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Cuidados ao Bebé

31 de Março de 2014

O menino 'entalou-se' – o que fazer?

O meu maior pânico enquanto pai é a obstrucção da via aérea, também chamado de engasgamento, sufoco, ‘o menino entalou-se’ (tão típico aqui do Norte). O MM entrou na fase de levar tudo à boca. Quando o JM passou pela mesma fase, não havia a profusão de peças de legos, rodas perdidas, migalhas de bolachas, entre outras coisas que o agora crianço de 3 anos espalha pela casa. Por mais que andemos sempre de olho no que está ao alcance do MM, os azares podem acontecer. Para mais, a introdução progressiva dos sólidos por vezes traz acessos de tosse mais ou menos assustadores.  O que fazer?

O primeiro passo é a prevenção. Não descurar nunca os pormenores, nomeadamente pequenas peças que caem ao chão ou se destacam facilmente dos brinquedos. Um dia a criança gatinha para baixo da mesa ou do móvel e vai apanhar aquele chapéu de umplaymobil que andava perdido. Mesmo na introdução dos sólidos, não colocar o carro à frente dos bois. Pode parecer giro ver uma criança que come amendoins com 1 ano, mas é pouco provável que tenha destreza para mastigar bem antes de os engolir. Para não falar dos rebuçados e pastilhas elásticas que, mesmo aos 5-6 anos ainda muitos se atrapalham.

Quando a criança se engasgou, porque estava a comer ou levou à boca qualquer pequeno objecto que estimulou a tosse, a primeira coisa que devemos fazer é ver se a tosse está ser eficaz. Ou seja, se a criança aspirou inadvertidamente um líquido ou um sólido, o organismo combate o evento, expulsando o corpo estranho, través da tosse. Se a tosse é bem audível, se a criança faz boas inspirações entre cada acesso de tosse e se mantém consciente e reactiva, significa que a tosse está a ser eficaz. Neste caso, devemos incentivar a tossir no caso das crianças maiores. No casos dos mais pequenos (menores de 12 meses) não é consensual se se deve virá-los logo de cabeça inclinada para baixo ou sequer se se bate nas costinhas. Em teoria, estas manobras só serão necessárias se a tosse se tornar ineficaz.

Quando é que a tosse é ineficaz? Quando a tosse é silenciosa (não se ouve), a criança fica incapaz de falar, de inspirar convenientemente, podendo ficar cianótica (isto é «roxinha») e inconsciente. Isto pode acontecer logo que a criança coloca o objecto de obstrucção à boca (por exemplo, uma tampa de uma garrafa) ou pode advir de uma tosse eficaz que vai se tornando progressivamente ineficaz (por exemplo, por cansaço da criança). Se a tosse é ou tornou-se ineficaz, seguir este esquema simples:

A) Tosse ineficaz e criança consciente: 

1. Inclinar a criança para a frente (no caso dos lactentes e crianças mais pequenas deitá-las mesmo sobre o braço ou os joelhos) e dar 5 pancadas no meio das costas com convicção (ver a figura; fonte: labspace.open.ac.uk).

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2. Se não resultar, é preciso virá-los e fazer compressões: no caso dos bebés (menores que um ano) comprime-se a caixa torácica sobre o esterno (o osso no meio da grade costal, como na figura); no caso das crianças maiores que um ano, a compressão é abdominal e pode ser feita através da famosa manobra de Heimlich (ver na figura;fonte: labspace.open.ac.uk).

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3. Se voltar a não resultar, volta-se às pancadas nas costas e assim sucessivamente, até melhorar (passando ao item de cima, tosse eficaz) ou até piorar e a criança ficar inconsciente (ver ponto seguinte).

B) Tosse ineficaz e criança inconsciente: 

  1. Permeabilizar a via aérea, isto é, retirar qualquer objecto visível da boca e da garganta. Atenção! Retirar o que é visível e nunca colocar o dedo ‘às cegas’, porque podemos inadvertidamente empurrar o objecto para dentro.
  2. Abrir a boca da criança e fazer 5 insuflações. As insuflações no bebé fazem-se tapando a boca e o nariz do bebé com a boca do adulto (ressuscitador). Nas crianças maiores a boca do ressuscitador apenas tapa a boca da criança. O nariz deve ser tapado pelos dedos do ressucitador ao mesmo tempo que este inclina a cabeça da criança, levantando-lhe ligeiramente o queixo. Veja a diferença nas figuras (fonte: walgreens.com).

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3. Se não resultar, pedir ajuda e aqui entramos já no âmbito do Suporte Básico de Vida cujos pormenores, longe de caberem aqui no post, merecem a frequência de um curso para o efeito. Porque isto é muito fácil e claro lido no papel (no caso, no monitor), mas perante o pânico, só com algum treino se consegue reagir. Os cursos SBV são muito importantes porque dão esse treino e já existem muitos específicos para a Pediatria,

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Guardem este algorítmo que roubei ao livro de prácticas do Conselho Português de Ressuscitação. Aproveitem e visitem a página Salvar Vidas onde podem procurar ajuda para a frequência ou organização de um curso SBV nas vossas empresas, escolas, etc.

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