Atualidade

2 de Abril de 2014

O que liam os nossos escritores na infância?

O autor de ‘Jerusalém’ distinguiuAlice do Outro Lado do Espelho de Lewis Carroll como o livro que marcou a sua infância, não só pelo lado imaginativo da obra mas também “pela existência de um outro mundo do outro lado do espelho”.

“A liberdade de acontecimentos, a mudança de histórias e das dimensões das personagens é algo forte para uma criança”, disse o escritor.

Gonçalo M Tavares afirma ainda que este é um livro que se “aproxima de um pensamento infantil, no sentido intuitivo”, uma vez que, para uma criança, “uma narrativa muito lógica não faz sentido e não tem a necessidade de ter todos os passos da história”.

Inês Pedrosa

A escritora elegeu O Rapaz de Bronze de Sophia de Mello Breyner Andresen não só pela “originalidade da história” mas também pelas (poucas) ilustrações “que ainda hoje acho bonitas”.

Da história, Inês Pedrosa recorda as flores que falavam e que “comentavam a vida e as pessoas”, sendo elas próprias “o reflexo das qualidades e defeitos dos seres humanos mas também sobre os seus limites”.

Esta foi uma obra oferecida por uma prima, que a autora de ‘Os Íntimos’ descreve como “uma segunda mãe e orientadora de leituras”, e que leu quando tinha sete anos.

Ana Margarida Carvalho

A Flor Vai Ver o Mar, de Alves Redol, foi o livro que mais marcou a infância de Ana Margarida Carvalho. A obra foi-lhe lida quando tinha apenas 3 anos e a autora de ‘Que Importa a Fúria do Mar’, que ainda hoje sabe de cor a primeira frase do livro, realça “a rima e o ritmo poético” da narrativa, obtidos graças às palavras monossilábicas.

“É uma história que fala de amizade e onde os animais se humanizam. Tem também algo que atrai muito as crianças: tem o lado irrealista e absurdo mas também tem uma faceta triste, que mostra que nem sempre se conseguem atingir os objectivos”.

Alice Vieira

A autora de ‘Rosa, Minha irmã Rosa’ afirma que o autor que mais a marcou durante a infância foi o escritor brasileiro Érico Veríssimo. “É um grande autor que, infelizmente, é muitas vezes esquecido [em Portugal]”. Alice Vieira destaca o livro Clarissa, o primeiro romance de Veríssimo, datado de 1933.

“A minha filha e a minha neta leram [esta obra] e dizem que aquela pessoa sou eu. É um livro extraordinário”, disse ao SOL a escritora.

Ana Maria Magalhães

As Férias, da Condessa de Ségur, foi o livro escolhido pela co-autora da colecção ‘Uma Aventura’. “O meu primeiro filho chama-se Tiago por causa deste livro. A família do meu marido dizia que eu tinha que respeitar a tradição e dar-lhe o nome do avô, mas eu não quis”, contou Ana Maria Magalhães ao SOL.

“Eu tinha vontade de visitar aquela família do século XIX (…) Era como se viajasse no tempo”, conclui.

Afonso Cruz

“Não me vem nenhum livro à memória (…) Sempre li muito, mas não me lembro de nenhum livro em especial”, foi esta a resposta inesperada do autor de ‘Para Onde Vão os Guarda-Chuvas’. “Eu acho que quando era criança os livros que me liam não eram grande coisa [risos] Eram do género ‘As 365 Histórias de Encantar’”, disse-nos Afonso Cruz.

“Os livros que me marcaram fizeram parte da minha pré-adolescência”, confessa. E para distinguir um no meio de tantos, Afonso Cruz destaca O Sonho de um Homem Ridículo, de Dostoiévski, que leu quando tinha 12 anos.

João Tordo

A Volta ao Mundo em 80 Dias de Júlio Verne foi a obra destacada pelo autor do recém publicado ‘Biografia Involuntária dos Amantes’. João Tordo realça o espírito de aventura e “o mecanismo da partida para o desconhecido” como aquilo que mais o atraiu na obra.

“Lembro-me que demorei cerca de duas noites a lê-lo”, disse o escritor, acrescentando a satisfação que sentiu ao “descobrir que existia um escritor que escrevia para adultos e que com 8 ou 9 anos, já o conseguia compreender”.

Lídia Jorge

A escritora não se lembra do nome do autor, mas nunca esqueceu A História da Maria Tonta, um livro sobre uma menina que era “muito feia e fazia tudo ao contrário”, contou-nos. “Eu tinha muita pena dela” pois todos à sua volta a tratavam por Maria Tonta, recorda Lídia Jorge.

“ [A Maria Tonta] tinha uma espécie de destino e eu não podia fazer nada para a ajudar. Achava que lendo o livro fazia-lhe companhia”, disse ao SOL a escritora, confessando que, na altura, dormia agarrada a esta obra.

Para Lídia Jorge, esta é uma história “de uma tristeza enorme” que a marcou para sempre. “À distância, ainda me arrepio”, confessa.

Fonte: Sol