Atualidade

24 de Outubro de 2014

Implicar com quem é gago é “bullying inconsciente”

A gaguez continua a ser vista em Portugal como piada e, em muitos casos, chega mesmo a ser “bullying inconsciente” contra crianças e jovens, que não encontram nas escolas terapeutas suficientes para responder a esta perturbação da fala.

O diagnóstico é feito pela Associação Portuguesa de Gagos (APG) na data em que se assinala o Dia Internacional de Consciencialização para a Gaguez.

“Em Portugal ainda há muito a utilização da gaguez para a piada, para o riso fácil, às vezes sem consciência do impacto que isso tem na pessoa que gagueja”, disse à agência Lusa o sociólogo Daniel Neves da Costa, da APG.

Estigma social nos adultos e uma espécie de “bullying inconsciente” sobre as crianças e jovens em idade escolar contam-se entre os principais impactos da gaguez, que se estima atinja cerca de 100 mil portugueses.

Existem “formas de bullying e opressão das crianças e jovens que gaguejam de uma forma muito inconsciente”, sublinhou, adiantando que o número de terapeutas da fala nas escolas é insuficiente. “Nestes últimos anos com todos os cortes e restrições no ensino especial têm surgido dificuldades acrescidas”, no acesso aos terapeutas da fala, disse o sociólogo.

A cobertura do Serviço Nacional de Saúde (SNS) não existe em todo o país, o que leva muitos pais a recorreram à associação, criada em 2005, para aconselhamento sobre terapeutas e terapias.

A gaguez pode ser tratada de várias formas e, segundo Daniel Neves da Costa, quanto mais precoce for o diagnóstico e a intervenção, melhores são as perspetivas do tratamento.

O problema é que quando os pais recorrem aos médicos de família existe uma tendência de os aconselhar a deixarem passar algum tempo na expectativa que a gaguez desapareça. “Isso é um dos problemas que a APG está a tentar resolver junto da comunidade médica”, disse. Terapia da fala, instrumentos eletrónicos e medicação podem ajudar a um discurso mais fluente, mas a APG lembra que não existem “curas milagrosas” para a gaguez.

Debater todas estas terapêuticas para disponibilizar melhor informação às famílias é o que se pretende com mais uma edição das jornadas sobre a gaguez, a promover no sábado.

A gaguez, que atinge cerca de um por cento da população mundial, é uma perturbação da fluência da fala caracterizada por repetições, prolongamento de letras ou sílabas, pausas inesperadas e bloqueios.

As causas da gaguez podem ser genéticas (60 por cento das pessoas com gaguez têm um familiar gago), neurológicas (os gagos usam áreas neuronais distintas) e psicossociais (condições do desenvolvimento linguístico na infância). Em cada cinco pessoas que sofrem de gaguez, quatro são homens e apenas uma é mulher e na maioria das crianças, a gaguez surge entre os dois os cinco anos.

Fonte | Pais&Filhos