Atualidade

28 de Abril de 2015

“Os filhos têm direito a não serem amigos dos pais no facebook “

É uma das maiores especialistas nos hábitos dos jovens em Portugal e coordena os inquéritos à população escolar. Margarida Gaspar de Matos acaba de publicar o livro “Nascidos Digitais: Novas Linguagens, Lazer e Dependências”, uma colectânea de estudos sobre o uso da internet pelos mais novos.

A psicóloga e investigadora da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa diz que muitas vezes os receios digitais dos pais são exagerados, mas acredita que há uma explicação histórica para isso. E está mais preocupada com a falta de esperança da juventude que já não se lembra do antes da crise do que com as novas tecnologias.

Nesta geração de jovens nascidos na era do digital ainda faz sentido perguntar se passam muito tempo à frente do computador?
A internet veio para ficar. Não vale a pena pensar que vai passar, que é evitável. Em poucos anos a forma como encaramos este fenómeno já mudou. Hoje em dia nos inquéritos já não perguntamos quanto tempo os miúdos estão sentados à frente do computador porque já ninguém está apenas sentado à frente do computador, estão no telemóvel ou deitados com o tablet.

E miúdos que estejam sempre deitados com o tablet estão viciados?
Isso é outro aspecto que importa esclarecer. A dependência tem critérios que não são apenas usar nem usar de mais. Ser dependente é viver em função de. E o que temos concluído é que não há assim tantos jovens com sinais de dependência da internet: há uma percentagem de uso mais problemático na casa dos 3% a 4%, como sempre aconteceu.

É pior que seja no telemóvel ou noutra coisa qualquer?  Mas não estão a sacrificar nada?
Concluímos que não deixam de fazer grande coisa. Eu quando andava no liceu chegava a casa e telefonava às minhas amigas para conversar. Eles agora ligam-se ao Facebook mas em geral é para fazer o mesmo: falar com os amigos da escola. Há uma questão que mete muito medo aos pais que é haver predadores à procura dos miúdos na net. Com certeza que existem e é preocupante, mas em geral os miúdos são consumidores exigentes e informados e não andam a falar com estranhos. Mesmo miúdos que parecem mais viciados naqueles jogos multiplayer, como o “World of Warcraft”, dizem uns tempos mais tarde que foi passageiro.

Enquanto não passa não almoçam, faltam às aulas…
Certo, mas um dia fartam-se. Não era uma verdadeira dependência. Do ponto de vista psicopatológico a dependência tem a ver com alguns tipos de personalidade e nem toda a gente tem propensão para isso. Os pais, mais que catastrofizarem a internet, devem monitorizar os jovens e acompanhá-los.

Quais são os sinais de alarme?
É estar enfiado no quarto, saltar refeições, não querer falar com ninguém, mas não se durar uma semana ou duas. Percebo que quando há uma semana disto o pai fica preocupado mas é preciso perceber se é uma dinâmica circunstancial ou algo estrutural e invasivo.

Concluem, contudo, que mais de metade dos jovens não dormem o que deviam, também graças à internet.
Sempre dormiram pouco. Antes do computador ouviam música, liam. É normal que o adolescente quando se fecha no quarto esteja a criar uma identidade e um espaço que o ocupa. Se calhar, se antes o fazia mais sozinho, agora tem mais amigos através das redes sociais.

Há uma nova publicidade que diz que os telemóveis e as redes sociais podem estar a conspirar contra a amizade real. Não tem essa visão pessimista?
Não tenho. Os jovens têm-nos convidado a reflectir sobre essa crença e de facto eles na net falam com os amigos que conhecem. Na maioria dos casos não há amigos virtuais e amigos reais.

O conceito de amizade não mudou então com os “amigos” do Facebook?
Não me parece, há é mais contacto. Em vez de falarem ao telefone e escreverem bilhetinhos, podem estar sempre em contacto. Até se podem estar a fortalecer os laços e miúdos que moram em zonas mais isoladas têm maior facilidade em estar em contacto. E se antigamente a família tendia a menosprezar a importância do contacto com os amigos, agora eles conseguem ultrapassar isso.

Quanto mais estuda os nascidos digitais, menos preocupada está?
Não estou preocupada. A internet não está a viciar mais que outras coisas que viciavam no passado. É evidente que se pode dizer que é mais acessível mas não acredito nessa visão pessimista. Miúdos com muitos problemas não são o país, são um grupo minoritário.

De onde vem essa demonização? Da desconfiança crónica dos mais velhos em relação aos hábitos dos mais novos?
Por um lado é isso. Por outro estamos numa altura histórica, em que os pais que ensinavam os filhos a fazer coisas nesta questão das tecnologias não conseguem. E os próprios pais perdem de certa forma o crédito que tinham junto dos filhos – os miúdos não pensam neles para pedir ajuda.

Os pais sentem-se ainda menos presentes na vida dos adolescentes?
Sim, creio que é muito isso.

O que será passageiro, não? Os pais de hoje já serão quase “nascidos digitais”.
Sim, mas atenção: isso pode ser verdade para si e para mim, que sou bastante mais velha mas utilizo muito a internet, mas não é verdade para toda a gente. Hoje em dia 99% dos miúdos têm acesso até através de programas como o Magalhães, mas ainda há pais de filhos adolescentes só com o primeiro ciclo, pessoas que mal sabem ler e escrever. A internet foi um grande desafio à parentalidade: é a primeira vez que os pais são incompetentes numa das coisas mais importantes na vida dos filhos. Deve ter acontecido o mesmo quando apareceu a roda.

Qual é a expressão do ciberbullying em Portugal?
Os jovens que dizem que são alvo de ciberbullying são 16% do total e apenas uma minoria, na ordem dos 2%, diz ter tido consequências que não conseguiu ultrapassar. Uma vez mais, não digo que não é importante, mas não é um problema de saúde pública. Sinceramente, vejo com muito mais preocupação e frequência miúdos que se sentem humilhados porque os pais usaram as suas passwords para entrar nas suas contas e ver o que escrevem e com quem falam.

Isso gera mais sofrimento?
Os miúdos sentem-se ofendidíssimos. Às vezes escrevem coisas que nem diriam a eles próprio, quase como num diário. E os pais, com a ajuda de um irmão mais velho, vão lá, lêem e confrontam-nos.

Por ser a internet, os pais desvalorizam mais a privacidade dos jovens?
Acho que sempre houve essa tendência e os miúdos sempre tentaram esconder a chave do diário e o que escreviam dos pais. Um adolescente quando está a crescer tende a reservar a sua intimidade. Os pais têm de estar perto, têm de os monitorizar e dialogar, mas tem de haver um espaço onde não entram pois isso é mau para o desenvolvimento.

Os pais por vezes queixam-se de que os filhos não querem ser amigos deles no Facebook. O que diz? 
Os filhos têm direito a não ser amigos dos pais no Facebook. Os pais não existem para ser amigos dos filhos, existem para ser pais. Não são melhores porque se vestem como os filhos, vão aos sítios deles e lidam com os amigos deles como se fizessem parte do grupo. O que acontece quando os pais aborrecem os miúdos para serem amigos é eles acabarem por criar outro perfil onde possam ser eles próprios. Dito isto, acho que antigamente ainda era pior. Hoje vejo os miúdos mais próximos dos adultos, mas aquela coisa de andar sempre em cima do filho nunca foi boa.

Os receios dos pais são exagerados?
É isso que nos dizem os jovens quando respondem que sabem bloquear, que escolhem com quem falam e que não se sentem mal. Hoje os miúdos aprendem isto tudo na escola. No estudo de 2010 houve uma subida no uso na internet mas em 2014 estagnou. Há uma maior utilização de dispositivos mais integrados mas os miúdos não estão a passar mais tempo na net. Claro que há riscos: há o sedentarismo, problemas nos olhos e activação muito rápida a nível cerebral por causa da luminosidade dos ecrãs que pode alterar o limiar de excitabilidade e fazer com que tenham menos interesse noutras coisas.

Qual é o tempo de ecrã seguro?
Fizemos um estudo sobre qualidade de vida e concluímos que os jovens que passam mais de quatro horas à frente do ecrã têm mais problemas mas os que não têm acesso também – percebem a sua vida com menos qualidade e sentem-se menos bem consigo. O que acho importante é que os pais expliquem os riscos numa conversa mas não no meio de uma discussão e que não imponham regras só para os pôr de castigo. A partir dos 12 anos um adolescente consegue cognitivamente perceber porque é que se estiver com o telemóvel na cama vai ter maior irritabilidade e uma pior qualidade de sono. E os jovens gostam de seguir regras desde que percebam a lógica e não lhes pareça que é só para os controlar.

É o problema de muitos pais: quando faz sentido dar o primeiro telefone ou tablet? 
Uma criança com dois anos agarra num tablet e consegue mexer naquilo mas por definição nestas idades os brinquedos acabados têm uma utilização muito curta – os miúdos desinteressam-se. Deve dar-se quando têm responsabilidade. Agora não vejo mal em começarem a usar os equipamentos dos pais mais cedo, até com dois ou três anos. Se gostam e há ferramentas que permitem trabalhar a atenção, a habilidade ou a identificação de padrões, porque não havemos de aproveitar? Tem é de haver regras: se gosta, joga um jogo. Acaba e vai fazer outra coisa. Agora o que acontece muitas vezes é os pais aproveitam que estão acabar alguma coisa e eles ficam ali jogo atrás de jogo e isso é que não pode ser.

Mas o que vemos são famílias todas de tablets e telefones na mão à mesa do restaurante e entre jovens o mesmo.
Sim, mas há pior. Estive na Coreia e lá é que não encontra ninguém que não esteja com auscultadores e telefone na mão.

E isso faz sentido?
Assim nunca tinha visto e fez-me um bocado de impressão, mas é um choque como noutras culturas ver as pessoas com os narizes furados.

Se isso for o futuro, admite que possa ser uma evolução positiva?
É uma evolução histórica e temos de esperar para ver os resultados. O que penso hoje é que se agora tenho uma pessoa ao meu lado mas tenho um dispositivo e estou a escrever a outra, o que acontecia antes? Se calhar as pessoas estavam caladas.

Estariam?
Já viu nos pequenos-almoços nos hotéis a quantidade de casais que entram, comem e não trocam uma palavra?! Agora há aqueles cartazes nos cafés que dizem “não temos net, falem uns com os outros”. Se as pessoas quiserem falar umas com as outras não estão agarradas ao telemóvel e se estão é porque se calhar querem falar com outras pessoas. Pode ser uma forma de estarem mais satisfeitas.

Sempre teve essa visão tão optimista?
No início achei que era algo que iria usar pouco. E depois veio a euforia. Lembro--me de pensar, quando fizemos o primeiro estudo, em 2006, que nada do que se estava a passar era normal. Tinha aparecido o jogo “World of Warcraft”, a Ségolène Royal tinha feito campanha no “Second Life” e tinha ido a uma conferência em Palermo em que os colegas estavam a abrir consultórios online. As coisas acabaram por não se extremar tanto como se imaginou. É engraçado: perguntámos aos miúdos no inquérito de 2014 o que tinha mudado para melhor nos últimos anos e dizem que agora conversam mais. Não estou a defender a crise e a austeridade mas estávamos a entrar num pico de consumismo e isso abrandou, o que se calhar explica o resto.

Estuda esta área há 30 anos: os jovens e as crianças já foram mais felizes?
O relatório internacional sobre jovens que saiu recentemente mostra que de 2002 a 2010 a população europeia ficou mais saudável: há menos consumo de álcool e a obesidade não continuou a aumentar. Deram-lhe até o título “Jovens mais saudáveis e mais felizes”.

Mas no inquérito de 2014 em Portugal concluíram que mais de 50% dos jovens se sentem tristes.
Era o que ia dizer. O que comentário que faço é que, em Portugal os dados mais recentes é que menos saudáveis ainda não estão, mas os jovens portugueses estão tristes como não estavam desde 2002.

Porquê?
Vamos passar este ano a discutir isto mas queixam-se de falta de expectativas.

A desesperança que tanto foi diagnosticada nos adultos?
Até pode ser pior. Os miúdos que têm agora 14 e 15 anos só se lembram da recessão. Não sabem o que foi o pós-modernismo ou o excesso dos irmãos cinco anos mais velhos. Cresceram a ouvir dizer que em Portugal não há lugar para eles, não há emprego. Estão numa desesperança enorme e isso assusta-me porque sem esperança não se cresce.

Esse estudo de 2014 revelou que um quinto dos jovens do 8.o e 10.o já se automutilaram. A percentagem impressionou-a?
Impressionou. Na clínica estamos a habituados a ver o comportamento autolesivo em reclusos e raparigas com bulimia, mas não estava habituada a ver isso no cidadão comum. Fizemos a pergunta pela primeira vez no inquérito de 2010 pela ligação que tenho a uma equipa em Itália, que tinha apurado uma incidência de 17%. Achava que teríamos 3% ou 4%, a percentagem normal para um assunto mais grave. Quando saiu 16% e em 2014 subiu para 20% comecei a pensar que não é de facto normal. Não vejo isto como patologia única mas como incapacidade de lidar com a frustração.

Mas estará ligado à crise?
Não me parece. Creio que está mais ligado à pressão que existe sobre os jovens em termos de resultados, de imagem.

Não será também pela visibilidade dessas agressões em séries e na net?
Acho que tem mais a ver com o facto de os jovens não serem ensinados a lidar com as más emoções. Claro que há internet ligada a alguns destes comportamentos, como acontece nas anorexias, mas irem cortar-se ou vomitar juntos em sites são fenómenos raríssimos.

E como é que isso se resolve?
Até há dois ou três anos havia as áreas curriculares não disciplinares em que algumas escolas promoviam competências psicossociais e os miúdos tinham um adulto de referência – o professor ou coordenador para a saúde – que os ajudava e podia dizer que essa questão da autolesão é uma estratégia para regular a ansiedade que não resulta. É como a bebida, resulta num segundo e no segundo depois está-se pior. Em vez de se ter reforçado isso, desinvestiu-se…

Que efeito da recessão nos jovens a deixou mais impressionada?
Aumentou o número de jovens que dizem que vão para a cama com fome porque não têm comida em casa. Não estava à espera de voltar a viver num país assim. Outra coisa é a percentagem de miúdos que dizem “sinto-me tão triste que às vezes penso que não aguento”, que também aumentou. E de facto foi isso que me fez reportar internacionalmente que ainda estamos mais saudáveis mas já não estamos mais felizes.

“Ainda”… 
Sim, os efeitos em termos de saúde nunca são a curto prazo. Se a conjuntura não muda, podemos ter um retrocesso nos indicadores e tenho imensa pena: tínhamos resultados muito bons quando comparados com a Europa.

A subida da idade para beber para os 18 anos está na ordem do dia. Parece-lhe que isto era o assunto prioritário em relação aos jovens?
Se fosse governante, apostava forte e feio na saúde mental dos jovens e em conseguir trabalhar com eles no sentido de lhes dar uma esperança, competências de liderança e empreendedorismo. É isto que tenho de fazer na faculdade para que os meus alunos não se deprimam: explicar--lhes que isto é uma crise, é uma onda. Criar projectos que os envolvam, dar-lhes meios e recursos para investir.

Como vê a alteração na lei do álcool?
Os nossos estudos dizem-nos que desde 1992 o consumo de álcool não tem aumentado entre os jovens. Nos últimos dois estudos (2010 e 2014) tudo leva a crer que estamos com um padrão diferente, com um consumo mais de fim-de-semana e maior de bebidas destiladas. E com as medidas de prevenção, que entretanto estão a acabar, os jovens não estavam a beber mais mas os que já bebiam estavam pior, portanto estava-se a circunscrever o problema e havia um grupo mais desviante.

Faz sentido então proibir a cerveja aos 16 anos?
A proibição dos consumos em geral, lendo como dificuldade de acesso, é óbvio que ajuda e tem efeito a curto prazo. E além disso achava estranho uma lei que não permitia beber uma bebida branca mas deixava beber dois litros de cerveja. Agora, se isso não for acompanhado de alternativas, vão fazer o quê? Vão fumar charros, vão partir a rua, vão cortar-se? É preciso criar projectos que canalizem a energia dos jovens.

A propósito da queda da natalidade e da falta de protecção dos menores, com casos de violência fatais, tem-se dito que Portugal não é um país amigo das crianças. Concorda?
Preocupo-me também com esses pais, pessoas perturbadas mas que devem servir de alerta. Tive um professor etólogo, Bracinha Vieira, que quando nos levava ao zoo a ver os macacos dizia que as mães nunca agridem os filhos sem ser em cativeiro. Pense nisso relacionado com a sociedade actual. Se nós não estivéssemos num cativeiro simbólico não agredíamos as nossas crias. Em que raio de gaiola estamos? É um problema de saúde mental gravíssimo que precisa de resposta.

A saúde mental é um calcanhar de Aquiles conhecido. A quebra de natalidade está a tornar-se outro.
Não concordo que se diga que não somos um país amigo das crianças, não temos é uma política amiga das crianças. O país não considera ter cidadãos novos um investimento nacional. Há uma comissão para estudar quando todos sabemos quais são os problemas. Não há condições, as creches custam uma fortuna.

Se fosse governante, que solução implementava?
É uma mudança de abordagem. Os noruegueses nos anos 90 tiveram uma grande quebra de natalidade e implementaram medidas consistentes. Uma mãe é considerada trabalhadora a tempo inteiro. Pode entrar em qualquer sítio para mudar uma fralda ou aquecer o biberão. Tem de haver investimento. E o mesmo acontece com as comissões de protecção de menores, com défice de técnicos. O que hão-de fazer? Tem de haver investimento e compromisso político e em tempo de crise é preciso perceber o que se corta.

O psiquiatra José Gameiro dizia há dias que não percebia como em crise não se tinham reforçado as comissões de protecção de menores e a prevenção. Isso também a surpreendeu?  
Sim, o Estado social tinha de estar em toda a sua pujança. Agora recuperar este país é obra, as sequelas não passam com a crise. Mesmo as medidas para protecção de emprego tinham de ser muito mais. O impacto de um pai desempregado sentado num sofá em casa é enorme, e não só no dinheiro que não entra. Os filhos preocupam-se, os pais ficam envergonhados.

Em ano de eleições está optimista com o futuro ou ainda não viu solução?
Não vi. E se ao menos se tivesse trabalhado na coesão social as pessoas estavam desiludidas mas juntas. Esta aposta na clivagem social, dos mais novos contra os mais velhos, público contra privado, homens contra mulheres, é muito prejudicial.

Poderia ter sido de outra forma?
Se tivesse a resposta não estaria aqui mas a dar palestras por todo o lado. Não sei. Ao longo de todo o processo da crise houve várias coisas que me afligiram do ponto de vista técnico. Não sou especialmente partidarizada, mas senti que os especialistas não foram suficientemente ouvidos na escolha das prioridades e dos cortes, para que não se ficasse com um problema maior.

Nunca foi ouvida?
Não, mas repare, quando se fala da crise e de défices, um cidadão comum não consegue dar solução. Eu diria que não se pode cortar o futuro aos jovens. Uma pessoa mais velha tem o passado inteiro para lembrar, os jovens não. Quando visito uma escola e os miúdos dizem todos que vão para cozinheiros e línguas para emigrar… não queria viver num país assim. Pergunto-me se não teria valido a pena termos tido direito a vetar uma coisa por dia.

Faltou o quê ao governo, estar na rua?
Não podem estar em todo o lado mas há ali qualquer coisa que não funcionou e não foi só a crise.

A professora tem filhos? Com tudo o que tem aprendido acerca dos jovens, teria feito alguma coisa diferente?
Tenho filhos e netos já. Isso teria de lhes perguntar a eles mas acho que correu bem. É evidente que me lembro de ter feito uma licenciatura grávida, e isto é muito difícil de conciliar, mas temos de ter tempo de qualidade com os filhos e procurei sempre fazer isso. E hoje com as novas tecnologias é mais fácil. Quando o meu neto mais novo nasceu eu estava na América do Sul de sabática e tive pena de perder cinco meses do bebé. Pensei que ele se ia esquecer de mim mas como falávamos todos os dias pelo Skype quando cheguei reconheceu-me. Mais uma vez não estou deslumbrada com isto e há riscos, mas há muitas coisas boas nas novas tecnologias.

Um conselho para pais e filhos felizes?
Os pais não têm de se responsabilizar por todas as coisas que acontecem aos filhos mas têm de se habituar a ouvi-los desde novos e a assumir que não têm as soluções todas. Às vezes quando estamos a tentar resolver tudo perdemos a capacidade de os ouvir e soluções eles têm – às vezes querem é uma validação e partilhar. Acho que devíamos falar muito menos e ouvir muito mais.

Fonte: Jornal i