Mães e Pais na 1ª Pessoa

Catarina Beato 

Dias de uma Princesa

[outra forma de dizer bom dia]

Já usei esta expressão antes, entre a crítica e a aceitação, mas desta vez trago-a como uma certeza, existe mesmo isso da “destruição criativa”. 

Há cinco anos, por esta altura, o desemprego começava a surgir como uma inevitabilidade. Sabia que o meu posto de trabalho seria extinto e sabia que estava aterrorizada com isso. Há cinco anos, por esta altura, dava entrada nas urgências, dia sim, dia não, com crises de urticária que me deixavam o corpo em ferida. Desconhecia o meu poder de somatização, para além das febres em dias de testes, e desconhecia que estar sentada à frente de um computador sem trabalho, ainda que a receber o meu salário ao fim do mês, pudesse levar uma pessoa à loucura.

Este foi o meu momento de destruição: o corpo ferido pelo sistema nervoso esfrangalhado, o meu ego laboral transformado em coisa nenhuma, as lágrimas que chorei no dia em que entrei no centro de emprego e a sensação que não prestava como força de trabalho, mas também como mãe que tem a obrigação de sustentar os filhos. Acho que só mesmo quem passa pela sensação de ficar desempregado percebe a destruição que significa.

Este sábado, enquanto dava mais um workshop Papas Real sobre papas de aveia, sendo essa apenas uma desculpa para falar de alimentação saudável e sobre a difícil relação de amor que estabelecemos com o nosso corpo, olhava aterrorizada para as 25 pessoas que estavam à minha frente e juntava ingredientes, eu que nem sopa alguma vez consegui cozinhar decentemente, e pensava que existe mesmo isso da “destruição criativa”.

Dirão que só foi possível reinventar-me porque tive uma rede de apoio. A rede existe mas terei que responder “não foi isso”: nos últimos anos costurei, pintei bonecos de gesso durante noites inteiras, escrevi artigos, atendi ao público e limpei escadas. Nos últimos anos não neguei uma única oportunidade de trabalho que me apareceu porque isso não era opção.

Mas neste sábado, finalmente, depois de me ter sentido nada, voltei a sentir-me alguma coisa mesmo que fora da minha zona de conforto, mesmo num lugar onde nunca imaginei estar. E desejei que todos os fins fossem assim: recomeços.

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