Mães e Pais na 1ª Pessoa

Lénia Rufino 

Not so fast

O dia em que eu mudei

not so fast

 

Ando há anos a dizer que é desta, que agora é que é, agora é que vou entrar na linha e comer como deve ser e mexer-me e perder o peso que me chateia. Anos disto representam um desgaste imenso. Ninguém me cobra isto, mas eu cobro. Ninguém me exige que eu perca os tais quilos, mas eu exijo. Foram seis anos de uma luta diária, de muita angústia, de muita vontade e de vontade nenhuma, de muitos falhanços e de um sentimento de culpa enorme e constante. Seis anos é muita coisa. São muitos dias com um peso maior do que consigo carregar em cima de mim. Muitos dias a sentir-me a maior fraude, a maior falhada do mundo. Eu sei: sou eu que sou exigente. Sou, sempre fui, não quero deixar de ser. Não era por aí que ia resolver o problema: baixar a fasquia para me sentir melhor nunca foi opção.

 

Cansei-me muito durante estes seis anos. Foram seis anos a gostar menos de mim do que mereço. Seis anos a cuidar mal de mim. Fartei-me de mim e da minha conversa, quis mandar tudo à real puta que pariu, quis desistir muitas vezes, quis formatar o disco e deixar de pensar. Nunca fui capaz. Lá no fundo esteve sempre aquela vontade de mudar e de chegar onde quero. Sabia há muito tempo o que precisava de fazer para conseguir mas, de caminho, fui sempre a minha pior inimiga. Boicotei-me. Usei os clássicos das desculpas, não sou capaz, é só hoje, apetece-me mesmo, eu mereço, não consegui resistir e fui-me boicotando. Durante seis anos, que são mais ou menos 2190 dias. São demasiados dias para não se ser feliz consigo mesma.

 

A Catarina disse-me muitas vezes que um dia eu havia de ter o click e só aí ia conseguir mesmo mudar. Fui sorrindo e acenando, a achar que já tinha tido mil clicks e nem por isso estava no bom caminho. Depois, no dia 29 de Dezembro, numa conversa com a Erica, o inesperado aconteceu. Um click. O click. Ali, finalmente.

 

Não vou contar o teor da conversa (hei-de contar, mas não hoje, não agora). Digo apenas que tudo, mas mesmo tudo mudou. Olhei para mim e soube que, depois daquilo, eu era capaz. Resolvi deixar passar o fim de ano e começar em força dia 1. Mesmo sabendo que ia passar o dia de ano novo à mesa, em casa dos meus pais, rodeada de coisas que adoro. Mesmo sabendo que ia ter que começar logo com uma resistência hercúlea. Mesmo assim, comprometi-me: dia 1.

 

E dia 1 cumpri à risca o que prometi. Não cedi a nada. Não foi só um bocadinho, eu mereço, eu não sou capaz de resistir, é só hoje, apetece-me mesmo. Nada. Desde dia 1 que não como carne. Nem farinhas brancas. Nem nada que tenha trigo. Nem doces. Nada com açúcar adicionado. Deixei de ver comida e passei a ver alimentos. Um bife não é um bife; é proteína. Uns cajus não são um snack; são gordura. Arroz não é arroz, é carboidrato. Deixei de comer pelo prazer que isso me dá e passei a comer para me alimentar. Não reduzi quantidades, nada disso. Também não ando a comer peixe cozido com brócolos. Ando a comer bem, a fazer refeições super saborosas, que me deixam com as papilas gustativas a bater palmas. Só que deixei de comer por gozo e passei a comer por necessidade de alimentar o corpo. Deixei de comer com o coração e passei a comer com a cabeça.

 

Voltei ao ginásio, sabendo que nisto de perder peso 70% é alimentação e 30% é desporto. Desde dia 2 acho que só não fui ao ginásio um dia. Mudei o plano de treino entretanto e esta semana estou a fazer só a parte de cardio, para secar. Mato-me ali, a correr, a subir degraus, a remar. Suo e canso-me mas nunca tive vontade de desistir, nem nunca pensei que devia ter ficado em casa. E não é depois que penso isto, é durante.

 

Desde dia 1 que não cometo nenhum deslize. Nenhum. Sem esforço – e é esta a diferença, porque antes eu até podia andar uns dias a portar-me bem, mas estava sempre em esforço. Agora não. É assim porque sim. Não penso em bolos – e já fiz vários desde dia 1, mas nunca me apeteceu sequer rapar uma taça de massa. Não sonho com chocolates. Não me apetece massa nem arroz nem batatas. Batatas fritas, essa perdição, é coisa que não me apetece. Passo em frente ao McDonald’s e não brigo comigo para não entrar.

 

Se vai ser sempre assim? Não. Vai haver um dia em que me vai apetecer um bolo e eu vou comê-lo. Porque eu quero, porque eu posso e não porque não consigo resistir, é só hoje, apeteceu-me mesmo, eu mereço. Vai haver um dia em que volto ao McDonald’s para comer um McRoyal Deluxe. Porque quero, porque posso. Mas ainda não. Ainda é cedo. Ainda tenho um longo caminho a percorrer. Tenho perfeita consciência de que sou uma adicta em recuperação e que, tal como os drogados a largar a droga, não posso ceder a uma dose, porque corro o risco de precisar de outra logo a seguir.

 

Não tenho feito isto sozinha. A Catarina motiva-me todos os dias, sem saber. À Erica devo a permanência nesta guerra, sinto-me em dívida para com ela e tenciono pagar essa dívida todos os dias, agradecendo e honrando o click que ela me deu. A Teresa, do blog OuiOui Saudável tem estado sempre lá, a esclarecer-me as dúvidas de nutrição. Tenho tido as minhas amigas comigo, a apoiar de uma forma ou de outra (quanto mais não seja porque não me convidam para nada que envolva calorias maradas). O meu marido compreende a mudança e acredita em mim e respeita o facto de eu não os acompanhar nas refeições deles, para comer sopas e saladas e coisas “esquisitas” como quinoa e amaranto.

 

Dizem por aí que são precisos 21 dias para quebrar um hábito mau e mais sete para instaurar outro hábito. Estou a quatro dias de quebrar o meu mau hábito e a 11 de instaurar o hábito novo. Sei que sim. Sei, finalmente, que sou capaz. Sei que estou no caminho certo. Sei que agora vou ser capaz.

 

Dia 1 pesava 68kg. Hoje peso 65kg.

 

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