Mães e Pais na 1ª Pessoa

Catarina Beato 

Dias de uma Princesa

o parto…

escolhi começar com a imagem serena de quando me entregaram a Maria Luiza já depois de todos os procedimentos pós parto. é assim como respirar fundo antes de reviver todas as emoções.

na quarta-feira [31.8], curiosamente – fiz as contas depois – 36 semanas depois da Maria Luiza ter sido feita, exactamente como os irmãos, levantei-me tarde e percebi que estava a perder líquido aminiótico. no parto do G. a bolsa teve que ser rebentada, no caso do A. rebentou mesmo, como um balão. neste caso seria uma rotura da bolsa. falei com a Marta [ou voltei a falar com a Marta porque foi o meu apoio à distância durante toda a gravidez] e ela disse-me que, se o líquido fosse pouco, deixasse passar mais algum tempo porque não tinha nenhuma contração. estava a sair de casa para ir almoçar fora e perdi tanto líquido que resolvi ir para as urgências da MAC.

deviam ser cerca de 14 horas quando me confirmaram a rotura da bolsa e que já não sairia da maternidade. senti um misto de felicidade – finalmente ia ter a minha miúda cá fora – e medo – não tendo qualquer contração quanto tempo demoraria a entrar em trabalho de parto?

quando expliquei aos médicos que só queria epidural se a pedisse explicitamente disseram-me que evitariam induzir porque isso me levaria a muito mais tempo em dor. aceitei.

às 15h eu e o Pedro já estávamos no quarto 6. fotos, conversa, parvoíces. passou um grupo de médicos que confirmou a avaliação feita à entrada: colo do útero favorável [normal para quem já teve dois filhos], dois dedos de dilatação, contrações fracas e irregulares. disse ao Pedro: não digas a ninguém porque isto pode demorar muito…. e pensei quanto tempo ficaria sem os meus rapazes.

o Pedro continuava a filmar. às 16h32 [sei porque está filmado] começaram as contrações dolorosas. vai começar… disse ao Pedro.

 

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tive total liberdade de movimentos. fui à casa de banho, estive sentada e optei por estar agachada [como se vê nas fotos]. muita dor que vinha e ia. esta sensação eu já conhecia. entra um enfermeiro que reconheço de imediato. desculpe, chama-se Jorge?

o enfermeiro Jorge confirmou e o Pedro disse: não imagina a importância que tem na vida da minha mulher… 

contei ao enfermeiro Jorge como tinha sido importante no parto do A..

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seriam 17h10 quando senti um dor insuportável. gritei como um animal e implorei que me dessem epidural ou fosse o que fosse mas que me ajudassem. foi um coisa repentina, dilacerante, animal mesmo. o Pedro segurou-me para que não caísse. entrou uma auxiliar que – perante aquilo que imaginou ser o histerismo de uma grávida – me pedia que respirasse, eu repetia que não aguentava [aos gritos mesmo].

o enfermeiro Jorge entra e perante a cena “animalesca” tenta avaliar-me. já aqui está a cabeça!

eu perante aquelas palavras, juntei forças, ajeitei-me, fiz força. e senti o corpo da Maria Luiza a sair de mim, naquela que é a sensação física mais maravilhosa do universo, uma vida cá fora e o teu corpo de volta. às 17h40 o enfermeiro Jorge entregava-me a Maria Luiza. o Pedro recuperava a máquina que largou para me segurar e registou o momento.

não chorei com lágrimas mas chorei com palavras. comovi-me brutalmente. comovemo-nos.

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aqui agradeço ao Pedro. porque conseguiu o impossível. registar o parto, parar de registar para me segurar e voltar a pegar na máquina. vantagens da profissão. eu agradeço apenas o imenso privilégio por poder guardar as imagens. agradeço também pela forma como me segurou [física e emocionalmente]. e pela forma como vivemos isto juntos [escreverei mais sobre isso…].

ao enfermeiro Jorge por, sem saber, ser qualquer coisa como um anjo na minha vida. eu, que não acredito nessas coisas, direi apenas que um anjo é alguém muito bom que nos proteje. obrigada pelo profissionalismo.

o resto dos agradecimentos deixo para depois [já é demasiada emoção num post apenas].

CatarinaBeato

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