Espaço Família | Somos Avós

30 de Março de 2015

MÃE, PODEMOS DEIXAR AÍ OS MIÚDOS? por Vera Sacramento

maria capaz

Sexta-feira à noite. Depois de uma semana infernal de trabalho vegetamos os dois no sofá de braços abertos como se tivéssemos acabado de sair de um ringue de boxe. Totalmente knock out. O mais velho corre pela sala de pantufas atrás da bola enquanto a mais nova, vestida de princesa, faz mais uma das suas obras de arte, pintando uma folha A4 com verniz das unhas. O telefone toca. É uma amiga a desafiar-nos para ir ao Teatro. Estamos de gatas, mais mortos que vivos… mas é aquela peça que queríamos tanto ver e que está quase a sair de cartaz. Recuperamos o fôlego e começamos o nosso périplo. A primeira chamada é para a avó materna.

– Mãe, podemos deixar aí os miúdos?

– Nós não estamos em Lisboa, querida. Viemos passar o fim-de-semana fora. Se nos tivessem avisado antes…

– Ah… claro. Não há problema nenhum.

– Está tudo bem com os meninos?

– Tudo bem. Divirtam-se!

Desligo, mas nem tudo está perdido. Próxima tentativa, avó paterna. O telefone toca seis vezes e nada de resposta. Calma. Espero cinco minutos e ligo outra vez. Ouve-se um barulho ensurdecedor do outro lado da linha.

– Olá! Sou eu, a Vera.

– Quem?

–  (grito) A VE-RA! A sua nora.

– (risos) Olá! Estás boa? Desculpa… é que vim ver um concerto com as minhas amigas e ficámos mesmo ao pé de uma coluna. Precisas de alguma coisa?

Olho para o meu marido e passo a mão pelo pescoço, como quem diz “Já fomos”.

– Não… não. Era só para saber se estava tudo bem. Um beijinho… Divirtam-se!

Dois tiros na água e sem mais munições para disparar. Numa sexta-feira à noite não encontraríamos uma babysitterdisponível em nenhuma parte do planeta. Lá se tinha ido o Teatro e, provavelmente, uma boa noite de copos com os amigos. Algum tempo depois, já com os miúdos a dormitar no meu peito e o pai deles a sujar o sofá com baba, lembrei-me das minhas avós. A minha avó Alcina, mulher do norte, com que aprendi a plantar morangos, a depenar galinhas e a misturar couves com farelo para “deitar aos animais”. Na sua casa junto ao rio, chegava a receber-me três meses inteiros. Três meses de férias repletos de aventuras e de amor incondicional que passavam num instante, deixando sempre saudades. Fazia tudo o que eu queria, estragando-me com mimos. Como só uma avó babada sabe fazer. Ainda hoje me lembro do cheiro doce das travessas de aletria que colocava na mesa, enfeitadas com quadradinhos de canela. Com a minha outra avó, a Vera (de quem herdei o nome) os programas eram bem diferentes. Senhora elegante da capital, gostava de me levar a um salão de cabeleireiro no Saldanha para que eu visse como as mulheres se tornavam mais belas e atraentes. Depois seguíamos para a Versailles, para beber um chá e conversar. Como tinha três filhos rapazes e sempre desejara uma menina, a minha avó Vera “apropriou-se” de mim, fazendo-me sua pupila. Foi ela que me iniciou nos clássicos da literatura, ensinou-me os nomes das flores, dos planetas, das várias fases da lua… e também algumas receitas culinárias. Pena é que, nesse campo, tenha desperdiçado tanta saliva em vão. Sempre fui um autêntico desastre na cozinha!

Apesar de não o assumirem, as minhas avós tinham uns ciúmes doidos uma da outra. Andavam sempre a competir para ver quem é que ficava com os netos. Olhando para trás, percebo que naquele tempo a vida das mulheres era bem diferente daquilo que é hoje. Com alguma tristeza, vejo que as minhas avós dedicaram grande parte da sua vida à família… remetendo-se totalmente para terceiro plano. Sem sequer pensarem naquilo que estariam a perder.

Confesso que fiquei muito irritada por não ter ido ao Teatro nessa noite. Não vou mentir. Apetecia-me ver uma boa peça, dizer disparates, descontrair, limpar a cabeça… mas não era justo censurar os avós dos meus filhos por não terem disponibilidade para ficar com eles. As coisas mudaram… e ainda bem! São avós ativos, modernos. Têm a sua vida, os seus amigos, a sua agenda pessoal. Querem namorar, viajar pelo mundo, ir ao ginásio, ao cinema… voltar a estudar. E têm todo o direito a isso. Na verdade eles já passaram por tudo o que nós estamos a passar, criaram os filhos… e agora querem aproveitar o tempo que lhes resta. Não é por isso que nos amam menos. Bem pelo contrário. Se estiverem felizes, terão muito mais para nos dar. Sempre me incomodaram aquelas pessoas que usam e abusam da boa vontade dos pais, utilizando as suas casas como “depósito de crianças”. E há tantas que se demitem permanentemente das suas responsabilidades, empurrando-as para cima dos outros. Ser avó (ou avô) não é uma obrigação. É um ato de amor.

Um dia, quando crescer, também vou ser avó. E quero ter tempo para mim.

Dedico este texto à minha mãe, à Alice, à Manuela, à Filomena, à Rosa, à Branca e a tantas outras avós de quem me orgulho.

Fonte: Maria Capaz