Atualidade

20 de Janeiro de 2015

O instinto paternal desenvolve-se em atmosferas adversas

Quando a Carolina nasceu, nem o Rui nem a Sandra sabiam muito bem o que fazer com a bebé. Tinham pavor de lhe dar banho. Tinham receio que parasse de respirar enquanto dormia. Ficavam muito aflitos quando chorava sem motivo aparente. Não sabiam se a deviam acordar para lhe dar o leite, ou esperar e respeitar o sono da Carolina. As teorias eram muitas e vinham de todo o lado. Médicos, amigos, familiares próximos, familiares afastados, desconhecidos até. Todos pareciam ter muitas certezas no que diz respeito à forma como os outros devem cuidar dos bebés.

Passada a ansiedade dos primeiros dias, Rui regressou ao trabalho a muito custo. Daria tudo por uma licença que lhe permitisse ficar mais umas semanas em casa ao lado de Sandra e do novo membro da família, a Carolina.

Sandra ficou em casa com uma licença de quatro meses. Durante esse tempo teve oportunidade de aprender tudo sobre bebés. Hoje, muda a fralda com uma mão se for preciso. Consegue identificar as causas dos diferentes tipos de choro com facilidade e agir em conformidade. Em cinco minutos dá banho e põe Carolina a dormir. A ocasião faz o ladrão, não é? Ou será o instinto maternal? Um pouco dos dois, talvez.

Este é o cenário mais típico aquando do nascimento de um filho e, como resultado, as mães depressa ficam especialistas em todo o tipo de cuidados e assistência a crianças. Para além disso, muitas frequentaram também um estágio intensivo quando eram crianças, no qual lhe foram fornecidos nenucos ou similares e uma variedade de acessórios para poderem praticar. Os pais, por sua vez, não tiveram direito a estágio e regra geral não lhes é dado tempo para aprenderam e igualarem a destreza das jovens mães.

Apesar das condições adversas, os homens das gerações mais jovens insistem em ser pais mais presentes. São homens focados em marcar a diferença face à educação distante e austera que receberam dos seus próprios pais. Fazem questão em acompanhar o crescimento dos filhos, saber prestar os cuidados básicos, levar ao médico, ajudar a fazer os trabalhos de casa, ir buscar à escola, preparar-lhes o lanche, comprar-lhes roupa…

Os estudos das mais variadas áreas são unânimes nesta matéria e apontam no mesmo sentido. No que diz respeito às questões de género, é na esfera da parentalidade que se observam as mudanças mais acentuadas. Os homens dos nossos dias envolvem-se mais na criação e educação dos filhos apesar de, em termos culturais, as mulheres continuarem a ser vistas como as principais responsáveis por estas tarefas. Há inclusivamente quem defenda que as mulheres têm aptidões inatas para cuidar das crianças que os homens não têm. Mas também há muitos homens que discordam disso.

Dois anos depois do nascimento de Carolina, Rui é tão capaz de cuidar da sua filha como a mãe. Orgulha-se da cumplicidade que desenvolveu com Carolina e congratula-se por isso. Não foi fácil. Rui recorda-se, por exemplo, de ir ao médico com a filha e de este insistir em falar apenas para a mulher, explicando-lhe como deveria administrar os medicamentos e ignorando a sua presença. Um vez chamou-o à atenção e, depois, mudou de médico. Agradece à Sandra o espaço que esta lhe deu para que também ele pudesse aprender a cuidar de Carolina. Hoje Rui é mais rápido nos banhos e a mãe imbatível a dar-lhe o jantar.

Socióloga, autora do blog super-mulher

Fonte | Life&Style Público