Atualidade

14 de Janeiro de 2015

Liliana venceu Portugal, o país do medo

“Dou o nome e a cara porque não tenho de ter vergonha, eles é que deviam ter.” Eles é a empresa do sector hoteleiro onde trabalhava. Quando engravidou, Liliana pesava 45 quilos e na sua baixa estatura cedo se notou: “Era impossível disfarçar a gravidez, via-se logo.” Surgiram os primeiros reparos da entidade patronal: “Os chefes diziam que estava a ir muitas vezes à casa de banho.”
Foi o primeiro sobressalto: “Quando soube que estava grávida, apeteceu-me gritá-lo ao mundo.” O marido ficou a saber pela caixinha que lhe ofereceu com sapatinhos de bebé. E com uma frase: “Dentro de mim batem agora dois corações por ti.” Tudo era harmonia e felicidade para o jovem casal.

Prometeram-lhe a renovação do contrato de seis meses no regresso das férias e, antes de voltar, às 13 semanas, quando a gravidez é considerada evolutiva, informou a empresa do seu estado. “Não tive resposta. Quando cheguei ao trabalho, já estava uma pessoa em formação no meu posto.”
A questão está em tribunal. O advogado não vai reclamar pela gravidez, mas porque, como a lei não permite, Liliana Pereira foi despedida e imediatamente substituída no seu posto de trabalho.

“O próximo medo que tenho é o de não vir a conseguir emprego por ter uma criança pequena”, anuncia. Não é atreita a receios infundados, mas há nuvens no horizonte feitas da experiência de outros. De casos que ficaram no anonimato, na perversa discrição de relações laborais cada vez mais desequilibradas. “Tive uma colega que, para renovar o contrato, teve de abdicar do direito das horas para amamentação. Ela cedeu à chantagem pelo medo de não encontrar trabalho. Renovaram-lhe o contrato sem as horas para o bebé”, relata.

A inquietação é sinónimo de desesperança. “O nosso medo está a juntar-se à ansiedade de um presente que não tem futuro”, anota José Gil. O filósofo e professor universitário que, em 2004 contra a corrente da moda e a euforia do dinheiro pós-euro, escreveu Portugal Hoje: O Medo de Existir, não está optimista. “O que eu não escrevi no livro, e que hoje me parece certo, é que os medos actuais — do futuro, de perder o emprego — se articulam no medo mais profundo de que então falava, o medo de existir, de não se afirmar”, assinala. E a afirmação de Liliana é poder ser mãe.

A realidade tem um efeito dominó

“Vivemos sempre na crença, na espera de que surjam melhoras, agora temos a crença apreensiva de que tudo vai piorar ou estagnar.” Esta crença apreensiva é o receio do próximo medo que atormenta Liliana: o de não poder conciliar um trabalho com a maternidade. “Surgiu o medo de falar, de denunciar situações, de falar das relações das pessoas com o emprego. As pessoas sujeitam-se a tudo e têm a consciência de estar a ser exploradas”, corrobora Fernando Sampaio, capelão do Hospital de Santa Maria: “Isto já se notava em 2008/2009, mas acentuou-se. É um sentimento que acolhemos com dor. Em confissão, as pessoas queixam-se das sacanices para preservar o trabalho. Porque sentem que, se agirem de outra forma, o podem perder.”

Abre-se uma caixa de Pandora e os sentimentos saem em cascata. “Perder o trabalho gera outros medos, o medo de perder a autonomia, a casa, o medo de não poder manter a família com dignidade, o medo de perder a saúde”, destaca o sacerdote: “As pessoas para além da meia-idade têm um medo tremendo do futuro, da manutenção das suas reformas, do futuro dos filhos, dos netos.”

Na Cáritas, existe a mesma convicção, fruto da soma da crise à diminuição dos apoios sociais. “O medo está associado à incerteza sobre os projectos de vida, a crise está a demorar muito tempo a ser ultrapassada sem a tal luz ao fundo do túnel”, constata o presidente, Eugénio Fonseca: “Aliás, actualmente, mais de metade dos desempregados não recebem subsídio de desemprego.”

A realidade tem um efeito dominó: “Há o medo de quem tem trabalho e teme perdê-lo, dos que já o perderam e receiam não voltar a trabalhar, pois de início pensavam que a sua condição de desempregado era uma situação temporária.”

A experiência leva a detectar outros medos. “Têm o medo de se expor”, continua o presidente da Cáritas: “Não deixou de existir o pudor, mas na luta pela sobrevivência gritam mais alto a fome e as depressões.” Depois, há o receio de não ultrapassarem o problema. “Vêm com o medo de não encontrar repostas, a desconfiança de não encontrarem a solução de que necessitam”, relata Eugénio Fonseca: “Não podemos dar uma resposta total, às vezes aparecem com dívidas de um tal valor, de 15 mil euros, que uma instituição que vive da generosidade não tem capacidade de enfrentar. Podemos ajudar, atenuar, mas não resolver.” Foi a partir de 2010 que a situação se degradou. Hoje, só 45% dos pedidos de ajuda para endividamento são satisfeitos. Na maioria, são apoios ao pagamento de rendas de casas. Já as ajudas a propinas escolares passaram de cinco, em 2011, a 26 no ano passado.

Por fim, o último degrau desta espiral. O medo de não conseguir: “Agora, na Cáritas, ajudamos as pessoas a criar o seu posto de trabalho, através do financiamento do Fundo Social Solidário da Conferência Episcopal Portuguesa, o que leva ao medo do insucesso, de novos problemas, de falir, o medo do endividamento.”

Jorge Morgado, secretário-geral da Deco — Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor, conhece outros medos. “Ainda há pessoas que têm medo de reclamar, temendo represálias, o que acontece de forma mais nítida com a saúde, os lares da terceira idade ou a qualidade do ensino, razão pela qual preferem não se identificar como reclamantes”, diz. “Os estratos sociais menos favoráveis à reclamação são os menos instruídos e as pessoas com mais de 60 anos.”

Na Deco, crescem as taxas de reclamação: de cerca de 366 mil, em 2011, para mais de meio milhão no ano passado. No entanto, também aumentam os casos de quem opta pelo anonimato da denúncia. “Há o medo de que a sua situação pessoal seja conhecida quando caíram num logro, numa vigarice, não por temerem uma represália mas por pudor, o de mancharem a sua imagem”, relata Morgado.
“Há algum medo do desconhecido, da inovação, da mudança de hábitos de consumo, as pessoas são conservadoras em relação a determinados consumos e a fornecedores, preferem a reparação mesmo quando a substituição do ponto de vista económico e de gestão era aconselhável”, exemplifica o secretário-geral.

A crise económica introduziu um novo factor, mais dramático: a luta pela sobrevivência. O que consolidou medos e gerou outros. “Há pessoas que vivem uma situação de pânico em relação ao futuro, não há luz ao fundo do túnel, há a consciência de que não é uma situação temporária”, assinala o dirigente da Deco: “É o medo pela sua vida e a dos filhos, o medo de não terem dinheiro para comer e dar de comer ou para pagar a casa.”

Os processos de sobreendividamento tramitados pela associação são uma das radiografias destes tempos difíceis. De 152 no início deste século, há 14 anos, passaram a 1552 até 30 de Junho último. Com picos que permitem situar no tempo a dureza das dificuldades: em 2008 foram mais de dois mil, mas no ano passado foram 4034. À cabeça das causas, está o desemprego e a deterioração das condições laborais. Ou seja, a diminuição dos rendimentos.

E surge um novo medo: “Que os outros saibam, como ocorre nas classes médias, que foram os que mais possibilidades tiveram de se endividar. Na grande Lisboa e no grande Porto, há milhares de pessoas que não têm fornecimento de gás, água e electricidade. As empresas concessionárias têm os números mas não os divulgam.”

Fonte | Público