Espaço Família | O nosso 1º Filho

Cirurgia Pediatrica

2 de Maio de 2013

On Fire (I)

Mais uma noite em que a febre da M. chega aos 39º! A justificação? vírus ou virose…tratamento? Antibiótico. Será sempre necessário?

Muitos amigos e familiares ficam admirados quando, vendo eu ‘pontinhos brancos’ nas amígdalas do JM, ou vendo eu o tímpano ruborizado quando lhe espreito o ouvido, não medico com antibiótico e deixo o rapaz ‘abandonado à sua febre’. Se efectivamente suspeito de que a causa da febre é vírica, não há porque prescrever antibiótico. Existem amigdalites víricas e otites víricas. Na criançada, este tipo de infecções são bem mais frequentes que as bacterianas. Medicá-las com antibiótico só acrescentaria resistências ao mesmo, o que poderia ser um problema no futuro.

Não deve haver sinal mais simples de doença que a febre. Por outro lado, não deve haver tema mais difícil de explicar do que a febre. Primeiro de tudo, a febre não é uma doença em si. A febre é um sinal, um aumento da temperatura, resultante da circulação de substâncias inflamatórias pelo nosso corpo (e do bebé, claro). Convencionou-se chamar febre a um aumento da temperatura corporal superior a 37,5ºC, quando medido debaixo da axila, ou a 38,5ºC, quando medido no rabinho.

bebe- cirurgia pediatrica

fonte: pediatrics.about.com]

Segundo, as substâncias inflamatórias em circulação podem resultar de várias doenças, mas na criança (assim como no adulto) a febre é geralmente sinal de uma infecção. Felizmente, a maioria das infecções não precisam de uma visita ao médico. Isto é, a maioria das infecções causadoras de febre resultam de infecções por vírus (como é o vírus da gripe, o influenza, e tantos outros respiratórios). Ao contrário das infecções bacterianas ou micológicas (por fungos) que precisam de tratamento antibiótico e antifúngico (respectivamente), as viroses não precisam mais que uma boa hidratação e o controlo da febre com anti-piréticos (paracetamol e/ou ibuprofeno). O organismo encarrega-se de resolver o resto.

Mas como podemos saber se a infecção que o noso filhote tem é vírica? Não há uma regra de ouro. Existe, no entanto, um conjunto de factores que devidamente pesados nos podem apontar mais para uma febre de origem vírica, que, repito, será sempre a situação epidemiologica mais provável na criança. Quais são esses factores?
1. A febre alta e de instalação rápida é a favor de virose. Ao contrário da crença geral, uma febre mais insidiosa que vai subindo devagar, é muito mais a favor de uma infecção bacteriana.
2. Uma febre que cede bem aos antipiréticos, com uma criança que recupera a boa disposição, é mais a favor de causa vírica. A temperatura da criança não tem obrigatoriamente que baixar abaixo dos 37,5ºC. Geralmente, os anti-piréticos conseguem diminuir a temperatura em apenas 1-1,5ºC. Na infecção vírica, a descida de temperatura acompanha-se de uma recuperação do bom estado geral da crianças, o que é raro nas infecções bacterianas.
3. Geralmente, a infecção vírica acompanha-se de outros sintomas ‘víricos’, como pingo do nariz (rinorreia), lacrimejo, tosse (sinais de constipação vulgar) ou de vómitos e diarreia (sinais de gastroenterite).
4. A doença vírica resolve rapidamente e sozinha. Apesar de um início atribulado e com temperatuas altas nas primeiras 24-48 horas, a doença vai resolvendo com febre progressivamente mais baixa e picos mais espassados no tempo. A febre de origem vírica pode durar um dia ou ir até 5 dias. De qualquer forma, aconselho os pais a não passarem sem uma visita ao médico após 48 horas de febre, excepto se houver uma clara sensação que esta está a passar.
Posto isto, convém lembrar que é perfeitamente seguro aguardar estas 48 horas. Mesmo tratando-se de uma infecção bacteriana, o tratamento não sairá prejudicado por vir um bocadinho atrasado. Há, apesar de tudo, algumas excepções. Quando consultar o médico antes das 48 horas de febre?
• quando se trata de recém-nascido (qualquer crianças abaixo dos 30 dias de idade deverá ser vista imediatamente);
• quando a criança mantém mau estado geral, mesmo após o anti-pirético;
• quando a criança vomita repetidamente, o que (associado á febre) constitui um perigo de desidratação;
• quando se associa uma crise convulsiva ou outros sinais neuológicos;
• quando aparecerem petéquias (manchinhas vermelhas, como pequenos derrames) na pele;
• quando o médico disser que sim. Isto é, existem crianças com doenças crónicas e/ou malformações congénitas que podem necessitar de um rastreio séptico mais precoce. Se for o caso, o médico deverá dar indicação de quando recorrer ao serviço de urgência em caso de febre.
Aqui está a explicação possível para o tratamento da amigdalite vírica do JM neste fim-de-semana, por um cirurgião pediátrico que, por acaso, até é o pai dele. Os cuidados da Avó-enfermeira foram suficientes para o pôr bom.

NOTA: Como é óbvio, e basta uma pesquisa rápida na Internet para perceber, os conselhos de como lidar com a febre não são universais. Em Portugal, andam mais ou menos sempre à volta disto, mas variam de médico para médico. Estes são os que eu utilizo. Espero que vos sejam úteis.

 

Dr. João Moreira Pinto

Cirurgião Pediátrico
E os Filhos dos Outros