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Psicologia Clinica

13 de Abril de 2016

O Meu Pequeno Pinóquio: Como Lidar com a Mentira na Infância

A infância está repleta de grandes desafios não só para as próprias crianças como para os pais. No meio destes desafios que representam ser criança, existem comportamentos por parte da criança que são desejáveis e outros que são indesejáveis para os pais. Um desses comportamentos indesejados é a mentira. Todos nós temos uma atitude de desaprovação face à mentira. Se eu lhe perguntar o que sente e pensa quando lhe mentem, provavelmente consegue identificar com alguma clareza os seus pensamentos e emoções: provavelmente sente-se irritado/a, revoltado/a e inevitavelmente uma série de pensamentos ocorrem em paralelo, tais como “que mentiroso/a”, “é um falso/a e desonesto”, ou seja, inevitavelmente fazemos julgamentos negativos que corroboram a nossa postura de desaprovação. Até aqui, é relativamente fácil identificar o processo quase automático pelo qual passamos quando somos confrontados com a mentira, certo?

o meu pequeno pinóquio

Se pensarmos na tarefa de lidar com a mentira no papel de mãe/pai, o desafio torna-se ainda mais exigente. Surgem questões como “não foi assim que eu o/a eduquei”, “onde é que eu errei”, ou seja, uma vez mais …entramos no ciclo do julgamento.

O grande desafio nesta tarefa que é lidar com a mentira está precisamente aqui: na dificuldade que temos de mudar o foco ao qual invariavelmente temos tendência a dar atenção. Fique com algumas ideias centrais que o/a poderão ajudar com as mentiras do seu pequeno Pinóquio:

– Porquê que mentiu?: antes de pensar no que a mentira lhe provocou, procure pensar na razão pela qual a criança mentiu. Porquê que mentimos? Geralmente porque há algo que reconhecemos como inadequado no nosso comportamento e, com receio da crítica e da desaprovação do outro, a mentira é utilizada como recurso. Sempre que pensamos recorrer à mentira, como reagiríamos se soubéssemos que, apesar da outra pessoa não ter gostado da nossa atitude, não iria reprovar-nos nem criticar-nos? Provavelmente não sentiríamos necessidade de recorrer à mentira, certo? Sendo assim, fica fácil perceber qual será a atitude do nosso filho se o confrontarmos com frases como “não me mintas!”, “ diz-me a verdade se não vai ser pior”. Procure centrar-se mais nas causas que levaram à mentira do que na mentira em si.”

– Seja empático: procure colocar-se no lugar da criança. Para sentir necessidade de mentir, poderá sentir-se arrependida, com medo das consequências que poderá receber pelo seu comportamento. Procure demonstrar ao seu filho que compreende o que está a sentir e que o seu objectivo não é critica-lo mas sim ajuda-lo. Para isso, poderá dizer ao seu filho “Se te sentires triste por alguma coisa que fizeste, quero que saibas que não tens de ter medo por me contar o que aconteceu. Só quero conseguir ajudar-te a encontrar uma melhor solução”.

– Valide a atitude de contar a verdade: após a criança admitir a verdade, valide esse comportamento e dê-lhe o seu suporte. Evite comentários do tipo “Eu bem sabia que me estavas a mentir, és sempre a mesma coisa!”. Este tipo de atitude só reforçará os receios que a criança sentiu inicialmente e que a levaram a mentir e poderão fomentar essa mesma atitude em situações futuras. É preferível dizer-lhe algo como: “Sei que não deve ter sido fácil para ti contares a verdade mas estou muito orgulhoso/a de ti pela tua coragem e sinceridade”. Desta forma, a criança sentir-se-á compreendida, suportada e isso fará com que, em situações futuras, não tenha medo de dizer a verdade.

– Ajude a identificar alternativas: em conjunto com o seu filho, procure ajuda-lo a identificar alternativas à mentira. Poderá ser desde pedir desculpa pelo seu comportamento, até procurar fazer alguma coisa que de alguma forme compense o seu erro ou comportamento menos desejável.

Lembre-se sempre que as mentiras na infância são relativamente comuns num determinado momento. O segredo é não deixar-se enganar pela forma como estas devem ser geridas: esteja lá para ser um suporte nesta importante aprendizagem que é assumirmos as responsabilidades pelos nossos actos e sermos sinceros e evitar posturas mais avaliativas que só promovem estes comportamentos. Nunca se esqueça que as pequenas mentiras podem ser excelentes oportunidades de construir uma relação de pura verdade com o seu filho: é curioso não é?

*artigo exclusivo para Barrigas de Amor®

Sandra Azevedo

Psicóloga Clínica

Equipa Mindkiddo

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