar ou de casal.

 

Ana Oliveira
Psicóloga Clínica e Terapeuta Familiar e de Casal

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