Atualidade

2 de Maio de 2015

No Dia da Mãe tome consciência de que nunca vai deixar de se sentir culpada.

Precisamos de nos sentir as pessoas mais importantes do mundo para os nossos filhos. Omnipresentes e omnipotentes, segundo o provérbio judeu que diz que porque Deus não podia estar em todo o lado criou as mães!

Anjos-da-guarda, portanto, escolhidas por um deus para criar e amparar, proteger e vigiar as criaturas que damos à luz – que sinal mais poderoso dessa missão poderiam as mães desejar que ver crescer dentro de si um bebé, pondo-o no mundo, perfeito e redondinho, já capaz de tanta coisa? Que a cada dia aumenta de peso na balança graças ao leite da mãe e a selecciona entre todos os outros para um primeiro sorriso que lhe ilumina a cara e os olhos? Um bebé que cresce e revela a sua inteligência, mas sempre tão dependente? Da mãe, claro.

Convenhamos que é um milagre inebriante, e que por muito que a ciência fale de cromossomas X e Y, e garanta que aquela criança tem metade dos cromossomas do pai e metade da mãe, e a sogra jure que é igualzinho ao filho em bebé, as mães sintam que lhes pertence, insuflando de vaidade pelo papel que lhes foi confiado, jurando logo ali que vão dedicar toda a sua vida a proteger aquela criatura e a torná-la feliz.

É claro que as mães disfarçam a omnipotência, e até se fingem dispostas a partilhar a responsabilidade com o pai da criança, e até com os avós, mas, na prática, o máximo que concedem é delegar. Deixam instruções na porta do frigorífico para o dia em que não vão estar em casa; permitem, eureka, que o pai o leve ao pediatra, mas passam-lhe para a mão o papelinho com todas as perguntas que deve fazer; e é claro que concordam que seja ele a vesti-lo e a levá-lo à escola, mas depois ligam para saber como foi, se chorou, se ficou bem, pedindo uma fotografia do telemóvel para comprovar, e à noite repreendem os dedicados esposos por não terem empacotado na mochila o casaquinho de malha, quando a previsão meteorológica bem dizia que ia arrefecer para a tarde.

Ui, e esqueci-me de acrescentar o narcisismo, que vem acoplado a tudo isto. E o medo do juízo das outras mulheres. Vamos lá a isso.

Tão coladinhas estão as mães aos filhos, que de forma mais ou menos consciente acreditam que quem os vê as vê a elas. E que todas as outras mães da cidade, incluindo as suas próprias mães, quando comentam que penteada, ou despenteada, está a criança, ou comentam as notas que teve na escola, estão objectivamente a atribuir à mãe o mérito ou o desmérito equivalente. Não admira assim que o investimento nos filho seja total, até porque a esperança secreta é ser invejada. Encontrar uma mãe que quer ser como nós é mais do que ser condecorada no 10 de Junho!

Depois de tudo isto, o mais extraordinário é que nos espantemos com o sentimento de culpa imenso que nos aflige a toda a hora. Como podíamos não nos sentir culpadas de não estar presentes quando caiu e esfolou um joelho, quando não festejamos com ele o golo no desafio de futebol, quando adormeceu sem nos ver? Como podiam as mãe não sentir a responsabilidade por tudo o que fazem, sentem e pensam? Porque têm pesadelos (será por eu trabalhar tanto?), estão no percentil cinco (não lhe o suficiente de comer?) ou no noventa (o mal foi apresentá-lo ao açúcar) têm os dentes tortos (porque não lhe tirei a chucha mais cedo?!), não se concentram nas aulas (devia ter ido para a escola mais cedo?), são demasiado competitivos (se calhar faltou-lhe tempo para brincar!), e por aí adiante. Aliás, pouco importa enumerar os motivos da culpa, porque ainda não foi inventado um único pelo qual não estejamos dispostas a bater no peito e dizer mea culpa.

Decididamente, como não havíamos de nos sentir culpadas se assumimos a inteira responsabilidade por tudo? E se rejeitamos liminarmente a única forma de evitar a culpa, ou seja, aceitar que não somos, nem podemos ser, omnipotentes e omnipresentes na vida dos nossos filhos? Racionalmente estamos certas de que assim é, mas no fundo do coração nunca capitulamos. Por outras palavras, preferimos pagar o preço da nossa omnipotência. Bom Dia da Mãe.

Fonte: Jornal i