Atualidade

18 de Março de 2015

Os pais não sabem brincar

Os adultos brincam pouco e mal. Diante de um monte de legos, muitos pais sentam-se no chão da sala e constroem uma torre. Uau. Uma torre?! Genial. E ficam-se por aqui, saltando de novo para o sofá, pois Roma e Pavia não se fizeram num dia.

Mas segue-se um ligeiro peso na consciência parental e logo propõem: «Vá, campeão! Vamos lá inaugurar essa torre com uma canção!» Uma ideia que até poderia ser airosa, caso a música não fosse, pela milésima vez, o Atirei o pau ao gato, que com tanta paulada já devia estar mais que morto.

Assisto-me a brincar com a minha filha e morro de vergonha. No mínimo, deveria ser capaz de construir uma casinha, cantar mais do que os refrões de músicas infantis da minha infância, desenhar dedos sem parecerem traços iguais a palitos. Não é sequer preguiça ou mera falta de jeito. É que nós, pais, esquecemo-nos de como é que se brinca.

Para brincar é preciso usar a imaginação. Só que os tempos de invenção ficaram, para a maioria das pessoas, lá atrás, na infância. Os adultos não inventam, copiam. Porque o seu processo de aprendizagem assentou em repetir, repetir, repetir. Tornaram-se adultos que parecem meninos de coro, vestidos de igual, a copiar e a decorar, com lenga-lengas ou mnemónicas, as brincadeiras dos outros. “Querida, o Zé comprou um drone para o filho! Posso comprar um para o nosso Manelinho?”. “Sim, amor… Desde que lhe compres um capacete para proteger a moleirinha que ainda não fechou”.

Acontece também que, para disfarçar esta inaptidão criativa, os pais brincam às rapidinhas, como lhes chamo. São as brincadeiras para despachar e não serem apanhados em falso por uma criança que ainda nem anda e já lhes dá uma abada aos legos. Este embaraço, por mal saberem brincar, leva alguns pais a serem autênticos desmancha-prazeres. Do alto do seu estatuto afirmam que “não tenho tempo para brincar contigo pois estou a fazer coisas de adultos, muito importantes”. Mas depois ficam com um olho na burra, e assim que surge uma oportunidade, contestam: “Isso não é assim que se faz! Estás a tentar colocar o quadrado no buraco do triângulo. Não vais sair daí nunca”.

Honestamente, a maioria dos pais que conheço não tem paciência para mais de dez minutos de brincadeira com os filhos. “Vai brincar para o teu quarto, vai brincar lá fora, vai ver televisão, toma lá o ipad, come uma bolacha”. São os recursos para afastar as crianças que adoram mas de quem já estão cansados; falta-lhes disposição e ideias para entretê-las.

E depois? Ficam com remorsos. Porque brincar é talvez a competência mais importante na educação dos filhos e dos pais. É o momento em que ambos se podem mostrar como iguais e, juntos, criar uma história, uma gargalhada, uma ideia, “porque vale tudo e não há regras”. Esta anarquia é um momento perfeito a que os laços se criem e o amor cresça. Não há melhor momento de camaradagem e diversão do que pai e filho de gatas no chão a ver quem ladra mais alto. Até porque, mais uns anos, é possível que andem à bulha com os estudos, saídas, horários; nessa altura, quanto mais tiverem brincado juntos, mais depressa farão as pazes.

Por isso, talvez se devesse fechar os pais no quarto com os filhos, em jeito de castigo. “Só saem daí depois de brincarem uma hora”. Para os pais aprenderem que “uma brincadeira por dia, não sabem o bem que lhes fazia.

Fonte | Público