Mães e Pais na 1ª Pessoa

Rita Mendes 

Barriga Mendinha

Os que gostam e os que fingem que gostam

Quanto mais “crescemos”, na idade e na cabeça… e principalmente quando a determinado momento da nossa vida fomos pais… mais percebemos que existem mesmo dois tipos de pessoas. As que gostam de vida de família e as que não ( mesmo que se convençam do contrário). Mesmo as que têm família, atenção. Não falo dos solteirões ou solteironas assumidos, que a esses, o seu estilo de vida não afeta ninguém, é uma escolha vivida com mais ou menos afinco. Falo dos que já estão envolvidos nela até à cabecinha… e que se têm que ver com as tarefas e confusões diárias deste tipo de “pandilha” que são os progenitores.. Existem desde sempre, mas nem todos são iguais. Nem todos foram talhados para o ser.

Refiro-me aos pais e mães de família que o são e que, a meio do caminho, percebem (ou não percebem efetivamente, quem percebe são os de fora), que não gostam de o ser. Não que não gostem dos filhos ou da mulher ou marido. Mas tudo o resto, é um triste acordar para o facto de que não foram talhados para esse papel. Muitas vezes agarram-se ao fato de que ” agora que os conheço não conseguia viver sem eles”… mas a verdade é que se a vida lhes desse uma segunda oportunidade e voltassem uns aninhos atrás, escolheriam, num piscar de olhos… “nunca os ter conhecido” para facilitar a própria vida. E a própria consciência.

Estes adultos a que me refiro, refilam com tudo e não lidam bem com aquilo que quem ama a maternidade/paternidade sabe que faz parte do pacote. Não toleram a desarrumação, embirram com tudo o que seja mais de meia 10 minutos de gritaria, não sabem lidar com birras e acham que as crianças têm que ter ” a consciência de..” ( Meu Deus, como raio é que miúdos de 2, 4 ou até mais anos… têm a consciência do que quer que seja…). A estas pessoas, que basicamente entraram aos trambolhões nesta vida a convencer-se que sim, que era por ali, começa depois a acontecer que a sua vida se torna mesmo difícil, pesada, cansativa, dormente, rotineira  e sofredora e entram no processo de não saber lidar com isso, a irritar todos à sua volta. A sua revolta começa a sair pelos poros e a não compreensão do que está a acontecer, fá-los muitas vezes, virar pessoas agressivas e non-gratas até no seio da própria família que dizem Amar tanto mas cujo “peso” (referem muito esta palavra) é demasiado.

Para eles, é demasiado… que os miúdos acordem vezes sem conta por pesadelos, xixis ou pura e simplesmente mimo (que é tão bom e tão preciso, mais ano menos ano havemos de querê-lo e eles do seu alto e sobranceiro orgulho adolescente já só o aceitaram as prestações e com a vergonha normal da idade), para eles é demasiado ter os brinquedos no meio da sala, para eles é demasiado ter que os apanhar cedo na escola (quanto mais cedo mais tempo “para os aturar”), para eles é demasiado entender que todas as crianças saudáveis… passam por fases difíceis… e que nos cabe a nós, educadores, ajudar a encontrar o caminho, não obrigá-los a viver de acordo com as nossa regras déspotas.

Hoje, a meio de um trabalho de pesquisa, passei os olhos por um blogue em que vi um pai e uma Mãe de 3 filhos pequenos em fotos lindas com um ar vintage e sereno, em tarefas diárias e normais… com o ar mais calmo e apaixonado ( o casal, um pelo outro e pela vida em comum) possível. Pus-me a pensar, se não será também esse género de imagem  que nos leva a querer também essa vida, quase inantigível, começo a achar. Esse “homem perfeito” que não berra, que ajuda sem cobrar, que sabe que depois de cumprir o seu papel de pai de família de forma doce, conseguirá com esses gestos ternos que tanto cativam uma mulher, conseguir os tais poucos mas bons momentos íntimos com a Mãe dos seus filhos, quando conseguem ter um tempinho a dois. Tempo esse que é tão raro, mas que não deve nunca ser atirado à cara, culpar os filhos, o cansaço extremo ou a pouca vontade. Elas são razões válidas, mas que… no cenário ideal… conseguem juntar ainda mais o casal.. nessa espécie de “demanda”.

Talvez seja um mito, talvez seja uma forma idelista de olhar a família. Mas a verdade, é que, ainda acredito, que mesmo fora desse ambiente idílico, se possa gostar a sério deste cansaço compensador que ter uma família em “início de carreira” pode oferecer. A verdade é que acho que realmente existem por aí, muitos pais e mães que oes são não por vocação mas por obrigação e “porque aconteceu”… E verdade é que eu não sou nada disso. E estou farta de demagogias…

Procurei, batalhei ( um destes dias, um dia em que me apeteça expor mais a minha intimidade, explicar-vos-ei que para mim ter filhos não foi a coisa mais natural  e fácil do mundo mas que sempre o quis muito) e agora que os tenho sei que a vida são dois dias. E que a infância deles… é um! Por isso, cada vez mais sei que não quero viver “esse dia” entre medos, gritos, críticas, solidões de casa cheia em que o receio do sujo, do desrrumado, da birra seja uma constante. A verdade é que, mesmo cansada (e tanto muitas vezes), sempre soube que ter um família me cobraria uma fatura: e que eu a poderia pagar  de duas formas :com a revolta ou com a certeza de que a iria fazer suavemente e sentindo justiça nisso. A escolha está nas nossa mãos.

A Cada dia que passa mais percebo, olhando para o lado que  existem mesmo dois tipos de pessoas. As que gostam da vida de família e as que não. As que fingem (principalmente para fora… para “parecer bem”) e as que, ao inves, acham tudo (mesmo as coisas menos boas) natural e fluído. Mas as famílias existem em ambos os lados. Mas as crianças crescem e educam-se em ambos os lados. A diferença essencial é que enquanto numas famílias aprendem a comunhão, o perdão, a compreensão, o valor da voz e da palavra… noutras aprendem a revolta, a tristeza, o silêncio e crescem sem a certeza de que a sua opinião conta. E conta. Tem que contar sempre.

Por mim, que sempre sonhei com “casa cheia”… por mais que me queiram vergar, vou continuar a adorar uma “messy house”, os brinquedos pelo chão, os ciúmes e berraria entre irmãos (porque sei que se não nos intrometermos com castigos estúpidos, mais cedo ou mais tarde surgem os mimos e brincadeiras), a loiça suja  que não tive tempo de lavar e o cheirinho a comida acabada de fazer, enquanto leio uma história na cama aos miúdos. Continuarei ao não me “queixar” mas sim a orgulhar-me das noites mal dormidas, do cansaço que é andar com os dois na rua, do sentimento de missão cumprida cada vez que os “vergo” com uma conversa em vez de com um grito…nem que tenha que levar com muitas birras e arrumar muita bagunça até que isso me aconteça.

E pronto tenho dito. Ufff….

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