Espaço Família | O nosso 1º Filho

Cirurgia Pediatrica

24 de Junho de 2013

Invaginação intestinal

Sempre me falaram das cólicas  quase como algo inerente à condição de bebé! Percebi pela primeira vez o que sã as indesejadas cólicas, quando a M. começou a chorar e a encolher-se … estava inconsolável! Lembrei-me das massagens e os exercícios que me aconselharam  … Depois de algum tempo a chorar, a M. ficou mais aliviada e coitadinha… muito cansada!

 

Todas as crianças (mais tarde ou mais cedo) têm cólicas abdominais. A cólica é aquela dor forte, terrível, que faz com que o bebé chore e se encolha (ou a criança mais velha se aninhe), inconsolável e que acaba por passar sozinha, passados uns segundos ou minutos. Na maioria das vezes, relaciona-se com a passagem de ar pelo intestino (vulgo ‘gases’), que, ao distendê-lo, accionam os receptores da dor e estes comunicam a dor ao cérebro. Como o ar passa, também a cólica passa. Pode voltar ou não, por vezes até ciclicamente, até à saída do ar pelo ânus (vulgo ‘pum’). Nessa maioria das vezes, é assim simples, mas há uma situação para a qual os pais deverão estar atentos: a invaginação intestinal.

Invagina-quê? A invaginação intestinal é a causa mais frequente de oclusão (obstrucção) intestinal no lactente. 1 a 4 bebés em cada 2000 terão uma invaginação, mais nos meninos que nas meninas. A invaginação é um acontecimento anómalo no intestino, em que parte dele começa a ser empurrado para dentro da porção que o segue. A parte proximal (isto é a mais próxima da boca) começa entrar pela porção mais distal, como fosse uma manga de camisola a enrolar sobre si mesma. A imagem em baixo é bem explicativa.

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[fonte: jamanetwork.com]

O intestino fica apertado e impede a progressão do seu contéudo (gás e fezes), originando o tal quadro de oclusão. A cólica abdominal da invaginação é muito típica e é o seu sintoma inicial mais frequente. Para além de violenta e inconsolável, ela segue-se de um período de estranha acalmia por parte do bebé, por vezes até letargia (isto é, como tivesse esgotado). Outros dos sintomas que aparecerão mais tarde são: os vómitos e uma diarreia com muco e sangue (descrita classicamente como ‘geleia de morangos’). Trata-se de uma urgência cirúrgica, pois o intestino ocluído pode isquemiar e necrosar (por falta de irrigação sanguínea).

Porque é que isto acontece? A idade mais frequente de aparecimento é entre os 3 e os 12 meses. 90% aparecem até aos 3 anos. Nestas idades, a mobilidade do intestino é maior e as placas de Peyer (placas de tecido linfóide, responsáveis pelas defesas imunológicas do intestino) são maiores, o que faz com que, por vezes, o intestino interprete estas placas como sendo uma massa extrínseca (vulgo fezes) e o tente eliminar, provocando a tal progressão do intestino sob si mesmo – a invaginação intestinal. Como de facto em 95% dos casos, este aumento das placas de Peyer é a causa da invaginação, compreende-se que haja um aumento sazonal desta doença e que esta que acompanhe o picos das viroses: Inverno com os vírus respiratórios, Verão com as gastroenterites. A primeira vacina contra o rotavirus (Rotashield) foi suspensa do mercado americano porque se relacionava com aumento da incidência de invaginação. (Voltarei a este assunto no futuro).

Por vezes, a invaginação intestinal sente-se na palpação abdominal. O diagnóstico pode e deve ser confirmado através de ecografia. O tratamento é relativamente simples. Consiste na injecção de ar, água ou material de contraste pelo ânus de forma a empurrar o intestino de volta para fora de se mesmo. Esta injecção é controlada através de raio X ou ecografia. Este resultado poético pode não ser conseguido e obrigar a uma cirurgia, (laparoscópica ou aberta). Há quem defenda que, nos casos recorrentes (8-12% dos casos já tratados voltam a invaginar) e nas crianças maiores (3-4-5 anos), deva ser feita logo cirurgia, pois permite ver se não existe outra causa responsável pelo tal efeito de massa extrínseca (origem ou lead point da invaginação intestinal), que pode ser: linfoma, divertículo de Meckel, pólipos intestinais, duplicidade intestinal, entre outros.

Dr. João Moreira Pinto

Cirurgião Pediátrico
E os Filhos dos Outros