Mães e Pais na 1ª Pessoa

João Moreira Pinto 

E os Filhos dos Outros

O canto do grilo

Há um ano, a Mãe disse «para o ano» e o JM não esquece uma promessa. E assim, na semana passada, o grilo entrou na nossa vida.. Teve dois dias calado. Passados dois dias dias e uma folha de alface, o grilo desata numa cantoria. Durante essa noite toda não se calou. Tivemos que fechar todas as portas que separavam o grilo dos quartos. Contei 5 portas, mas ainda assim, consegui acordar de noite com a algazarra do bicho. Independentemente das noites mal dormidas, ter bichos em gaiolas desconcerta-me. Na noite seguinte ao jantar, lancei a deixa: «Olha o grilo. Afinal canta… a noite toda..»

«Se calhar está com saudades da Mãe… Devíamos soltá-lo.» Por momentos, pensei que aquelas palavras tinham saído da minha boca, mas não. Fora o JM. Se tivesse provas científicas mais científicas, diria que foi o meu poder telepático que o fizeram dizer aquelas palavras sábias.

Eis que entra Mãe em cena (não a do grilo, mas a nossa). «Mas soltá-lo aqui? Sem verde nenhum? Quando formos a casa da Avó, deixamos lá, que tem muito jardim…» Então as noites não têm sido fáceis… nem para o grilo, nem para mim. Às vezes a ‘minha mais velha’ dá-me mais trabalho que os dois pequenos.

Nota acessória: o canto do grilo não é na verdade ‘cantadoé mais um raspar de asas. «O grilo macho entoa os cricris esfregando áreas na base das asas. No lado debaixo de uma das asas há uma fileira de “dentes”, com se fosse um pente. Do outro lado fica uma “palheta” de tecido endurecido. Todas as vezes que vibra, um dos dentes estala. Esse som é amplificado e transmitido por uma parte acústica da asa chamada “harpa”. O ritmo em que o plectro vibra os dentes dá aos cantos o tom característico de cada espécie».

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© Rubem Alves