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Cirurgia Pediatrica

21 de Abril de 2013

Amamentar – Mamã, eu quero

Primeiro, é preciso perceber que o aleitamento materno acontece por acção de duas hormonas: a prolactina e a ocitocina. A primeira é produzida pela hipófise anterior (uma glândula no cérebro) e é responsável pela produção do leite. A segunda é produzida pelo hipotálamo (outra glândula no cérebro), e posteriormente armazenada na hipófise posterior, e é responsável pela ejecção do leite aquando da amamentação. Quer uma quer outra são produzidas pelo estímulo de sucção do bebé. Existem terminações nervosas no mamilo que comunicam ao cérebro a informação de que a mãe está a amamentar, pelo que é preciso produzir mais leite.

Esta é efectivamente a única fórmula conhecida e 100% eficaz de estimular a produção de leite materno. A primeira estratégia é por isso colocar o bebé ‘à mama’. Quanto maior o estímulo, maior será a produção de leite. Se a criança não puder, por situação de doença, preguiça ou outra razão qualquer, a bomba extractora fará essa  estimulação.

os filhos dos outros

Existem outros factores que influenciam a  produção de leite, mas de uma forma pouco significativa. Como é óbvio, estando as glândulas responsáveis pela produção das tais hormoas prolactina e ocitocina dentro do cérebro, o bem-estar da mãe, relaxada, disponível, influenciará positivamente a produção de leite. O Sistema Nervoso é uma intrincada rede de comunicações e, como em tantas outras coisas, o estado ‘nervoso’ de uma pessoa influencia todo o organismo.

Mais, uma alimentação saudável é fundamental para a mãe conseguir amamentar. Ainda assim, a quantidade e a qualidade do leite produzido pela mãe não são tão afectadas, como à primeira vista se poderia pensar. Para o organismo da mãe o leite é prioritário. Mesmo com uma alimentação menos cuidada, o leite será o suficiente para saciar o filho e conterá os nutrientes necessários ao seu crescimento. Como para o organismo da mãe o leite é prioritário, a mãe ficaria nutricionalmente debilitada ainda antes de fornecer leite ‘debilitado’ ao seu filhote. A mãe deve ter uma boa alimentação, equilibrada, tal como deveria ter se não estivesse a amamentar.

Quanto a alimentos, suplementos ou medicamentos para aumentar a produção de leite? Para dizermos se um tratamento (seja um chá, uma alimento específico, ou fármaco) aumenta a produção de leite, no mínimo, teríamos que comparar a quantidade de leite de um grupo de mães a fazer esse tratamento com outro grupo a não fazer um placebo (isto é, um medicamento sem efeito, um copo de água com açucar, por exemplo). Existe um artigo recente (em inglês) no Journal of Pharmacy & Pharmaceutical Sciences que faz uma revisão sobre os que existe publicado nesta matéria. Infelizmente os estudos comparativos são poucos e os que existem são de duvidosa qualidade. Tudo que envolva chás/infusões é difícil de quantificar. Começa pela a dose, logo, o efeito real e as reacções adversas que dela advenham. Encontrei um único estudo comparativo com chá contendo a erva fenugreek (em português, feno-grego ou alforva). Neste estudo parece haver uma maior produção de leite nas mães que bebem este chá e um aumento de peso maior nas suas crianças, mas este estudo limitou-se aos primeiros 3 dias de vida e, mais uma vez, não se percebe qual a quantidade de chá foi administrada.

No mercado português, está disponível um suplemento à base de outra planta. A Silybum marianum (em português, cardo-mariano), uma planata cuja capacidade ‘galáctica’ está estudada em vacas, mas cujos estudos em humanos nunca foram randomizados, nem duplamente cegos, pelo que a comparação com quem ficou com o placebo está carregada de erros. Dir-me-iam: não custa tentar. Depende. Mesmo não pagando pelo chá, pode haver reacções adversas na criança. Pelos estudos, não sabemos se sim nem se não. Se a mãe optar por tentar, deverá estar bem atenta à reacção da criança e parar, caso note alguma alteração do seu comportamento normal. Quanto a chás e mezinhas estamos falados.

Quanto a fármacos, existem vários que aumentam a produção de leite materno. Na maioria dos casos, os efeitos adversos, sejam eles sobre a mãe ou sobre a criança, são tão graves que não justificam o risco. Mas, ultimamente, tem se criando uma esperança há volta de dois fármacos muito conhecidos, muito estudados, muito bem tolerados, quer pela mãe, quer pela criança, mas com uma acção gastro-intestinal que nada parecia ter a ver com a lactação. São eles a metoclopramida (Primperan) e domperidona (Motilium). Nos últimos anos, têm saído vários estudos comparativos (daqueles randomizados, duplamente cegos, como manda o figurino) e são perentórios a afirmar que quer um quer outro aumentam a produção de leite materno. Seja como fôr, são medicamentos e nenhum artigo recomenda a sua utilização sem se esgotar a possibilidade de uma estimulação mamária adequada. De qualquer forma, temos aqui a promessa de uma solução de recurso.

Dr. João Moreira Pinto

E os Filhos dos Outros