Atualidade

24 de Novembro de 2014

Não à mesada, sim à semanada!

A partir de que idade se pode dar dinheiro às crianças? Qual a quantia e onde devem gastá-la? O Observador falou com dois especialistas e preparou um guia sobre o mealheiro do seu filho.

Não à mesada, sim à semanada. Tanto a coach parental Cristina Valente como o pediatra Mário Cordeiro concordam nesse ponto. A quantia monetária – que deve ter em conta a capacidade financeira da família e a idade da criança – é mais fácil de gerir num curto espaço do tempo, pelo que os pequenos aprendem com maior rapidez os conceitos de “gestão”, “poupança” e “consumo”.

Numa altura em que o Parlamento debate o Orçamento do Estado, o Observador preparou um guia para pais sobre o orçamento dos filhos — porque é fundamental perceber a partir de que idade se pode dar dinheiro, qual a quantia indicada e onde devem os mais novos gastar a semanada.

Ambos os entrevistados defendem que a criança deve ter a oportunidade de errar, ao gastar mal o dinheiro, e que deve existir um ligeiro controlo da parte do pai ou da mãe. Acima de tudo, a semanada não deve incluir tarefas que, à partida, já fazem parte da rotina diária das crianças — como arrumar o quarto — ou servir de pretexto para quebrar regras instituídas no seio familiar.

O importante é, tanto filho como pai, honrarem os compromissos. Diz Mário Cordeiro que a semanada não é uma brincadeira e que os progenitores são convidados a encarar o assunto com seriedade, como se de um contrato de trabalho se tratasse. E não esquecer: “Tão importante como ensinar a administrar o dinheiro e os bens, é transmitir noções de solidariedade e de partilha. É bom que a semanada (ou parte dela) sirva para coisas que a criança ou o jovem vá oferecer (…) São práticas que ajudam a formar o caráter”, esclarece Mário Cordeiro.

Quando é que se começa a dar dinheiro aos filhos?
Para Cristina Valente, entre os seis e os dez anos de idade não se deve dar qualquer tipo de quantia monetária. A coach parental considera que é a partir dos dez — e mediante a capacidade financeira da família — que a criança pode receber dinheiro e ficar responsável por ele.

Mário Cordeiro, por seu turno, argumenta que a partir dos seis anos a criança começa a entender melhor a grandeza dos números e torna-se uma consumidora ativa, pelo que o ideal é começar a entrar em contacto com o mundo financeiro. É também nesta fase que se estabelece uma “melhor relação entre trabalho e esforço, por um lado, e recompensa, pelo outro”, explica.

Semanada ou mesada?
Semanada, sempre, e para todas as idades. A periodicidade em causa permite uma melhor e mais fácil gestão da verba e permite ao adolescente controlar o dinheiro com maior facilidade dado o curto espaço de tempo, alega Cristina Valente. “Caso faça um gasto exagerado, só terá de aguardar sete dias, no máximo, para voltar a ter liquidez”.

O pediatra é da mesma opinião, explicando que a mesada poderá dar à criança uma sensação de ter muito dinheiro e poder gastá-lo mais rapidamente. “Creio que um dos objetivos de receber este dinheiro, que passa por obter os desejos de uma forma calculada e controlada, terá maior êxito com uma semanada”.

“Os pais nunca podem estar dependentes das circunstâncias das outras famílias para decidirem que educação dar aos filhos. O que é comum e popular nem sempre é o melhor.”
Cristina Valente

Quanto dinheiro de semanada?
O pediatra defende que a quantia deve ser “muito pequena”, de forma a evitar que as crianças fiquem demasiado entusiasmadas e porque o valor do dinheiro pode ainda não ser totalmente entendido. Seguindo a mesma lógica, não é conveniente que esta seja reduzida em excesso, correndo o risco de humilhar a criança — a quantia depende dos pais, das famílias, dos hábitos e das tradições. Mário Cordeiro dá o exemplo: “Sugiro 2 euros para o 1º ano, 2,60 no segundo, 3 no terceiro, 4,50 no quinto e por aí fora. A partir de certa idade (9º ou 10º), os gastos começam a ser diferentes porque a autonomia da criança/adolescente já obriga a outro tipo de consumo”.

O essencial é que, independentemente do valor, a semanada não crie a falsa ilusão de que se vive acima de um nível que é o da família. Ou seja, se a família estiver a passar por dificuldades, a semanada deverá ser mais contida. Caso contrário, se gozar de uma certa folga financeira, a quantia poderá ser um pouco mais elevada. E o que as outras crianças ganham não serve de argumento para ajustes financeiros desapropriados.

Pode-se aumentar a semanada com o passar do tempo. O pediatra explica que considera ser saudável que esta obedeça às regras do mercado e que haja aumentos substanciais tendo em conta as fases de transição na vida de uma criança.

Cristina Valente traz outras realidades à equação: “Os pais nunca podem estar dependentes das circunstâncias das outras famílias para decidirem que educação dar aos filhos. O que é comum e popular nem sempre é o melhor”. E quando o assunto resvala para os irmãos? “Os mais velhos, tendo mais responsabilidades e competências, deverão receber mais do que os mais novos”.

Conheço famílias sem recursos que promovem a educação financeira nos seus filhos e famílias de classe média alta que falham nessa tarefa O segredo está na forma como os pais ensinam (ou não) a lidar com o dinheiro e não propriamente com a existência abundante dele.
Cristina Valente

Qual é o objetivo da semanada?
A semanada não é um orçamento para as necessidades básicas, nas quais se incluem transportes, alimentos, livros ou roupas. Mário Cordeiro defende que o “dinheiro extra” tem um propósito claro — permite ensinar à criança a gastar, poupar e, sobretudo, a gerir o dinheiro. Em última análise, o desafio vai desenvolver a autoestima dos mais pequenos, uma vez que os “obriga” a tomar decisões pela própria cabeça.

Conheço famílias sem recursos que promovem a educação financeira nos seus filhos e famílias de classe média alta que falham nessa tarefa. O segredo está na forma como os pais ensinam (ou não) a lidar com o dinheiro e não propriamente com a existência abundante dele”, diz Cristina Valente.

Deve-se trocar a semanada pelas obrigações das crianças (tirar boas notas, arrumar o quarto, ajudar em casa…)?
O dinheiro nunca deve ser dado em troca de tarefas rotineiras, diz Cristina Valente. “Até porque quando chegam à adolescência, a maior parte dos filhos não vai querer fazer a cama nem arrumar o quarto por nenhum dinheiro do mundo”, acrescenta. A exceção inclui tarefas muito específicas e cuja periodicidade não esteja definida, como a ideia de lavar o carro dos pais. Nesse caso, trata-se de uma recompensa pelo esforço extra. “Ser arrumado e limpo tem que ser uma recompensa interna e nunca tendo em conta a entrega de um valor”.

Mário Cordeiro segue uma linha de pensamento semelhante e diz que ações como fazer a cama e levantar a mesa não devem ser consideradas como “ajudas aos pais”, visto que as crianças estão, ao fazer as respetivas tarefas, a colaborar na gestão do bem comum que é a casa. Acrescenta ainda que a semanada dos pais não deve estar dependente de outras formas de rendimento da criança, como o dinheiro que os avós lhe dão ou as recompensas por alguns trabalhos efetuados.

Em que devem os filhos gastar o dinheiro?
Mais do que definir em que bens eles devem gastar o dinheiro, o importante é dar-lhes oportunidade para errarem, visto que só assim podem realmente aprender a lidar com o dinheiro. “Devemos aconselhar em primeiro lugar e, depois, dar liberdade à criança para que ela gaste onde quiser. Só assim aprenderá a diferença entre ‘necessidade’ e ‘desejo’, dois conceitos fundamentais na educação financeira”, diz Cristina Valente.

A que tipo de regras deve estar a semanada associada?
Para o pediatra, a criança deve ter a liberdade de gastar logo o dinheiro ou de juntá-lo, isto desde que a semanada não represente uma maneira de quebrar as regras já instituídas no seio familiar. Tais acertos precisam de ser definidos desde o primeiro instante como se de um contrato se tratasse, sendo que avós, tios e primos não deverão imiscuir-se ou estimular a criança (ou o jovem) a ir contra o que foi estabelecido. Ainda assim, é conveniente ter um certo controlo sobre as coisas, sobretudo no que se refere às crianças mais novas.

É bom ensiná-las a variar o objeto dos seus desejos e orientá-las tanto quanto possível para bens culturais e perenes, por oposição a bens estritamente de consumo e efémeros. Estimular a compra de um livro é um ato de pedagogia e não é a mesma coisa que comprar um chocolate”, conclui Mário Cordeiro.

Tão importante como ensinar a administrar o dinheiro e os bens, é transmitir noções de solidariedade e de partilha. É bom que a semanada (ou parte dela) sirva para coisas que a criança ou o jovem vá oferecer (…) São práticas que ajudam a formar o caráter.
Mário Cordeiro

Quando é que o termo “poupar” começa a ser relevante?
A coach parental considera que o verbo “poupar” deve ser introduzido no léxico da criança no 1º ciclo, isto é, entre os seis e os dez anos de idade. Já o pediatra atesta um claro “desde sempre”. E dá um exemplo: se a criança sai do quarto e não apaga a luz, os pais devem insistir que ela o faça; se são os pais a apagar a luz a criança não vai interiorizar a necessidade de poupar/não desperdiçar. Outra coisa que deve ser combatida é a promoção da aquisição de bens desnecessários só porque outras crianças também os têm — “Ter uma coisa só por moda é um atentado à liberdade individual e à autonomia”.

Quais as lições mais importantes sobre gestão financeira?
Não é o dinheiro que define a nossa essência, a nossa identidade, diz Cristina Valente, e mais importante do que ter muito é saber como criá-lo. A isso Mário Cordeiro acrescenta que as crianças são consumidoras direta ou indiretamente, “através dos produtos que os pais compram para elas e que chegam a ser mais de um terço do total do orçamento familiar”. Além disso, os mais novos precisam de se familiarizar com os termos “gerir, gastar e poupar” e conhecer as diferenças entre ser “pobre” e “frugal”.

É bom que os pais, quando vão na rua com o filho e ele pede qualquer coisa, digam: ‘Compra com a tua semanada’. Muitas vezes essa ânsia desaparece e a criança desiste porque aparece o obstáculo de ter de gastar [o dinheiro]”. E caso haja empréstimos à mistura, o pediatra defende que os progenitores devem estimular que as contas se façam assim que possível.

Tão importante como ensinar a administrar o dinheiro e os bens, é transmitir noções de solidariedade e de partilha. É bom que a semanada (ou parte dela) sirva para coisas que a criança ou o jovem vá oferecer (…) São práticas que ajudam a formar o caráter”, diz ainda Mário Cordeiro.

É muito importante que pais e filhos se vejam com respeito nesta ‘mesa de negociações’ que é a semanada. (…) Por isso é que é grave, embora não pareça, os pais esquecerem-se de dar a semanada e minimizarem o facto como se se tratasse de uma brincadeira. Não é. É uma coisa muito séria, mesmo que realizada tranquila e cordialmente.
Mário Cordeiro

E se o filho (ou a filha) gastar o dinheiro antes do tempo?
A opinião é, neste ponto, unânime. Diz Cristina Valente que o pai não vai precisar de criticá-la uma vez que a criança vai aprender sozinha que o dinheiro é um bem finito. Consequentemente vai ter de esperar até juntar a quantia necessária para poder voltar a comprar o que deseja. Mário Cordeiro sublinha o termo “desperdício”: “É bom fazer ver que há uma correspondência entre o que se compra e o que se produz e se tem”.

Como pode um pai dar dinheiro e, ao mesmo tempo, evitar que o filho se transforme numa pessoa consumista?
“Não é fácil, mas é simples”, diz Cristina Valente. O pai deve ser, ele próprio, uma pessoa pouco consumista. “Apesar de todas as influências dos pares, a dos pais continua a ser predominante. Uma atitude firme e sem culpas ou remorsos é essencial”. Mário Cordeiro acresce que é fundamental “mostrar que as pessoas valem sobretudo pelo que são e não pelo que têm”.

Os pais devem valorizar a boa gestão do dinheiro?
“Todas as crianças e jovens deveriam ter acesso a um plano de educação financeira para que, em adultos, sejam capazes de gerir bem o seu próprio dinheiro. A literacia financeira é uma competência de que todos precisam para serem membros ativos e responsáveis na sociedade”, conclui a Valente.

“É muito importante que pais e filhos se vejam com respeito nesta ‘mesa de negociações’ que é a semanada. (…) Por isso é que é grave, embora não pareça, os pais esquecerem-se de dar a semanada e minimizarem o facto como se se tratasse de uma brincadeira. Não é. É uma coisa muito séria, mesmo que realizada tranquila e cordialmente”, assegura o pediatra.

Fonte | Observador