Atualidade

31 de Outubro de 2014

Os direitos do pai são as obrigações da mãe

Um pai tem direito a escusar-se de qualquer tarefa com o bebé, casa ou cão, caso o Benfica jogue. Com prazo alargado entre preparação para o jogo e posterior análise dos comentadores. Uma espécie de estágio de três dias. Se o seu clube perder, acresce-lhe o direito de não ir apanhar a chucha ou dar água ao bebé nessa noite. A mãe tem a obrigação de ser solidária.

Um pai tem direito a dispensa de cuidados se o filho tiver diarreia, febre acima de 38 graus ou terrores nocturnos, caso a mãe esteja por perto. É que uma farda de enfermeira assenta melhor às mulheres, só por isso. Limpar bolsado do sofá é também uma tarefa que pode aguardar que a mãe chegue a casa, não vá o pai estragar o sofá com o esfregão palha-de-aço. À mãe cabe-lhe a manutenção do sofá, trono familiar onde raras vezes senta o rabo. Mas quando senta, aproveita para fazer esfoliação às nádegas, à conta das migalhas de bolachas.

Um pai tem direito a não saber que o filho tem cotão nas pregas do pescoço e cera nos ouvidos. Muita cera. Ou não fosse a mãe ter tido a obrigação de a tirar. E sido suficientemente benevolente por não lhe ter servido torradas com mel caseiro.

Um pai tem direito a lavar o cabelo do bebé com champô revitalizante para pontas secas e hidratar o seu corpinho com creme antirrugas porque a obrigação da mãe é deitar fora metade dos frascos, praticamente vazios, que vivem na casa de banho. “– Querida, a banheira não é um meet de champôs!” Se a criança tiver piolhos, o pai tem direito a não querer assassinar os bichos e ceder a exterminação à mãe, pois as mulheres são mais eficazes a lidar com dilemas capilares e passar a pente fino todos os sacaninhas que lhes saltam para cima.

Um pai tem direito a não querer brincar às escondidas nem descobrir onde se escondem o lençol do berço, a tesoura das unhas, a lancheira refrigerante, o soro fisiológico e outras coisas às quais a mãe tem a obrigação de fazer “cu-cu” em menos de um minuto.

Um pai tem direito a chegar atrasado ao ir buscar o filho à creche pois a funcionária que está à espera é compreensiva com o facto de “um homem tem de ganhar a vida”; já a mãe tem a obrigação de chegar a horas para não traumatizar a criança e evitar que a mesma funcionária lhe pergunte se acha que é a única que tem filhos à espera.

Um pai tem direito a ouvir a criança a gritar pela mãe e respeitar a sua vontade, mesmo se a mãe estiver debaixo do chuveiro, sentada na sanita ou a distribuir sopa por vários tupperwares como se não houvesse amanhã. Porque mãe é mãe e tem a obrigação de notificar com aviso de recepção a sua retirada do turno. E zelar pelos tímpanos familiares.

Um pai tem direito a ter duas mães, a sua e a do seu filho. Nalguns casos, várias mães dos seus filhos, vivendo em poligamia maternal. Uma mãe tem a obrigação de arranjar um pai caso queira ter um filho e ficar toda contente com a sua escolha. Ponto. É, aliás, o que se chama de Ponto F de Final. Talvez por isso seja tão dificil chegar ao ponto seguinte.

É que um pai ainda tem direito a que a sociedade, a esposa, a sogra e o chefe lhe exijam mínimos olímpicos do exercício das suas funções paternais. É que o homem já fez o filho, muda fraldas e dá papinha, louvado seja! A mãe tem a obrigação de reconhecer a valentia, motivar o esforço e aplaudir com uma mão a bater na perna porque a outra está ocupada com a varinha mágica a triturar a sopa.

Quanto à mãe. Todas as mães. Uma mãe tem o direito a ser pai, a invejar o pai ou a fingir-se de pai. Carregar malas, sacos de compras com litros de leite, garrafões de água, escadas acima sem elevador, ir à farmácia a meio da noite, montar berços, cancelas, redes de protecção, cadeiras auto, móveis e tendas de circo que os amigos oferecem, carregar triciclos que os filhos levam para o jardim. E matar melgas. Que picam os filhos. Se não fugirem para o tecto.

Um pai e uma mãe têm o direito a achar que os opostos se atraem e continuarem a acreditar nessa história da Carochinha que casou com o João Ratão, simpático e valentão. E têm a obrigação de terem capacidade de trocarem de papéis sem medo de cair no caldeirão.

Fonte | Life&Style (Público)