Mães e Pais na 1ª Pessoa

João Moreira Pinto 

E os Filhos dos Outros

O nosso exemplo é a melhor lição que podemos dar aos nossos filhos

 

 

 

 

Quando fui entrevistado pela Activa a propósito do que os médicos fazem para se manterem saudáveis, a pergunta estendia-se ao que nós fazíamos para promover hábitos de vida saudáveis aos nossos filhos. Isso deu origem a uma longa reflexão que gostaria de partilhar convosco. É sobre o que é ser saudável (não só do ponto de vista biológico, mas também sobre o ponto de vista psicológico e sobretudo social), de como o nosso exemplo é a melhor lição que podemos dar aos nossos filhos e de como não devemos ser demasiado radicais nos sacrifícios por uma vida saudável. É um texto algo comprido (mais do que vos venho habituando), mas julgo que toco numa série de pontos importantes e que angustiam alguns pais. Se gostarem, partilhem por favor.

A Medicina tem mostrado que uma boa alimentação e a promoção de hábitos de vida saudável previnem uma série de doenças. Os exemplos mais conhecidos são do foro cardio-vascular (prevenção do enfarte agudo do miocárdio, prevenção da hipertensão arterial), mas os benefícios estendem-se à prevenção de doenças respiratórias, metabólicas (diabetes), osteo-articulares, oncológicas e neurológicas. De facto, ter uma boa alimentação, praticar desporto aeróbio, respeitar os ciclos do sono, entre outros não só permitem prolongar a vida como melhorara a qualidade desta.

No que às crianças diz respeito, os efeitos profilácticos de uma boa alimentação e dos hábitos de vida saudável são visíveis desde cedo. A obesidade é já considerada a grande epidemia do século XXI. Em Portugal, estima-se que 30% das crianças tenham excesso de peso e mais de 10% são obesas. A promoção de uma boa alimentação e da prática regular de exercício físico passa pela educação, seja aquela ministrada pelos professores na escola, seja aquela que os pais transmitem em casa. Eu atrever-me-ia a dizer que esta última é a mais importante. Mais importante, porque começa mais cedo (antes de as crianças entrarem na escola). Mais importante, porque prevalece apesar das mudanças na escola. Mais importante, porque as crianças olham para os pais como exemplos.

Muito da aprendizagem infantil faz-se por imitação. As crianças imitam os modelos que têm em casa. Se os pais comem sopa antes do prato principal, eles fá-lo-ão naturalmente. Se os pais bebem água em vez de sumo ou vinho, as crianças sentem que isso é o normal. Se os pais saem para correr ou dar longos passeios com regularidade, a criança vai querer seguir as pisadas. E o mesmo se aplica a lavar as mãos antes de ir para a mesa, ‘deitar cedo e cedo erguer’, escovar os dentes regularmente , etc.

Em casa, tentamos ter uma alimentação o mais equilibrada possível assim como manter hábitos de vida que consideramos serem saudáveis. O facto de ter tirado um curso de Medicina, permitiu ir moldando o meu comportamento às novidades que ia aprendendo. Mais tarde, com o nascimento do meu primeiro filho, comecei a ter mais a consciência de que tudo o que eu fizesse seria ‘absorvido’ por ele como um exemplo. Tornou-se para mim mais claro que na alimentação teríamos que ter mais cuidado em ter uma oferta mais rica em peixe, que não poderia ‘saltar refeições’ ou subsitutuí-las por sandes, que aboliria os refrigerantes às refeições, que comeria mais vegetais e fruta, etc.. Claro que temos as nossas transgressões, de vez em quando. Sabe bem quebrar as regras, uma vez por outra. Eu diria até que é saudável quebrar as regras. Para além disso, o que hoje achamos ser correcto (em termos médicos) amanhã pode não ser. As regras podem e devem ser adaptadas. Adaptadas ao tempo que vivemos e adaptadas às circunstâncias específicas em que vivemos. Julgo que é importante termos isto em mente. Não adianta vivermos  obcecados com demasiadas regras de saúde numa espécie de ditadura sanitária. Também não é saudável mantermos certos hábitos que para nós poderão ser um sacrifício, apenas porque nos dizem que é faz bem à saúde. A vida é para ser vivida, com prazer. Respeitando e preservando o nosso organismo, mas sempre com prazer.

Uma nota final para chamar a atenção para alguns hábitos de vida saudáveis que tendem a ser esquecidos. É que para além dos hábitos saudáveis biológicos ou sanitários não devemos esquecer outros hábitos que têm a ver com a nossa saúde mental e social. Alimentar a mente com arte e conhecimento, saber falar e ouvir, saber respeitar o próximo, ser solidário e compassivo são alguns exemplos de hábitos de vida saudável. É frequente ouvir pais a gritarem com os condutores do carro ao lado, a dizerem mal de colegas de trabalho ou do vizinho, a ignorar a companhia dos filhos em detrimento do telemóvel, trocar a conversa com quem temos ao nosso lado pelo chat do facebook. As crianças vêem e aprendem por imitação. A saúde não é só o bem estar físico. Ela é também bem-estar psicológico e social. Desde pequenos, é preciso instruir as crianças a ter bons hábitos psicológicos e sociais. Dar o exemplo pode ser um bom começo.

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